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Em seu mais completo romance, Miguel de Cervantes mostrou que sem poesia a realidade empobrece

Em Dom Quixote, a loucura do herói expõe um dilema eterno entre imaginação, verdade e a dura pedagogia do mundo

24/03/2026 às 11h25 Atualizada em 24/03/2026 às 11h59
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln/Facetubes
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Foto: mhl
Foto: mhl

*Mhario Lincoln

Tenho em minha prateleira especial, dentro de meu quarto de trabalho, a maioria das edições publicadas no Brasil (e uma originalíssima, que me foi trazida da Espanha), de três grandes autores que delinearam minha vida literária, até aqui: Gabriel García Márquez (100 Anos de Solidão), Miguel de Cervantes (D. Quixote) e Josué Montelo (Tambores de São Luís), a meu ver, as três maiores obras-primas a que tive acesso e entendimento.

Não só li, mas entendi, senti, chorei, sorri e muitas emoções eu venho sentindo a cada edição nova que laçam, como este gibi sobre “Quixote” (vide foto) que comprei durante a viagem que fiz para Cambé (PR). Vim absorto, lembrando da obra (quase original) que li pela primeira vez, de quase mil páginas (edição comentada), transformada em rápidas pinceladas de desenhos e frases.

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Por incrível que possa parecer (junto ao meu bestunto), descobri nessa edição HQ, alguns detalhes realmente incríveis sobre pormenores de Alonso Quijano que, ao depois, tornou-se D. Quixote de Mancha. Por exemplo:

Cervantes não escreveu apenas a saga de um homem que enlouqueceu de tanto ler novelas de cavalaria. Escreveu, com ironia e grandeza, um romance sobre o que acontece quando a imaginação deixa de servir à vida e tenta governá-la sozinha.

Mas seria um erro reduzir a obra a uma condenação do sonho. O que Cervantes faz é mais nobre e mais doloroso. Ele corrige o delírio sem matar sua beleza. Ri do cavaleiro, mas o cerca de uma dignidade que nem a derrota consegue apagar.

Leitura e aprendizado.

Nisso, reafirmei minha ideia (neste HQ apresentada de forma simples e direta), que a queima dos livros da biblioteca de Alonso Quijano ratifica-se como uma das passagens mais simbólicas de toda a literatura ocidental. À primeira vista, parece um castigo imposto ao excesso da fantasia. Mas a cena é mais complexa.

A sobrinha e a ama desejam a extinção total, como se o mal estivesse inteiro nos livros. Interessante é que um dos personagens diante dessa queimação total de tantas obras primas, tenta salvar (pelo menos) os livros de poesia.

Muito interessante esse detalhe porque nesse insight, Cervantes encena um tribunal da leitura. Não acusa simplesmente a literatura. Acusa a leitura desordenada, a absorção sem filtro, o espírito que perde a medida e se entrega ao fascínio bruto da ficção.

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Agora, quando a poesia recebe tratamento mais respeitoso, o romance deixa claro que nem toda invenção é culpada do mesmo modo. A poesia pode desviar, sim, mas também pode elevar. Ela não é só ornamento da alma. É defesa contra a secura do mundo. A grande lição dessa passagem é que não são os livros, por si, que perdem o homem. É a perda do discernimento diante deles.

Há um episódio icônico: depois de apanhar e se perder nos caminhos de sua loucura, os amigos tentam uma trama ardilosa para trazerem Dom Quixote de volta para casa. E olha só que lição magnífica:

Dorotea se apresenta como a princesa Micomicona, embora possa ser tratada no vocabulário da época como donzela. (existe uma dúvida de como apresentá-la a Quixote. Se como donzela ou se como princesa). E por que essa dúvida? A mim, à princípio, não fazia diferença. Contudo, no HQ, algo me soou diferente. Donzela ou Princesa?

A diferença não é banal. Donzela remete à jovem idealizada, pura, cortejada pelo código cavaleiresco. Princesa já pertence ao plano da linhagem, da autoridade e do reino. Cervantes joga com essas camadas para mostrar que Dom Quixote só poderia ser reconduzido ao real por meio de uma ficção ainda mais sedutora do que a sua.

A ‘razão’, ali, precisa vestir figurino. A verdade precisa entrar em cena mascarada. É um dos momentos em que o romance revela sua modernidade espantosa. Às vezes, para salvar um homem do sonho, não basta acordá-lo. É preciso sonhar ao lado dele, só que com mais inteligência.

Mas não é só isso. Outra passagem ‘dúbia’:  a aventura do leão amplia esse paradoxo com rara grandeza. Dom Quixote exige que a jaula se abra, desafia a fera e oferece ao perigo a própria vida. A cena pede heroísmo, glória e sangue. Mas Cervantes a resolve de outro modo. O leão não o ataca. O leão lhe volta as costas. É um dos gestos mais profundos de ironia já escritos. O mundo real não precisa esmagar nossas ilusões com fúria. Muitas vezes basta não lhes dar importância.  

