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Socorro Guterres: “Biondina e o Natal da Falta; quando o Presente Vira Presença....”

Socorro Guterres, autora do microconto, integra a Academia Poética Brasileira, seccional RGN.

10/12/2025 às 09h04 Atualizada em 10/12/2025 às 10h31
Por: Mhario Lincoln Fonte: Socorro Guterres (autora do texto)
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“Biondina”, de Socorro Guterres.
“Biondina”, de Socorro Guterres.

Mhario Lincoln

A incrível capacidade de absorver literatura, após leituras infindas e conhecimento prático do muito que lê, Socorro Guterres, neste microconto, lembra Clarice Lispector, em “Felicidade clandestina”. E um dos momentos mais incríveis dessas coincidências culturais de altíssimo nível, vêm do momento em que Clarice mostra, nessa obra, o desejo ardente de uma menina (será que era ela mesma?) por um livro inacessível às suas posses – As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato – e passa por uma longa espera, humilhações e frustrações até finalmente tê-lo em mãos.

Assim, a mim me pareceu um mecanismo parecido: um desejo infantil intenso, limites materiais e, ao fim, uma espécie de epifania afetiva em torno de um presente que vale mais pelo sentido, que pela forma.

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Ambos os contos dialogam na ideia “maior que si mesmo”, algo muito perto do espírito de Biondina. Ou seja, assim como a narradora de Socorro Guterres – nesta obra abaixo, na íntegra, transforma a boneca em amiga inesquecível, a menina de Clarice converte um único livro em mundo interior, companhia e destino. Em ambas, o presente deixa de ser mercadoria perfeita e se torna presença afetiva, aquilo que, muitos anos depois, continua entre “os presentes inesquecíveis e as lembranças inquebráveis”.

E como eu sempre vou beber, em meus estudos, na fonte filosófica, o conto, em minha concepção e análise, é um pequeno tratado sobre o desejo e sua transfiguração. A menina passa da expectativa febril – “contando os minutos” – à decepção silenciosa diante do pacote pequeno; é o drama da consciência que confronta o limite e poderia cristalizar-se em ressentimento. Mas, ao lançar o olhar para o presépio, ela realiza uma leitura simbólica do que está diante de si: ali está o Menino Deus, em absoluta simplicidade, e ao lado da cama está Biondina, também simples, sem o aparato tecnológico sonhado. A “compreensão” que a narradora declara (“Compreendi tudo”) é uma epifania: o valor do presente não está em reproduzir o pedido, mas em abrir um campo de relação. Biondina não é mais “menos do que a outra”; torna-se “amiguinha” e ponte afetiva entre a criança, os pais e o mistério natalino.

Destarte, o microconto de Socorro Guterres inscreve-se, antes de tudo, numa sociologia íntima do Natal, onde o texto trabalha com pares de imagens muito fortes: bolas “quebráveis” e lembranças “inquebráveis”; lagos de espelho e olhos da criança; a boneca que não fala nem anda, mas “mexia as mãozinhas”, como se a própria vida estivesse em germe nesse pequeno movimento. O nome “Biondina” soa quase como cantiga – um diminutivo musical que dourava a frustração. A economia verbal é precisa: frases curtas, cenas nítidas, um “como?” isolado que concentra toda a perplexidade da menina. O final fecha o arco com doçura e densidade: ao declarar que Biondina fica “para sempre, entre os presentes inesquecíveis e as lembranças inquebráveis”, a autora eleva o microconto à dimensão de memória fundadora, à la Proust, mas num registro acessível e terno. Fiquei muito feliz em lê-lo.

Parabéns!

(Mhario Lincoln Santos, presidente da Academia Poética Brasileira).

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Microconto de Socorro Guterres transforma frustração infantil em epifania amorosa, onde a boneca simples encarna o milagre do presépio.

Abaixo, o texto na íntegra.

 

BIONDINA

*Socorro Guterres

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Socorro Guterres.

"Biondina, um nome inesquecível! Aos 7 anos pedi uma boneca ao Velho Noel: Era a "Amiguinha". Tão grande, quase do meu tamanho na época, com cabelos louros, olhos azuis e roupinha impecável. Fiquei esperando e contando os minutos da noite do Natal. O presépio fora montado por papai, com todos os personagens e lindos lagos feitos de espelhos. Inesquecível... Assim como a árvore perfeitamente adornada com bolas coloridas, que naquele tempo, eram quebráveis. De cansaço dormi à espera da boneca perfeita, que andava e falava. Uma amiguinha! Ao acordar, ao lado da cama, estava um embrulho pequeno. Como? Abri e encontrei uma boneca linda, mas não falava nem andava, somente mexia as mãozinhas. Seu nome? Biondina. Olhei para meus pais desconcertados por Noel não conseguir trazer o presente encomendado. Avistei o presépio e Jesus na manjedoura. Compreendi tudo: Biondina seria a minha amiguinha. E seria amada tal qual a boneca aguardada. E assim ela ficou para sempre, entre os presentes inesquecíveis e as lembranças inquebráveis..."

(Socorro Guterres é da Academia POética Brasileira, seccional RGN).

 

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ElizabeteHá 6 meses Natal RNBelo conto. Me fez refletir de como o que queremos e desejamos não é alcançável mas que devemos ressignificar o que recebemos e amar e cuidar porque foi o melhor de quem nos ama pôde nos dar! Feliz natal!
Ranilson BarrosHá 6 meses Natal/RNLindo! Fez me lembrar dos singelos presentes que meus pais podiam me dar, dizendo ter sido Papai Noel. Os sonhos de criança tornam a infância uma época mágica em nossas vidas. Parabéns por tão linda partilha!
LuciaHá 6 meses Vila Velha-ESLindo conto! Me fez relembrar os velhos Natais em que esperávamos ansiosos pelo presente pedido,através da famosa cartinha. Muitas vezes não era o que havíamos pedido, mas, o Papai Noel algum brinquedo trazia.
Fábio FreireHá 6 meses Natal/RNEsse conto emociona, pois além de realçar a beleza do Natal, relaciona com maestria a ligação forte entre a manjedoura e a boneca. Além de tudo, deixa claro que o extraordinário mora no simples, bem como que o amor não exige perfeição, mas sim presença. Nesse período natalino, tempo de família, de união, de confraternização, desejo à autora Socorro Guterres um feliz natal.
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