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Relações líquidas
"A tecnologia, por exemplo, aproximou quem está distante, mas afastou quem está perto".
Ao longo dos anos, aprende-se que as coisas não ocorrem como foram planejadas, e a percepção que tempo é tudo desmorona na nossa frente, embora tenhamos feito tudo com tão zelo e atenção. Percebemos que os nossos anseios, as nossas angústias, os nossos medos nem sempre tem uma explicação - pelo menos de imediato - tão explícita como desejamos por quaisquer motivos que sejam.
As coisas da vida muitas vezes nos são consoladoras por fazerem rememorar coisas que nos explicam os porquês de cada ação e de seus resultados. A sensação que temos é que nada ocorre como deveria, mas aos poucos vão vendo que há sempre algum motivo para tais situações pelas quais passamos. A transparência das coisas surge no momento certo para mostrar o quão importante é cada ato de nossas vidas, e as consequências nos ensinam que cada minuto vale a pena ser vivo e não merece a alta velocidade que nós damos apenas para ter uma sensação momentânea de conforto. No entanto o que não conseguimos compreender é que o sentido deve nos prender somente para as coisas que de fato valham a pena, pois são elas que farão nossas vidas melhores e em harmonia com coisas boas.
Zygmunt Bauman, sociólogo polonês falecido em 2017, costumava afirmar que todas as relações humanas - afetivas principalmente - são muito passageiras e não são construídas com a vontade de serem mantidas. Qualquer ato falho, por mínimo que seja, são descartadas ou trocadas como se não valessem nada. A globalização e o processo de modernização deixaram as relações mais individualizadas em que apenas uma única é importante, o que torna as frustrações cada vez mais elevadas. A pressa para se conseguir as coisas nos torna cada mais ansiosos por essas conquistas, além de reduzirem e fragmentarem a condição humana a uma pequena sensação de vida sem nenhum tipo de proveito.
A tecnologia, por exemplo, aproximou quem está distante, mas afastou quem está perto. Uma vez Bauman disse que "os telefones celulares ajudam a ficarmos conectados àqueles que estão a grandes distâncias. Mais do que conectar, os celulares permitem preservar essa distância.” Em um constante processo de renovação, a satisfação pelas coisas não acaba nunca acaba, sempre queremos cada vez mais. Há sempre essa eterna fluidez permite que tudo acaba o mais rápido possível, haja vista as pessoas nunca estão satisfeita com que tem, o que faz com que elas se desfaçam do que tem muito rápido.
Qual o verdadeiro valor que devemos dar ao que temos? A resposta sempre será individual, pois o processo de identidade parte da necessidade que cada um faz, o que cada um procura para alimentar o próprio ou sua simples necessidade de sentir-se melhor, mesmo que temporariamente, pois percebe-se que o sujeito sempre será aquilo que consome, e a oferta pelo consumo sempre varia a cada temporada.
A sensação de angústia e a ansiedade que as pessoas sofrem podem ser resultado dessa aceleração por conquistar algo o mais rápido possível. Potencializar o mundo para atender apenas as nossas necessidades talvez não seja o método mais adequado para perceber a verdadeira aparência e a beleza de cada momento, assim poderá haver equilíbrio natural em qualquer tipo de relação humana.
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NE: Excelente texto. Obrigado pela oportunidade de reproduzí-lo, respeitando os créditos pertinentes.
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