
TEXTOS ESCOLHIDOS. (Reedição da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln)
(Original do “Dicas Online”)
Há 67 anos, a cadela Laika foi lançada ao espaço. Seu nome significa "pouco latido", mas seu verdadeiro nome era Kudrjavka, que em russo significa "encaracolado". Laika foi pego na rua em Moscou. Metade Husky e metade Terrier, ela tinha cerca de 3 anos de idade no momento da sua seleção.
Laika não foi apenas um animal enviado ao espaço. Foi uma cadela retirada das ruas de Moscou e transformada, pela urgência política da Guerra Fria, em símbolo de uma vitória científica que já nasceu marcada por uma sentença. Em 3 de novembro de 1957, a União Soviética lançou o Sputnik 2 menos de um mês depois do Sputnik 1, o primeiro satélite artificial da história. Há registros que a missão foi preparada às pressas, com forte valor de propaganda, e que Laika se tornou o primeiro animal a orbitar a Terra.
Há uma correção importante. O nome original da cadela era Kudryavka, normalmente traduzido como “Pequena Encaracolada”. Depois, ela também ficou conhecida como Laika, porque essa palavra era associada a “barker”, algo como “a que pouco late”. Era uma cadela mestiça, recolhida nas ruas, escolhida por tamanho, temperamento e resistência. O Royal Museums Greenwich informa que os soviéticos acreditavam que cães de rua suportariam melhor frio, fome e condições duras; também registra que Laika passaou por testes severos, inclusive confinamento em cápsulas cada vez menores.
A cápsula tinha recursos de sobrevivência, mas não tinha futuro. Havia oxigênio, alimentação em forma gelatinosa, sensores para sinais vitais, câmera e compartimento acolchoado. A tecnologia de retorno não estava prevista. A missão, portanto, não era uma aventura arriscada: era uma viagem sem volta. Há informes que não havia provisão para recuperar Laika e que o sistema ambiental não fora projetado para uma missão longa.
Durante décadas, a versão oficial soviética sustentou que Laika teria sobrevivido vários dias. Depois, vieram as revelações. O Smithsonian registra que sua respiração e seus batimentos dispararam no lançamento; depois, a perda de proteção térmica fez a temperatura interna subir. O médico e pesquisador Oleg Gazenko revelou que ela morreu pouco tempo depois do lançamento; outras fontes apontam morte entre cinco e seis horas, ou após poucas órbitas, por superaquecimento e estresse.
O Sputnik 2 continuou girando sem sua passageira. A nave reentrou na atmosfera em 14 de abril de 1958 e se desintegrou. O Royal Museums Greenwich registra cerca de 2.570 órbitas antes da reentrada. O argumento científico existe e não pode ser apagado. Naquele momento, ainda se sabia pouco sobre os efeitos da aceleração, da ausência de peso e da radiação sobre organismos vivos em voo orbital. Mas a sensibilidade poética e artística, não se contece diante de tudo isso.
Mas a grandeza técnica não elimina a ferida moral. A pergunta permanece. O fato de uma missão abrir caminho para voos humanos autoriza a condenação de um ser vivo incapaz de consentir? O Smithsonian registra que, mesmo nos anos 1950, houve protestos. A RSPCA e a British Society for Happy Dogs se opuseram ao lançamento, e defensores dos animais chegaram a marchar diante da ONU, em Nova York, com cães levando cartazes de protesto.
A própria ciência soviética, com o tempo, admitiu o peso da culpa. Oleg Gazenko, ligado ao programa que usou cães em testes espaciais, declarou mais de 30 anos depois: “Quanto mais o tempo passa, mais me arrependo.” A frase é curta, mas derruba a retórica da glória. Aliás, ele havia levado Laika para sua casa e a deixou brincar com seus filhos, alguns dias antes do lançamento. No fundo, não se trata de negar a história espacial. Trata-se de reconhecer que a conquista teve uma vítima sem voz.
A PETA, organização de defesa dos direitos dos animais, trata Laika como exemplo extremo da crueldade experimental. Em publicação recente, afirma que ela foi lançada em missão de mão única e que os próprios responsáveis sabiam que ela morreria. A entidade também associa a história de Laika ao debate atual sobre cães usados em laboratórios, defendendo que a docilidade animal não pode ser confundida com disponibilidade para o sofrimento.
