
Renata Barcellos.
Reflexão de Edmira Cariango (revisora e crítica literária de Angola)
Ao celebrarmos o dia da mulher africana, reflectimos sobre o estado das mulheres, o seu papel como sujeitos transformadores. Com alguma preocupação, olhamos para os diferentes grupos, as diferentes faixa-etárias. Pela posição em que me encontro, olho com maior atenção às raparigas, adolescentes africanas, angolanas e penso também que futuro o presente delas e o meu reflectem. Além da nossa história, das nossas crenças, muitas delas hoje não muito propícias para a construção do futuro, penso naquilo que consideramos, dentro das famílias, como prioridades. A educação e a formação do pensamento crítico não estão entre as prioridades das nossas sociedades.
Para as mulheres africanas de hoje e de amanhã, desejo que comecemos a pensar nas diferentes formas de proliferarmos programas de capacitação em toda a África e principalmente em Angola. Em África e em Angola, desejo que ultrapassemos os problemas da violência contra a mulher. Que sejam reduzidas as taxas de gravidez na adolescência.
Que as mulheres sejam respeitadas, reflectindo-se tal respeito na disponibilização pelas instituições responsáveis como escolas e centros de acompanhamento de meios suficientes para o florescimento de cérebros que transformem África e Angola em lugares de privilégio. Somos também partícipes da transformação e do desenvolvimento nas nossas sociedades, mas precisamos dispor dos instrumentos necessários. Sem os quais, corremos o risco de sermos apenas objectos de reprodução. A edificação da vida não se finaliza no acto de gerar, mas de construir, edificar e transformar para fazer do nosso mundo um lugar melhor.
Somos seres completos e em formação. Dispostas a dar ao mundo aquilo pelo que fomos chamadas a fazer. Preservar, gerar, construir e transformar.
Às mulheres africanas em todo o mundo, desejo os sonhos mais nobres realizados. Brilhai e oferecei ao mundo o melhor de vós.
Entrevista com Andreia Tavares de Sousa (escritora e poeta de Cabo Verde)
1-Como é seu processo criativo ? Andreia Tavares de Sousa: Meu processo criativo, depende do momento, da situação, do filing, e do lugar. A inspiração pode surgir de repente, ou vice-versa, nesse momento estou mais focada na atualidade mundial, além de Cabo Verde, que é o meu ninho de inspiração, o povo, a cultura, a tradição, as dificuldades diárias, essa vaga da emigração nesses últimos tempos, mais também a evolução do pais desde a independência até hoje, que celebramos 50 anos da liberdade acredito que o Cabo Verde está no bom caminho. Escrevo em qualquer hora, quando tenho que preparar um texto, poemas, por exemplo para um concurso literário, escrevo na tranquilidade da noite, até a madrugada durante dias, meses se for. Mais desde mês de junho ando a ecrever da manhẫ, até a hora do almoço, depois foco na leitura também que é fundamental nesse processo.
2 Qual é o espaço das literaturas em Cabo Verde? Andreia Tavares de Sousa: A literatura em Cabo Verde, está a ganhar quanto mais grandes palcos, nacionais e internacionais. Temos dois autores premiado com o prémio Camões, O Arménio Vieira em 2009 e o Germano Almeida em 2018, temos Joaquim Arena com prémio Oceano, temos o José Luis Tavares com vários prémios, ele é o escritor mais premiado na historia da literatura caboverdeana. Ainda temos vários autores e autoras premiadas como Dina Salustio, Fatima Bettencourt, Vera Duarte, Samira Lelis, Evel Rocha entre outros, mais também temos poetas, escritores da nova geração que estão a jugar um papel fundamental nessa caminhada, carregar esse legado literário com orgulho e determinação além de escrever em língua materna.
Cabo Verde sempre foi uma terra de escritores, desde começo da imprensa, em 1800 e tal.
O Poeta, jornalista, escritor, compositor Eugénio Tavares, foi um dos primeiro.
