
Flora Guilhonm
Esta matéria é interativa. O leitor tem todo o direito de opinar, nos comentários abaixo. Todas as opiniões serão enviadas para a Dra. Flora Guilhonm. Original de Flora Guilhonm official/England. Texto da Orientadora Ocupacional (England & United Kingdom), dra. Flora Guilhonm, exclusivo para o www.facetubes.com.br. (Trad. livre de Mhario Lincoln).
"O amigo antigo deixa de ser espetáculo e passa a ser estrutura. E a estrutura, injustamente, quase nunca recebe aplauso na mesma medida em que sustenta." Martha Medeiros, cronista brasileira.
Há um pequeno drama recorrente na vida social. Em muitos círculos, o recém-chegado recebe sorrisos, atenção e festa, enquanto os amigos antigos, justamente os que já provaram presença e constância, vão sendo tratados como paisagem. Isso não significa, necessariamente, que o novo seja melhor.
Muitas vezes significa apenas que o novo ainda não foi gasto pela convivência. Georg Simmel percebeu esse mecanismo ao definir o “estrangeiro” como alguém que está ao mesmo tempo perto e longe, alguém que chega trazendo ao grupo qualidades que parecem vir de fora e, por isso mesmo, ganham um brilho especial. O grupo, então, não enxerga apenas a pessoa real. Enxerga também a projeção que faz sobre ela.
A filosofia clássica ajuda a separar encanto de valor. Aristóteles distinguiu amizades de prazer, de utilidade e de virtude. As duas primeiras são mais rápidas no impacto, mais fáceis na simpatia inicial, mais visíveis no convívio social. A terceira é outra coisa. Exige tempo, caráter, prova e permanência.
Por isso, não é raro que um grupo celebre com barulho quem ainda habita a zona da novidade, do agrado e da promessa, mas trate com distração quem já se tornou fundamento silencioso da vida comum. "O amigo antigo deixa de ser espetáculo e passa a ser estrutura. E a estrutura, injustamente, quase nunca recebe aplauso na mesma medida em que sustenta", como ensina Martha Medeiros.
É nesse ponto que inveja e ciúme podem entrar, mas não como sinônimos. A tradição filosófica distingue os dois afetos. A inveja dói diante do bem que o outro possui (São Tomás de Aquino); o ciúme reage ao risco de perder um vínculo ou um lugar para um terceiro.
Em amizade, estudos recentes mostram que o ciúme é especialmente acionado quando aparece a sensação de substituição, quando alguém percebe que pode estar sendo trocado, deslocado ou rebaixado no afeto e na atenção do grupo. Ou seja, o recém-chegado pode ser festejado não apenas porque é novo, mas também porque sua chegada reorganiza hierarquias íntimas e acende medos que já estavam adormecidos.
Osho, em sua linguagem mais existencial do que acadêmica, toca exatamente nesse nervo. Ele afirma que o ciúme nasce "da comparação e da possessividade, e também associa o tédio ao excesso de repetição, enquanto a sensibilidade busca o que parece novo". A observação é útil aqui.
O ser humano nem sempre abandona o antigo porque o antigo perdeu valor; às vezes ele apenas deixou de perceber sua força, porque o hábito retirou o clarão da primeira impressão. O novo seduz porque ainda não foi repetido; o antigo, quando não é cuidado, corre o risco de ser confundido com aquilo que já não surpreende.
Esse mecanismo aparece com nitidez na leitura. Muita gente começa um livro novo antes de terminar outro, mesmo quando o livro deixado de lado é excelente.
A neurociência oferece uma explicação sóbria para isso. A novidade mobiliza circuitos ligados à dopamina e ao hipocampo, favorecendo codificação, consolidação de memória e sensação de recompensa.
Em termos simples, o livro ainda intocado carrega uma promessa de descoberta que o cérebro percebe como valiosa. O volume já aberto, por melhor que seja, entrou em parte na zona da previsibilidade. O impulso de trocar não prova que a história antiga perdeu força; prova apenas que a mente humana é muito sensível ao chamado do inédito. Mas essa não é toda a verdade do humano. A própria pesquisa mostra que, no campo social, a familiaridade e a relevância pessoal também têm um peso enorme. Rostos familiares e socialmente significativos podem ser mais recompensadores do que rostos estranhos.
Em outras palavras, o ser humano não vive apenas do fascínio pelo novo. Ele também aprende a preferir o conhecido quando o conhecido se torna porto, confiança e presença. Isso explica por que relações sinceras e maduras não dependem do brilho da estreia para continuar vivas. Elas podem conservar valor precisamente porque trocaram a surpresa pela densidade.
A neurociência dos vínculos duradouros reforça esse ponto. Estudos com casais de longa duração encontraram ativação, diante do parceiro amado, em áreas ligadas a recompensa, motivação e apego, inclusive após muitos anos de relação. Isso derruba a fantasia de que o tempo mata necessariamente o encanto. O que ocorre, nas ligações maduras, é uma mudança de regime.
A pessoa amada já não vale por ser novidade, mas por ter se tornado escolha estável, referência afetiva e sentido compartilhado. O novo excita; o maduro sustenta. O novo promete; o duradouro confirma. O problema não está em acolher quem chega, nem em abrir um livro novo com curiosidade. O problema começa quando a civilização íntima perde a capacidade de honrar aquilo que, justamente por permanecer, deixou de fazer barulho.
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