
Editoria de Cultura da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln.
Dia 29 de novembro, o Grill Rei de França, em São Luís, recebeu o III Fórum Forró de Raiz Maranhão, com o tema “Meu Tesouro, Meu Forró – O Maranhão pela Salvaguarda do nosso Patrimônio”. Aberto ao público, o encontro reúne artistas, produtores, pesquisadores e militantes da cultura popular para discutir o futuro de um dos mais potentes símbolos do Nordeste. A presença confirmada de Joana Alves, presidenta da Associação Cultural Balaio Nordeste e do Fórum Nacional de Forró de Raiz e da vice-presidente regional da Academia Poética Brasileira, seccional do Ceará, folclorista Aldira Martins, transforma a reunião maranhense em etapa estratégica da luta para inscrever o forró como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco.
A chegada de Joana Alves a São Luís trouxe o peso de uma trajetória que já cruzou oceanos. Foi sob sua articulação que, no coração da França, o Palácio de Belas Artes de Lille abriu, em 11 de setembro, o Festival Internacional do Forró de Raiz, dentro da temporada cultural Brasil–França 2025, em celebração aos 200 anos de relações diplomáticas entre os dois países.
O que começou como mobilização regional de sanfoneiros, mestres e quadrilhas, hoje ressoa em um dos mais importantes equipamentos culturais europeus, fazendo do forró um idioma afetivo capaz de unir sertão e Velho Mundo sob o mesmo compasso de zabumba, triângulo e sanfona. Em Lille, o festival não foi apenas uma vitrine artística: tornou-se síntese de uma caminhada que nasceu nas festas de terreiro e nos salões improvisados do Nordeste. No hall do Palácio, um cortejo de sanfoneiros arrebatou o público e conduziu autoridades brasileiras e francesas para o ato solene de abertura.
Diante de nomes como Thierry Landron, presidente da Lille3000, o prefeito Arnaud Deslandes, a governadora Fátima Bezerra, o governador Fábio Mitidieri e representantes de Paraíba, Bahia e Pernambuco, foi assinado o Plano de Ação para a Submissão do Forró à Unesco, consolidando anos de pressão política e inteligência cultural. Ao lado de artistas como Mestrinho e Santanna, o Cantador, Joana Alves viu o Palácio se transformar em grande arraial, coroado por uma quadrilha improvisada que misturou franceses e brasileiros num mesmo giro de saia e poeira imaginária.
É essa experiência, acumulada na travessia que vai do chão de barro ao mármore europeu, que Joana Alves traz agora para São Luís. À frente da Associação Cultural Balaio Nordeste, ela foi precursora na articulação nacional em defesa do forró de raiz, plantando as primeiras sementes de um movimento que se recusa a aceitar que a memória do povo nordestino seja reduzida a modismo ou produto descartável.
No Maranhão, terra que abriga sotaques de boi, tambores de crioula e um forte calendário junino, o III Fórum se converte em espaço de síntese: de um lado, a urgência de políticas públicas que garantam salvaguarda, formação e circulação dos artistas; de outro, a consciência de que o reconhecimento internacional só fará sentido se fortalecer quem mantém o forró vivo em casa de farinha, associações comunitárias e pequenas casas de show.
Ao colocar como tema “Meu Tesouro, Meu Forró”, o Fórum de Forró de Raiz-Maranhão acende um alerta e um convite. Alerta para o risco de ver esse patrimônio diluído em versões pasteurizadas, pouco comprometidas com a história de quem construiu o gênero ao longo de décadas de resistência. Convite para que o público maranhense se some a essa cadeia de proteção, ocupando o encontro, ouvindo os mestres, debatendo caminhos para políticas de salvaguarda e reconhecendo, em cada acorde, uma narrativa de pertencimento. Mais do que uma reunião de especialistas, o Fórum se propõe a ser um pacto público em defesa de uma linguagem que traduz afetos, migrações, lutas e esperanças de um povo inteiro.
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