E claro, os poetas e artistas do Mundo inteiro não poderiam ficar de fora desse evento desastroso. Por isso, a editoria do Facetubes foi em busca de encontrar, pelo menos, na história, 2 poemas fortes que falassem do assunto. E encontrou. Um deles é de Adam Włodek. O poema inteiro é um gesto de reparação simbólica: Adam Włodek devolve a Laika aquilo que a história oficial não lhe deu — humanidade, dignidade e luto. Esse poema é, na verdade, um epitáfio simbólico para Laika, tratando-a como uma vítima silenciosa do progresso humano. Włodek lamenta o destino da cadela, destacando a solidão, o sofrimento e a falta de escolha que ela teve ao ser enviada ao espaço. O tom é elegíaco e crítico. Laika aparece como um ser inocente sacrificado em nome da ciência e da ambição humana. O poema também sugere que sua morte deveria servir como reflexão moral, não como triunfo:
„Tu, która nie wróciłaś…”
„…pierwsza wśród gwiazd samotna.”
Trad. livre: "Tu, que não voltaste... /...a primeira solitária, entre as estrelas."
Outra poeta que se assombrou com esse fato foi Sarah Doyle. (Londres).
Laika
Sarah Doyle - Trad. Livre.
Vira‑lata das ruas de Moscou, sem dono,
sem afeto. Cinco quilos de osso,
de pele, de cauda. Quem pode pesar
o coração de um cão? Que mostradores
ou instrumentos podem medir
a lealdade; o desejo, gravado nos nervos,
de obedecer? Cães não têm deuses,
sabem apenas adorar a mão
que os alimenta. Não existe palavra canina
para rezar. Pequena e valente
cosmonauta, fiel até o limite;
capturada e posta na coleira, a Terra não é
mais que uma bola distante
com a qual você não pode brincar. Como
as palavras que a enviaram
em sua jornada estalam
nos pratos gastos de suas orelhas,
uma cauda de cometa feita de sílabas
partidas que ainda agora deixam
seu rastro: Laika, entra. Laika, deita.
Boa menina, Laika. Espera. Fica.
******
Até hoje, há uma comoção geral entre artistas com relação a esse epísódio. até então, a morte real de Laika havia sido escondida do grande público, até a verdade vir à tona. Leia:
O fim de Laika: superaquecimento e Pânico: a cabine da Sputnik 2 superaqueceu devido a uma falha no sistema de controle térmico e à má separação do motor central do foguete. Laika morreu de superaquecimento e estresse extremo. O mesmo Oleg Gazenko, um dos cientistas responsáveis por treinar Laika, disse: "(...) nós não tínhamos estudos suficientes sobre essa missão que pudessem justificar a morte da cadela". Com a morte, a nave com o corpo de Laika continuou em órbita por 162 dias, completando 2.570 voltas ao redor da Terra, até se desintegrar na atmosfera em 14 de abril de 1958.
Mesmo com essa trágica experiência, o uso de animais em testes espaciais continuou. A União Soviética, de 1948 a 1961, lançou 48 cães ao espaço, 20 deles morreram. Ao mesmo tempo, os americanos enviaram 15 macacos para o espaço, sendo que oito morreram.
O envio de animais ao espaço começou a cessar com o lançamento de seres humanos. Yuri Gagarin, que ficou uma hora e meia no espaço em 1961, em uma missão que exigia pouca destreza, brincou uma vez dizendo que foi, ao mesmo tempo, a "primeira pessoa e o último cachorro no espaço".
Enfim, entre todas as referências literárias sobre Laika, a frase mais poderosa e frequentemente citada é do escritor e ensaísta Kurt Vonnegut, influente escritor norte-americano. Sua obra mais famosa, Matadouro-Cinco (1969), baseia-se em sua experiência como prisioneiro de guerra na Segunda Guerra Mundial, testemunhando o bombardeio de Dresden. Foi ele, em ensaio, que descreveu com muita propriedade a cadela Laika como símbolo do custo moral do progresso humano:
“A primeira criatura a orbitar a Terra não foi um herói — foi uma vítima.”
— Kurt Vonnegut
Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln.
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