
Mhario Lincoln
A incrível capacidade de absorver literatura, após leituras infindas e conhecimento prático do muito que lê, Socorro Guterres, neste microconto, lembra Clarice Lispector, em “Felicidade clandestina”. E um dos momentos mais incríveis dessas coincidências culturais de altíssimo nível, vêm do momento em que Clarice mostra, nessa obra, o desejo ardente de uma menina (será que era ela mesma?) por um livro inacessível às suas posses – As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato – e passa por uma longa espera, humilhações e frustrações até finalmente tê-lo em mãos.
Assim, a mim me pareceu um mecanismo parecido: um desejo infantil intenso, limites materiais e, ao fim, uma espécie de epifania afetiva em torno de um presente que vale mais pelo sentido, que pela forma.
Ambos os contos dialogam na ideia “maior que si mesmo”, algo muito perto do espírito de Biondina. Ou seja, assim como a narradora de Socorro Guterres – nesta obra abaixo, na íntegra, transforma a boneca em amiga inesquecível, a menina de Clarice converte um único livro em mundo interior, companhia e destino. Em ambas, o presente deixa de ser mercadoria perfeita e se torna presença afetiva, aquilo que, muitos anos depois, continua entre “os presentes inesquecíveis e as lembranças inquebráveis”.
E como eu sempre vou beber, em meus estudos, na fonte filosófica, o conto, em minha concepção e análise, é um pequeno tratado sobre o desejo e sua transfiguração. A menina passa da expectativa febril – “contando os minutos” – à decepção silenciosa diante do pacote pequeno; é o drama da consciência que confronta o limite e poderia cristalizar-se em ressentimento. Mas, ao lançar o olhar para o presépio, ela realiza uma leitura simbólica do que está diante de si: ali está o Menino Deus, em absoluta simplicidade, e ao lado da cama está Biondina, também simples, sem o aparato tecnológico sonhado. A “compreensão” que a narradora declara (“Compreendi tudo”) é uma epifania: o valor do presente não está em reproduzir o pedido, mas em abrir um campo de relação. Biondina não é mais “menos do que a outra”; torna-se “amiguinha” e ponte afetiva entre a criança, os pais e o mistério natalino.
Destarte, o microconto de Socorro Guterres inscreve-se, antes de tudo, numa sociologia íntima do Natal, onde o texto trabalha com pares de imagens muito fortes: bolas “quebráveis” e lembranças “inquebráveis”; lagos de espelho e olhos da criança; a boneca que não fala nem anda, mas “mexia as mãozinhas”, como se a própria vida estivesse em germe nesse pequeno movimento. O nome “Biondina” soa quase como cantiga – um diminutivo musical que dourava a frustração. A economia verbal é precisa: frases curtas, cenas nítidas, um “como?” isolado que concentra toda a perplexidade da menina. O final fecha o arco com doçura e densidade: ao declarar que Biondina fica “para sempre, entre os presentes inesquecíveis e as lembranças inquebráveis”, a autora eleva o microconto à dimensão de memória fundadora, à la Proust, mas num registro acessível e terno. Fiquei muito feliz em lê-lo.
Parabéns!
(Mhario Lincoln Santos, presidente da Academia Poética Brasileira).
Microconto de Socorro Guterres transforma frustração infantil em epifania amorosa, onde a boneca simples encarna o milagre do presépio.
Abaixo, o texto na íntegra.
BIONDINA
*Socorro Guterres
"Biondina, um nome inesquecível! Aos 7 anos pedi uma boneca ao Velho Noel: Era a "Amiguinha". Tão grande, quase do meu tamanho na época, com cabelos louros, olhos azuis e roupinha impecável. Fiquei esperando e contando os minutos da noite do Natal. O presépio fora montado por papai, com todos os personagens e lindos lagos feitos de espelhos. Inesquecível... Assim como a árvore perfeitamente adornada com bolas coloridas, que naquele tempo, eram quebráveis. De cansaço dormi à espera da boneca perfeita, que andava e falava. Uma amiguinha! Ao acordar, ao lado da cama, estava um embrulho pequeno. Como? Abri e encontrei uma boneca linda, mas não falava nem andava, somente mexia as mãozinhas. Seu nome? Biondina. Olhei para meus pais desconcertados por Noel não conseguir trazer o presente encomendado. Avistei o presépio e Jesus na manjedoura. Compreendi tudo: Biondina seria a minha amiguinha. E seria amada tal qual a boneca aguardada. E assim ela ficou para sempre, entre os presentes inesquecíveis e as lembranças inquebráveis..."
(Socorro Guterres é da Academia POética Brasileira, seccional RGN).
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