O Baltasar Lopes da Silva, Jorge Barbosa, Manuel Lopes, creadores do movimento claridoso e da revista claridade, Jaime Feguereido, Pedro Cardoso, Amilcar Cabral entres outros que jogaram um papel crucial na literatura caboverdeana.
Hoje temos concursos, festivais literários em cabo Verde e na diáspora, justamente, no mês de junho foi convidada pela minha editora Rosa de Porcelana para assistir o festival da literatura mundo na ilha de Sal em Cabo Verde, durante 4 dias, essa ilha plana foi o palco de encontro, partilhas e convivências literários com escritores do mundo, académicos, cientistas, professores, tradutures, alunos etc.
3- Na área educacional, hoje, como ocorre a prática da expressão da Língua Portuguesa com as línguas locais? Andreia Tavares de Sousa: Hoje na área educacional a pratica da expressão da língua portuguesa domina a língua local, mesmo sabendo que mais de 99% da população pratica a língua caboverdeana, 'o crioulo' em todo o pais, nas escolas a aprendizagem se faz em língua portuguêsa, portanto temos essas duas línguas, mais infelizmente a lingua materna não é oficial, temos os estudos científicos que aprovam a dominação da escrita dessa língua com regras de acordo com o alfabeto caboverdeano, mesmo o Unesco diz que a lingua materna deve ser incluido no ensino, mas ainda no parlamento os deputados não assinaram a plena oficialização da lingua materna em paridade com a língua portuguêsa.
4- Por que escreveu o romance em uma língua de Cabo Verde? Andreia Tavares de Sousa: Escrevi o romance em lingua caboverdeana, porque essa lingua é a minha identidade, tenho orgulho de expressar-me nessa lingua, oral como escrita, essa lingua apredi desde ventre da minha mãe, é a lingua falada do povo caboverdeano, dentro e fora do pais, é a lingua do dia a dia, em todo o momento.
A nossa musica é em lingua caboverdeana, a musica atravessou continentes e oceanos, mesmo quando as pessoas que não compreendem o crioulo, ao ouvir a Césaria Evora cantar uma morna ou uma coladeira eles sabem que ela é de Cabo Verde.
A lingua é a bandeira do pais, o ponto cardal que liga esse arquipélago com o mundo, nos os caboverdeanos pensamos, choramos, lutamos, cantamos, respiramos em lingua caboverdeana.
Para mim, é um dever escrever nessa lingua que amo tanto, essa lingua tão cantante, essa lingua de saudade, de partida, de solidariedade, de união etc.
Conheço regras da língua caboverdeana, estudei, e estou a aprender todos os dias, e como caboverdeana, nascida e crescida em cabo verde, residente na diáspora, sinto essa falta de comunicação diaria, sinto a saudade, a escrita para mim é uma forma de lutar contra essa saudade, a separação com as minhas famílias, e na minha língua encontrei as palavras puras, sinceras, palavras que vem da alma, com sentimentos verdadeiros, e quando escrevo em lingua caboverdeana me sinto completa, além de ser mulher, poeta, jovem escritora em lingua caboverdeana, tenho que Honrar a lingua dos meus ancentrais, me sinto caboverdeana, africana, mais também mulher livre, e mulher do mundo. E uma contribuição para o futuro que estou a dar, espero que daqui 50 anos, ou mais, a nova geração vai estudar o meu trabalho, e vai transmitir para outra geração sucessivamente.
É assim que construibuimos para o futuro dum país.
Entrevista com Edmira Cariango Manuel (revisora e crítica literária de Angola)
