
Flora Guilhonm
Agradecer sem desmerecer: por que “não mereço” soa mal? O que dizer no lugar? Estudos em psicologia, filosofia e bons modos mostram que negar publicamente uma homenagem comunica descaso, insegurança ou “humblebrag”. Veja o que dizem especialistas e roteiros práticos para agradecer com ética e sofisticação, sem diminuir quem ofereceu o tributo.
Esta semana, no WhatsApp da empresa, houve uma discussão séria entre os membros, quando um amigo nosso tentou agradecer uma homenagem que lhe fizemos da seguinte forma, “não mereço”, “bondade de vocês”, ou “quem sou eu para tanto”. Ou seja, negando atributos que lhe foram dirigidos merecidamente. (Nesse caso desse amigo). Talvez ele quisesse demonstrar certa humilde, desprendimento. Mas, sinceramente, isso não funciona. Pelo contrário, desmerece a quem lhe proporcionou essas homenagens.
Então decidi pesquisar para escrever a minha crônica deste mês para a Plataforma Nacional do Facetubes (www.facetubes.com.br). Aqui na Inglaterra, muito se usa, nessas ocasiões, o termo humblebragging. “(...) a autopromoção disfarçada de queixa ou humildade, mostram que a estratégia reduz simpatia e credibilidade; a sinceridade direta é avaliada melhor do que a modéstia performática”. Nesse caso específico, é uma demonstração clara de que essa ‘humildade-alarde’, para quem entende, é imediatamente percebida como insinceridade e menor competência, do que a ‘gratidão franca’.
Ora, quando o agraciado diz que “não merece”, das duas, uma: ou está se autoelogiando ainda mais; ou está desqualificando publicamente a homenagem que lhe foi atribuída. Isto é, a pessoa ou entidade que lhe presta a honra o está ‘bajulando’ ou está literalmente errada em não ter estudado as qualidades merecedoras da pessoa e seus verdadeiros atributos.
Claro que isso também entra na seara da boa-educação ou da etiqueta formal nas solenidades que a ela se impõem. Tanto que a etiqueta (formal) é clara: quem recebe um reconhecimento deve aceitá-lo com gratidão e dividir o mérito. Isso é ensinado em vários guias práticos de oratória e bons modos.
Em Debrett’s há um verbete que ensina: “agradeça, reconheça, porque a honraria faz sentido (sem autodepreciação), mencione colaboradores e respeite o tempo. Evite desdizer o elogio (“não mereço”) e clichês vazios”. (Tão simples e ético).
Aristóteles também afirmava que a virtude da magnanimidade é aceitar honras com ajuste à realidade: sem vaidade, nem pusilanimidade. Deve aceitar com serenidade. Aliás, como definir em seu conceito mais puro, essa tal de “humildade”? São Tomás de Aquino, ao seu modo: “(...) manter-se dentro dos próprios limites, não negar dons; negar o óbvio deixa de ser virtude”. Em síntese: humildade não é autodesvalorização.
Pesquisei ainda mais e repassei para esse meu amigo de WhatsApp, apenas como orientação (e ele, finalmente agradeceu e entendeu) o que dizer no lugar do cultuado e exageradamente falado, “não mereço”.
Os agradecimentos podem ser feitos reconhecendo a honra, da seguinte forma: “Sempre inclua alguém ou alguma coisa: quero dividir essa honra com pessoas que me direcionaram para esse segmento (ou para essa leitura etc). Nunca se manter sozinho (mesmo que a honra seja individual). Depois, é importante comprometer-se com o propósito que a honra representa”. (Debrett’s).
Assim, - por outro lado - negar o elogio em público (“não mereço”) soa como descaso com quem concede e pode soar como humblebrag. Piora a avaliação dos presentes, revela estudo da Harvard Business School.
Uma outra coisa nos agradecimentos, que até mesmo eu já cometi várias vezes: obrigado “a todos”, sem especificar nada, parece protocolo vazio; agradecer “no particular” é melhor.
Claro que não estou aqui somente falando dos autoelogios porque não sou psicóloga, todavia, torna-se necessário também falar de etiqueta já que estou escrevendo para intelectuais dos mais diversos países e, em especial, para membros acadêmicos literários. Obvio, todos cheios de solenidades diárias.
Sobre isso, quero dizer que não há um ranking global confiável só para “como agradecer homenagens pessoais”. Porém, o guia de etiqueta mais influente e longevo no mundo anglófono é Emily Post’s Etiquette (edições sucessivas; centenária), que dedica seções inteiras a agradecimentos e notas de agradecimento, referência recorrente em universidades e organizações.
Diante de tudo isso, fica uma certeza: aceitar a homenagem não diminui a humildade; ao contrário, demonstra respeito a quem reconhece e reforça a ética do serviço.
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Fontes principais — para leitura rápida:
Sezer, Gino & Norton. Humblebragging: A Distinct—and Ineffective—Self-Presentation Strategy (Journal of Personality and Social Psychology).
Harvard Business School
Toastmasters Magazine: “How to Accept an Award”.
Debrett’s: guias de “Thank you” e etiqueta aplicada.
Emily Post Institute: notas e princípios de agradecimento.
Clance & Imes (1978): The Imposter Phenomenon…; leitura panorâmica recente.
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