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Mutatis Mutandi: “sabes com quem está falando”??? Simplesmente o leão não dá importância e segue seu caminho. Ainda assim, a coragem de Dom Quixote não desaparece.  Miguel de Cervantes parece dizer ao seu leitor que o homem pode errar completamente sobre a natureza do inimigo e, apesar disso, conservar algo de heroico.

Outra coisa que o HQ “Quixote” me revelou com mais000 transparência diz respeito ao episódio na Caverna de Montesinos. Aqui, o romance se torna ainda mais misterioso e belo. Quixote desce e retorna trazendo visões extraordinárias, e o leitor permanece sem saber se deve chamá-las de sonho, delírio, revelação ou invenção. É justamente essa indecisão que faz da caverna um dos pontos mais altos da obra. Cervantes não quer apenas narrar uma aventura fantástica. Quer tocar uma zona escura da alma, onde memória, desejo e mito se confundem.

Falando com alguns amigos que estudam essa parte do romance original pelo lado mais psicológico, fiquei sabendo que essa alegoria da caverna “vem ser o subterrâneo da consciência”. É o lugar em que a imaginação deixa de ser simples erro e passa a funcionar como linguagem do invisível.

Outro fato que é bem explícito na HQ é a recepção de Don Antonio Moreno a Quixote. Durante a festa, nosso herói se depara com a cabeça falante. Aqui, Cervantes acrescenta à obra uma crítica brilhante da impostura e do fascínio pelo artifício. Don Antonio não é um criminoso, mas um fidalgo urbano que se diverte às custas do espanto alheio.

A cabeça parece prodigiosa, quase oracular, mas depois se revela impostora. O encantamento era fraude. A maravilha, artifício. A voz, um truque. O romance antecipa ali uma suspeita muito moderna: a de que nem tudo o que impressiona carece fé. Nem toda voz que responde sabe. Nem todo engenho que deslumbra alcança a verdade.

A cabeça falante é a encenação do falso saber. Tem presença, tem efeito, tem impacto, mas carece de alma. Cervantes atinge, com séculos de antecedência, esse velho vício humano de confundir espetáculo com autoridade.

E então surge Sansón Carrasco, talvez a figura mais decisiva do desengano. Letrado, homem da aldeia e do cálculo, ele compreende que Dom Quixote não será vencido por conselhos domésticos nem pela censura dos prudentes. Será preciso enfrentá-lo dentro da própria lógica cavaleiresca. Exatamente aí, começa um dos debates psicológicos mais duros para Quixote e seu ‘monte de loucuras’. Sansón então se disfarça de ‘maior inimigo da humanidade e provoca D. Quixote de La Mancha, ‘o Cavaleiro da Triste Figura’, apelido esse lhe dado por seu fiel escudeiro Sancho Pança.

O combate acontece e finalmente Quixote é derrotado. Sansón (a intenção não era feri-lo, mas acordá-lo de seus pesadelos). E cai, não apenas um corpo fatigado. Cai o edifício simbólico que sustentava a aventura.

Ao obrigá-lo a regressar para casa e a abandonar as armas, Sansón devolve o fidalgo à lucidez, mas também o aproxima da morte espiritual. Esse é um dos movimentos mais tristes de todo o romance. A razão vence. A ordem triunfa. O delírio é contido. E, no entanto, o leitor sente que alguma coisa preciosa também se perde. Cervantes jamais entrega a vitória final a um lado só. A cura de Quixote traz consigo uma sombra. O retorno ao bom senso cobra o preço da chama: sua morte.

É por isso que Dom Quixote continua a nos atingir com tanta força. Porque fala do perigo da fantasia desmedida, mas também do empobrecimento de uma vida sem elevação interior. Cervantes não absolve a loucura. Mas tampouco glorifica um mundo puramente racional, burocrático e sem vertigem. Entre a biblioteca incendiada e a volta derradeira para casa, ele deixa uma das grandes verdades da literatura. O homem precisa de realidade para não se perder. Mas precisa de poesia para não morrer antes da morte.

Por outro lado, Miguel de Cervantes parece sussurrar ao leitor uma sentença que atravessa os séculos. A imaginação pode nos ferir. Mas a falta dela nos empobrece por inteiro.

Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, poeta e jornalista.

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JAIME Há 2 meses BSB-DFQue preciosidade textual!!!
JORGE CRUZ DE OLIVEIRA JUNIORHá 3 meses CuritibaMuito boa análise, meu amigo Mhario. Deu vontade de reler Cervantes.
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