
Editoria de Cinema da Plataforma Nacional do Facetubes
Claro que muita gente se lembra do ator Daniel Day-Lewis. E hoje, onde e como ele está aos 68 anos? Antes, vale contar sua história nas telonas: seu primeiro papel de grande destaque foi em My Left Foot (1989), no qual interpretou Christy Brown, um homem com paralisia cerebral que se torna artista e escritor — desempenho que lhe rendeu o Oscar de 1990. Antes disso, já chamara a atenção em My Beautiful Laundrette (1985), vivendo Johnny, um jovem punk de Londres cujo romance atravessa barreiras sociais.
Nos anos 1990, Day-Lewis mergulhou em papéis históricos e biográficos: em The Last of the Mohicans (1992) foi o frontiersman Hawkeye, explorando a América colonial; em In the Name of the Father (1993) viveu Gerry Conlon, injustamente condenado por terrorismo; e em The Age of Innocence (1993) incorporou o aristocrata Newland Archer na adaptação do romance de Edith Wharton.
Já no novo milênio, sua parceria com diretores de peso o colocou em obras icônicas: em Gangs of New York (2002), sob a direção de Martin Scorsese, personificou o implacável Bill “O Açougueiro” Cutting. Foi rival de Leonardo DiCaprio. Em There Will Be Blood (2007), entregou-se ao magnata do petróleo Daniel Plainview, papel que lhe rendeu seu segundo Oscar em 2008; e, em Lincoln (2012), sob o comando de Steven Spielberg, encarnou o presidente Abraham Lincoln na luta pela aprovação da 13ª Emenda.
Por fim, sua despedida das telas veio com Phantom Thread (2017), no qual interpretou Reynolds Woodcock, um estilista inglês obsessivo e meticuloso, num trabalho aclamado pela crítica como “a perfeita união entre ator e diretor”. Esses filmes, entre outros, não apenas consagraram Day-Lewis como um dos maiores atores de todos os tempos, mas também evidenciam sua busca constante por papéis que desafiavam limites e transcendiam o simples entretenimento.
DEPOIS DA HISTÓRIA
Daniel Day-Lewis, consagrado como um dos maiores atores da história do cinema, surpreendeu o mundo em 1999 ao abandonar temporariamente as câmeras e mergulhar no universo da arte manual. Ao final das filmagens de The Boxer, o ator britânico rumou para Florença e bateu à porta do ateliê de Stefano Bemer, mestre sapateiro cuja oficina, instalada no bairro de Oltrarno, simboliza o mais alto padrão do artesanato italiano. Durante quase dez meses, Day-Lewis chegou cedo, trabalhou ao lado de outros aprendizes e aprendeu, sob a batuta de Bemer, cada etapa da confecção de um sapato feito à mão.
Embora poucos detalhes tenham sido revelados na época, sabe-se que o ator abraçou com a mesma entrega metodológica que o caracterizou em papéis como Abraham Lincoln e Reynold Woodcock: “Stefano não se importava com quem eu era; tratava todos os clientes da mesma forma”, recordou Tommaso Melani, sucessor de Bemer à frente da oficina. Ali, Day-Lewis não buscava holofotes, mas um ofício capaz de dar sustância àquela inquietude que a interpretação, por mais brilhante, não alcançava.
Em 2017, o artista anunciou seu desligamento definitivo da atuação, encerrando um capítulo com Phantom Thread e depositando sua energia em uma vida de introspecção e autenticidade. Desde então, o ator vive recluso na Irlanda ao lado da esposa, a diretora Rebecca Miller, e raramente aparece em público — houve, por exemplo, sua presença discreta numa cerimônia em janeiro para homenagear Martin Scorsese, quando emergiu apenas para expressar sua admiração pelo mestre do cinema.
A trajetória de Day-Lewis em busca de um “propósito que a fama não dava” ilustra como nem sempre a escolha mais invejada é a mais gratificante. Em vez de palcos e prêmios, ele optou por um espaço de silêncio e trabalho manual, onde cada martelada no couro reforça a lição de que a maior conquista pode estar em viver com mais verdade.
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