
Socorro Guterres (Academia Poética Brasileira/RGN)
A Grande Casa
Em 7000 a.C. tribos nômades começam a chegar ao fértil vale do Rio Nilo, no Egito. Posteriormente, por volta de 3000 a.C. , os reinos principiam a integração formando dinastias, num total de 30, unificando o alto e o baixo Egito. Entre a vigésima quinta dinastia e o ano de 1922 muitos invasores se apossaram das terras egípcias: assírios; persas; Alexande, O Grande; romanos; turcos; Napoleão Bonaparte; e por fim os britânicos, que concederam então, em 1922, a declaração unilateral de independência do Egito, emitida pelo Reino Unido, encerrando o protetorado britânico e empossando o sultão Ahmed Fuad como o primeiro rei do Egito moderno.
Howard Carter, arqueólogo inglês persiste nesse mesmo ano em suas buscas pela tumba de Tutancâmon no Vale dos Reis, região que já se dizia não ter mais vestígios para novas descobertas e cujas tumbas haviam sido quase que totalmente saqueadas. Mas a obstinação de Carter, sob o patrocínio do também britânico Lorde Carnavard, iria se mostrar frutífera, após longos e desanimadores anos de escavação iniciados em 1917. Carter tinha pistas que indicavam a presença do jovem faraó (encarnação do deus Osíris) nesse local, e o grandioso achado se deu, quase que por acaso, quando um dos garotos locais que servia água aos trabalhadores tropeça e cai numa espécie de primeiro degrau que conduzia à entrada da famosa tumba, o que levaria à investigação de Carter encontrar um túmulo praticamente intacto, com mais de cinco mil tesouros, incluindo a monumental máscara de ouro. Porém, apropriemo-nos um pouco mais do faraó menino, que subiu ao trono quando contava ainda nove anos de idade.
Para isso vamos retroceder ao reinado do pai de Tutancâmon, Akenaton, o qual modificou, e muito, o Egito nos aspectos religiosos e culturais, sobretudo por abolir o politeísmo, desempregando assim centenas de sacerdotes e descontentando a população; adotando como único deus Amon, daí modificar o nome do filho para Tutancâmon, que anteriormente chamava-se Tutancâton. Desse modo dentre centenas de deuses, como Ísis, Osíris, Set, Horus, Maat e Anubis, o Egito fora obrigado a ficar somente sob a tutela do deus Amon, que posteriormente se mesclou com o deus Ra, formando Amon-Ra, representação da onipresença do sol e da criação. Com a morte de Akenaton e a ascensão ao trono do menino faraó, conselheiros tais como Aye e Horemheb passaram a gerir as terras egípcias, revertendo os ditames de Akenaton e restaurando o politeísmo. É necessário esclarecer ainda que o termo faraó originalmente significava Grande Casa, não se referindo à pessoa do rei, mas ao palácio real, posteriormente o termo passou a se referir aos próprios governantes que antes disso eram chamados de reis.
O Rio Nilo foi crucial para o desenvolvimento da civilização egípcia, sendo considerado o mais longo do mundo, em seus quase 7000km de extensão, percorrendo aproximadamente 11 países e acabando por desaguar no mar Mediterrâneo, formando uma linha vital no deserto. É, na verdade, um presente dos deuses, e num país de grande população, não foi só generoso às dinastias faraônicas, mas também à civilização atual, pois sua fertilidade é fundamental para o registro histórico de milhares de anos que se encontram gravados numa infinidade de belíssimos monumentos e sobretudo documentados na fantástica tumba de Tutancâmon, na qual tesouros esplêndidos acompanharam o jovem faraó no trajeto para a outra vida: armas, carruagens, adornos, mobiliários, bem como a documentação hieroglífica, só decifrada com a ajuda da Pedra de Roseta, descoberta em 1799.
A economia do país sustenta-se sobretudo no turismo, dádiva dos faraós em seus incríveis monumentos, mas também advém do petróleo, do gás e do trânsito moderno do canal de Suez. Contudo os deuses não contiveram um crescimento populacional intenso e a pobreza de grande parte do povo desse país africano, que por vezes refugia-se em abrigos nos velhos cemitérios habitados, chamados de "Cidade dos Mortos", disputando com estes o espaço de descanso; isso decorre também por essas necrópoles terem sido construídas com espaço que permitissem às famílias passarem com seus defuntos a quarentena do luto. Perto de Aswan fica uma vila da civilização ancestral núbia, considerada uma das mais antigas do mundo, que habita às margens do Nilo e diferencia-se da maioria egípcia (árabe) por língua e costumes próprios. Essa população de traços africanos mora em casinhas coloridas que contrastam com a aridez do deserto. Como tradição fazem uso de hena em suas peles escuras, além de adotarem como animal de estimação o exótico crocodilo, para o qual é dedicado o templo de Kom Ombo, que homenageia duas divindades, Hórus e Sobek, o deus crocodilo. Esse templo mostra uma cultura milenar e muito avançada, registrada em suas paredes e colunas. É o Egito milenar que sobrevive e encanta o século atual. Egito dos templos espetaculares, como o dedicado especialmente a Hórus (na cidade de Edfu), filho de Osíris e Ísis, maravilhosamente preservado, após ficar soterrado por centenas de anos. Nesse templo registra-se a mítica história dos quatro irmãos, dois casais, Ísis e Osiris (o casal real); Set e Néftis (o casal do caos), pois os irmãos se uniam para manter a consanguinidade real e preservar o poder dentro de uma única linhagem. A inveja de Set leva-o a matar o irmão, Osíris, por duas vezes.
Contudo o amor de Ísis acaba por restaurar as vidas do marido, permitindo, antes que este se tornasse realmente um deus, gerar Hórus, que vingaria as mortes do pai, matando Set. E como abordar num texto o Egito e não falar nas Cleópatras (foram 7), sobretudo a última, Cleópatra VII, da dinastia ptolemaica, que embora de origem macedônica, tornou-se faraó, seduzindo os poderosos romanos Júlio César e Marco Antônio, e cujo legado sobrevive em inúmeras obras de arte, antigas e modernas. Outra mulher que reinou como faraó com autoridade absoluta foi Hathsepsut, considerada a mais bem sucedida, chegando a usar a barba cerimonial para legitimar seu poder.
Nessa navegação pelo Egito, o rio se mostra esplêndido, e mais uma vez ajuda a população ribeirinha com a venda do artesanato lançado das felucas, embarcação egípcia semelhante às jangadas, para os navios de cruzeiro, por mãos fortes que, de certo modo, lembram o esforço magnífico na edificação das pirâmides, Quéops, Quéfren e Miquerinos, criadas como verdadeiras "máquinas do tempo", no transporte do faraó para a outra vida, e de cujos cumes "quarenta séculos nos contemplam ", célebre frase proferida por Napoleão Bonaparte aos seus soldados antes da "Batalha das Pirâmides", contra os mamelucos de Gizé, sentença que enfatiza a importância da história e a influência do passado no presente.
Como diz um famoso ditado egípcio "O homem teme o tempo, mas o tempo teme as pirâmides". Assim, lembrando as palavras de Heródoto, que a humanidade preserve para sempre essa "dádiva do Nilo", cuja passagem caudalosa e perene enriquece o deserto líbico e resguarda uma história faraônica.
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