
Flora Guilhonm
Esta matéria é interativa. O leitor tem todo o direito de opinar, nos comentários abaixo. Todas as opiniões serão enviadas para a Dra. Flora Guilhonm. Original de Flora Guilhonm official/England. Texto da Orientadora Ocupacional (England & United Kingdom), dra. Flora Guilhonm, exclusivo para o www.facetubes.com.br. (Trad. livre de Mhario Lincoln).
Flora Guilhonm, correspondente do Facetubes na Inglaterra, para a Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes.
Há temas que exigem menos verves e mais responsabilidades. Este é um deles. A morte autoinfligida entre escritores, poetas e romancistas não pode ser lida como um romance trágico da genialidade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) a trata como um problema de saúde pública multifatorial e (algumas vezes) prevenível, influenciado por fatores sociais, culturais, biológicos, psicológicos e ambientais. A mesma OMS estima mais de 720 mil mortes por ano no mundo, o que basta para desmontar qualquer tentação de romantizar o desespero.
A história literária internacional guarda perdas que continuam a ferir a memória dos leitores. Virginia Woolf deixou Mrs. Dalloway e To the Lighthouse; Sylvia Plath, The Bell Jar e Ariel; Ernest Hemingway, A Farewell to Arms e The Old Man and the Sea; Anne Sexton, Live or Die e Transformations; Cesare Pavese, Dialogues with Leucò e The Moon and the Bonfires; Hart Crane, White Buildings e The Bridge; Yukio Mishima, Confessions of a Mask e The Temple of the Golden Pavilion; Stefan Zweig, Beware of Pity e The World of Yesterday. Em todos esses casos, a posteridade consagrou a obra, mas não conseguiu devolver o autor à margem segura da vida.
No Brasil, nossas fontes apontaram duas figuras que impõem silêncio e reflexão: Raul Pompeia, patrono da cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras, morreu em 1895 e deixou, entre outras obras centrais, O Ateneu e Canções sem metro. Pedro Nava, descrito pela própria Academia como o maior memorialista brasileiro, deixou livros como Baú de Ossos e Balão Cativo antes de interromper a própria trajetória em 1984. Mas devo acrescentar um dos casos que mais chocou a população amante da poesia brasileira: Ana Cristina César.
Ana Cristina Cesar, a Ana C., morreu no Rio de Janeiro em 29 de outubro de 1983, aos 31 anos. As fontes biográficas mais usadas sobre a poeta registram o episódio em Copacabana, no apartamento dos pais, e a crítica literária costuma tratar essa morte como um dos acontecimentos mais dolorosos da poesia brasileira contemporânea, porque interrompeu de forma brusca uma autora já central na chamada geração mimeógrafo. Até então, ela já havia consolidado um percurso singular entre poesia, tradução, crítica e escrita de diário, com livros como Cenas de abril, Correspondência completa, Luvas de pelica e, sobretudo, A teus pés.
O que torna sua morte ainda mais marcante não é apenas a precocidade, mas o contraste entre a brevidade da vida e a permanência da obra. Depois de 1983, amigos, críticos e instituições ajudaram a fixar Ana Cristina Cesar como uma das vozes mais inquietas, íntimas e modernas da poesia brasileira, e seu arquivo passou a ser preservado pelo Instituto Moreira Salles. Por isso, ao falar de sua morte no Rio, o mais justo é evitar qualquer romantização: foi uma perda humana e literária imensa, que deixou uma lacuna real, mas também uma escrita que continua viva, lida e estudada décadas depois.
Por outro lado, a psiquiatria séria – aqui em Londres há estudos a favor - rejeita a velha caricatura da “maldição do gênio”. A Associação Psiquiátrica internacional, por sua vez, lista como fatores de risco, entre outros, transtornos mentais, uso de substâncias, traumas, perdas importantes, dificuldades financeiras, histórico prévio de comportamento autodestrutivo e rupturas afetivas.
Aí entra o alerta brasileiro, através do Ministério da Saúde: sinais de alerta como desesperança, preocupação com a própria morte, agravamento de manifestações verbais e comportamentais, isolamento e aumento do uso de álcool ou drogas, se não atentados previamente, levam ao final infeliz. Isso quer dizer que o sofrimento costuma dar sinais, ainda que nem sempre seja ouvido a tempo.
Também é preciso dizer, com clareza clínica, que ajudar uma pessoa em risco não se resume a medicação. Há caminhos reconhecidos pela medicina e pela saúde pública que passam por presença, escuta, acolhimento e continuidade de cuidado. Aliás, conta-se que em Brighton, cidade turística inglesa à beira-mar, onde tudo é poesia, que uma pessoa (proibido dizer nome) era bastante feliz e tinha uma roda de amigos que se reuniam diariamente. Mas durante dois dias, essa pessoa não mais apareceu nas reuniões. Ninguém se preocupou muito. Mas, um dos amigos foi até a residência dele e se deparou com uma cena grotesca, prestes a acontecer.
O amigo correu para a sala onde era preparada a cena, abraçou-o, sentaram-se juntos e ambos conversaram por longas 5 horas seguintes. Esse apoio cheio de compreensão, ouvidos, abraços e calor humano, foi fundamental para tirar da cabeça dessa pessoa pensamentos autoinfligentes. Esses dois acabaram, então, por fundar um dos Centro de Apoio à Vida mais importantes da Europa, independente de quaisquer apoios oficiais. E de lá para cá, salvaram milhares de vidas, tomando-se como base um dado impressionante, aqui na Inglaterra: “média de 18 pessoas buscam alternativas finais, por dia, no Reino Unido” – (Office for Nacional Statistics).