1. Como surgiu seu interesse pelas Letras e pelo setor editorial?
Edmira Cariango Manuel: O meu interesse pelas letras surgiu tardiamente, enquanto frequentava o segundo ano do curso de Língua e Literaturas em Língua Portuguesa na então Faculdade de Letras, hoje Faculdade de Humanidades da Universidade Agostinho Neto. É verdade que já nutria desde o ensino médio uma feição pelas línguas, pelos diferentes tons e jeitos de falar. Sonhava também ser poliglota. No ensino médio, no curso de Ciências Humanas, os professores de Língua Portuguesa incentivavam a leitura e a escrita. Na 11.ª classe, conheci uma metade dos nomes importantes da literatura angolana. Li, na época, Óscar Ribas, Uanhenga Xitu e José Mena Abrantes, dos que me lembro. Li alguma literatura brasileira, das que chamo literatura das massas, de baixa qualidade e coisa para adolescentes, mas gostei e foi importante para manter o exercício. O interesse de estudar literaturas foi despertado pela professora Irene Guerra Marques. Fiquei espantada muitas vezes nas aulas de literatura angolana enquanto estudávamos o segundo ano. Descobri naquela altura que não conhecia angola e decidi que precisava dedicar metade da minha vida ao estuda das literaturas e da divulgação da literatura angolana. Tinha ganhado uma sede de fogo, que desde aí tentei saciar com leituras e conversas com aqueles que também trilham o mesmo caminho. Descobri a existência de Hélder Simbad e soube que aprenderia muito com ele. Ingressei no Litteragris, tem sido um lugar de aprimoramento desde sempre. Conheci outras pessoas muito importantes, grandes referências da literatura angolana, jovens autodidactas, perto dos quais senti se ampliarem as minhas capacidades de leitura. Hoje tenho muitas referências, nomes extremamente importantes. Leio e aprendo com eles. Considero-os também meus mestres. Continuo a aprender. O meu interesse pelo mercado editorial terá surgido momentos depois. A minha grande preocupação foi com o acesso aos livros através das escolas e da proliferação das bibliotecas. Também me preocupava que autores angolanos fizessem poucos intercâmbios. Reconheço alguma inocência assustadora da minha parte nos inícios, mas começo a ter mais interesse e clareza quando começo a lidar directamente com o mercado editorial através do acesso maior que comecei a ter no tempo que estive vinculada à Mayamba Editora. Temos muitos problemas por resolver em angola nessa questão. A execução do plano nacional de leitura vai reduzi-los, mas não a 50 nem a 10 por cento.
Precisamos ainda trabalhar. Entretanto, os esforços até hoje feitos são um passo considerável para o bom futuro do nosso mercado editorial. E não devemos esquecer que esse sector é também um importante aliado para o sucesso do sector da Educação.
2. Qual é a atual situação da editoração em Angola?
Edmira Cariango Manuel: Muito da produção editorial está concentrada em Luanda. Falta iniciativas de implementação de gráficas e editoras noutras partes de Angola. Até hoje é difícil para autores fora de Luanda publicarem os seus livros. Dos problemas ainda, a maioria dos autores não domina os diferentes e inúmeros desafios das editoras em Angola: um dos maiores é a insuficiência de meios financeiros e de estruturas sólidas para corresponder às necessidades dos autores. Conheço autores com muitas obras engavetadas. Muitos dos quais de pensamento esclarecido, mas as suas obras levam muito tempo a serem concluídas por insuficiência de meios, torando-as muitas vezes extemporâneas, obrigando a várias actualizações. Os meios financeiros impossibilitam a capacidade de resposta das estruturas, quase sempre precárias. Não há solidez, mas sobrevivência. Outra coisa que me preocupa é como muitas editoras olham para o negócio do livro. Muitos colocam-se na posição do coitadismo por causa dos desafios. Estagnam as suas iniciativas. Conseguem manter-se, mas nunca avançam. Temos poucas esperanças. Por isso precisamos olhar muito bem para o mercado editorial na sua própria complexidade, entender o tipo de negócio e as suas exigências. Precisamos nos posicionar.
3. As mulheres têm produzido mais qual vertente literária e temáticas?
Edmira Cariango Manuel: As mulheres angolanas produzem mais prosa. É na literatura infanto-juvenil em que encontramos o maior número da sua produção. Boa parte está preocupada com a educação e as virtudes. Temos pouquíssimas romancistas.
4. Mensagem aos jovens:
Edmira Cariango Manuel: Continuai a olhar para o futuro, investindo força e meios para a vossa formação. Sede positivos e aliai-vos àqueles que representam o bem e a esperança. Temos a responsabilidade de deixar o mundo melhor.
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