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A noite do Oscar 2026 terminou com a consagração de One Battle after Another como Melhor Filme. O longa de Paul Thomas Anderson saiu da 98ª cerimônia com seis estatuetas: Melhor Filme, Direção, Ator Coadjuvante para Sean Penn, Montagem, Roteiro Adaptado e o novo prêmio de Casting.
O resultado também recolocou a literatura no centro da temporada. Entre os dez indicados a Melhor Filme, quatro nasceram de livros: One Battle after Another, inspirado em Vineland, de Thomas Pynchon; Frankenstein, de Mary Shelley; Hamnet, de Maggie O’Farrell; e Train Dreams, derivado da novela de Denis Johnson. Foi um recado claro de Hollywood: o romance, a novela e o clássico gótico seguem abastecendo o cinema de prestígio com densidade dramática e lastro cultural.
NA verdade, One Battle after Another venceu porque tem pulso, ambição e nervo político. Às vezes exagera na escala e na voltagem, mas compensa com direção firme e energia dramática. Não é um campeão do consenso fácil; é um vencedor de assinatura, daqueles que impõem personalidade mesmo quando flertam com o excesso.
Há curiosidades que ajudam a medir o peso dessa vitória. O filme deu a Paul Thomas Anderson seus primeiros Oscars depois de 14 indicações anteriores. A adaptação de Vineland era um projeto que ele desejava levar às telas desde o início dos anos 2000. Além disso, tornou-se o trabalho mais caro e mais rentável da carreira do diretor, com arrecadação global acima de US$ 200 milhões, e ainda entrou para a história por vencer a categoria de Casting, estreante no prêmio da Academia.
Vale ressaltar ainda que, trinta e cinco anos depois de sua publicação, Vineland reaparece no centro da conversa cultural não apenas por ter servido de matriz literária para o recente campeão do Oscar, mas porque continua sendo um dos romances mais agudos de Thomas Pynchon sobre a ressaca política e moral dos Estados Unidos. Lançado em 1990 e ambientado principalmente na Califórnia de 1984, o livro acompanha Zoyd Wheeler, sua filha Prairie e o rastro deixado por Frenesi Gates sob a perseguição do agente federal Brock Vond, numa narrativa em que passado e presente se contaminam o tempo inteiro.
O grande nervo do romance está menos na intriga policial do que no retrato de uma geração que viu o idealismo dos anos 1960 ser esmagado pelo conservadorismo, pela vigilância de Estado, pela guerra às drogas e pela domesticação televisiva da vida.
Pynchon faz da família uma pequena trincheira afetiva dentro de um país que endurece, e por isso Vineland não é apenas sátira política. É também um romance sobre derrota histórica, memória ferida e sobrevivência íntima.
Ao contrário da fama de ilegível que cerca o autor, Vineland costuma ser visto como um de seus livros mais acessíveis e mais emocionais. Mantém o humor torto, a paranoia e a exuberância cultural típicos de Pynchon, mas troca parte do gigantismo labiríntico por uma pulsação mais humana, mais doméstica, quase melancólica.
A recepção inicial foi dividida, em parte porque muitos esperavam outro monumento verbal depois do silêncio editorial de treze anos. Com o tempo, porém, o romance ganhou releitura mais generosa e hoje é visto como uma peça decisiva para entender a transição americana entre contracultura e cinismo neoliberal. O fato de ter voltado agora ao radar do grande público diz muito sobre sua permanência. Vineland continua atual porque fala de um mundo em que a liberdade já não desaparece de uma vez; ela vai sendo drenada aos poucos, diante dos olhos de todos, até parecer normal.
Por outro lado, One Battle after Another ainda ficou longe do teto máximo. O recorde de mais estatuetas continua dividido entre três títulos, todos com 11 Oscars: Ben-Hur (1959), Titanic (1997) e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003). Entre eles, O Retorno do Rei mantém um dado especial: venceu em todas as categorias em que foi indicado.
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