Como se vê, mesmo sem apoio direto de instituições oficiais, de ministérios da Saúde ou de governos regionais e suas políticas públicas, existem associações não oficiais de Estado, que acolhem pessoas em risco, inclusive escritores e poetas, porque o atendimento é feito à pessoa, não à profissão, nem a detentores de riqueza.
Pesquisei e descobri no Brasil o CVV – Centro de Valorização a Vida - instituição que oferece apoio emocional gratuito e sigiloso, por telefone 188, 24 horas por dia, além de chat, e-mail e atendimento presencial em alguns locais.
Aqui e no Reino Unido, os Samaritans mantêm atendimento telefônico gratuito 24 horas por dia. Nos Estados Unidos, a 988 Lifeline oferece apoio emocional gratuito e confidencial por ligação, texto e chat, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Já a AFSP atua com pesquisa, educação, advocacy e apoio a pessoas afetadas.
Quando a pergunta se estreita para o universo de autores, o quadro muda um pouco. Não aparece, nas fontes mais sólidas, uma rede internacional de grande capilaridade voltada exclusivamente à prevenção da morte autoinfligida de escritores, poetas e romancistas. O que existe são estruturas que aliviam fatores de risco adjacentes. O Authors League Fund, por exemplo, ajuda escritores, jornalistas, poetas e críticos em emergências médicas, habitacionais e financeiras. O Authors Guild oferece comunidade profissional e defesa de direitos, algo importante numa atividade sabidamente solitária.
A PEN America mantém programação, apoio à comunidade literária e, em alguns casos, fundos de emergência para escritores em crise. Não substituem cuidado clínico, mas reduzem abandono, precariedade e isolamento.
Fato interessante que conversei com o editor desta Plataforma foi sobre um item que li sobre tuberculose, alcoolismo e decepção amorosa, como fatores diretos da autoinfligência. Isso porque, alguns poetas se deixaram sem tratamento para “morrerem de amor”, ao desenvolverem a tuberculose – até então chamada de a doença do amor perdido-. Entra aí, também, a doença do alcoolismo. Sim. Alcoolismo não é vício. É doença autoinfligida. (Cid10/Cid11). Classificação Internacional de Doenças/Organização Mundial de Saúde)
Porém, em minhas pesquisas, a partir das bibliotecas inglesas e portuguesas (de Portugal), não encontrei nada de concreto, a não ser, algo muito perto da romantização de poetas (brasileiros e lusitanos), diante desse fator autoinfligentes.
Porém, quatro nomes brasileiros costumam surgir nesse terreno ambíguo. Casimiro de Abreu morreu tuberculoso, muito jovem. Castro Alves também foi vencido pela tuberculose, após uma vida breve e intensíssima, cercada de paixão e sofrimento físico. Cruz e Sousa morreu vítima da mesma doença, sob o peso adicional da pobreza e do racismo de seu tempo. Fagundes Varela aparece, em registro da Academia, ligado a melancolia agravada por alcoolismo, desventuras e tribulações sentimentais.
A meu ver, o erro de ligar a tuberculose como fato influenciador do descontentamento com a vida, seria converter essas biografias em fórmula. O correto é reconhecer que dor amorosa, doença e álcool podem ferir profundamente, mas não explicam, sozinhos, o desfecho extremo de uma existência.
Portanto, a literatura sabe nomear o abismo, mas não tem obrigação de habitá-lo. Essa talvez seja a lição mais séria desta pauta que recebi do nosso editor-sênior. Nenhum grande livro compensa uma vida perdida antes da hora. Nenhum verso justifica o abandono de quem começa a cair. Quando um romancista, um poeta, um jornalista ou qualquer outra pessoa passa a viver cercado de desesperança, isolamento, fixação na morte ou frases de despedida, o gesto mais alto não é admirar sua dor: é interromper a solidão com escuta, presença e ajuda concreta. É assim que se salva alguém. Não com programas inebriantes oficiais nem com doses excessivas de barbitúricos. É a mão amiga, o ouvir, o “colo”, que salva (nesse momento em que nem mesmo a fé existe mais nesses corações). É assim que o afeto age. E é assim que a sociedade honra, de fato, os seus ídolos.
Quem sabe se isso tivesse acontecido lá atrás, a insubstituível Florbela Espanca não teria produzidos ainda mais? Na verdade, a literatura do século XIX e XX e parte da crítica posterior, muitas vezes embelezaram essa dor a tal ponto de aplaudir (e não entender) o pedido de socorro. Aconteceu com Florbela Espanca, foco de inúmeras histórias e estórias que atrapalharam e muito os verdadeiros motivos do desenlace: uma grande instabilidade emocional, agravada pela morte de seu irmão, Apeles Espanca, em 1927, abortos espontâneos e divórcios, relatando em seu "Diário do Último Ano" a angústia que a levou ao ato extremo. Óbvio que na época, se tivessem centros de apoio, uma atenção – como os brasileiros dizem “um colo amigo” - talvez esse desespero não tivesse acontecido.
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Bom, só para relembrar: no Brasil, todos podem buscar apoio emocional gratuito e sigiloso no CVV, pelo 188, 24 horas por dia. Em situação de risco imediato, o caminho mais seguro é acionar também o serviço de urgência da região.
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