
FLORA GUILHOMN - O texto é da Orientadora Ocupacional (England & United Kingdom), dra. Flora Guilhonm, correspondente da Plataforma do Facetubes, na Europa. (Tradução livre do jornalista Mhario Lincoln).
Quando literatura especializada vira ponte para atravessar as angústias do alcoolismo
A Inglaterra registrou 8.274 mortes específicas por álcool em 2023, a maior taxa desde o início da série histórica em 2006. No mesmo ciclo, houve 339.916 internações hospitalares especificamente ligadas ao álcool. Também recorde da série, enquanto a mais recente pesquisa nacional inglesa apontou que 77% dos adultos beberam nos 12 meses anteriores e 44% disseram fazê-lo ao menos uma vez por semana. O dado frio não descreve sozinho o drama. Ele apenas mede o tamanho da falência quando o prazer deixa de ser escolha e passa a comandar a vida.
É nesse ponto que a história de Alcoólicos Anônimos ganha peso moral, comunitário, também literário. Desde sua formação, em 1935, a irmandade de A.A. percebeu que precisava transformar experiência em linguagem, sofrimento em relato compartilhável, queda em testemunho útil.
Os números oficiais da própria organização ajudam a entender a dimensão dessa travessia. Em 1940, o AA estimava cerca de 1.400 membros em 50 grupos. Em 1950, já eram 96.475 membros em 3.527 grupos. Em 1980, 907.575 membros em 42.105 grupos. Em 2023, (números atuais), a estrutura mundial era estimada em 190.455 grupos e 2.567.613 membros, presentes em cerca de 200 países.
A expansão não ocorreu por acaso. Um dos marcos decisivos foi a grande reportagem de Jack Alexander na The Saturday Evening Post, publicada em 1º de março de 1941. O próprio material histórico de AA registra que a matéria provocou cerca de 6 mil pedidos de ajuda enviados ao escritório de Nova York e que a irmandade saltou, naquele ano, de aproximadamente 2 mil para 8 mil membros. Foi a prova concreta de que, antes mesmo de convencer por teoria, a palavra impressa podia alcançar quem já não suportava mais a própria rotina com a bebida.
Essa centralidade da literatura nunca foi acidental. Os documentos históricos de AA mostram que seus fundadores consideravam indispensável ter um livro, também insistiam em que a própria irmandade mantivesse o controle de sua literatura, por entendê-la como um de seus bens mais valiosos. Daí nasce o peso de títulos como Alcoólicos Anônimos — o chamado Livro Azul —, Os Doze Passos e as Doze Tradições, Vivendo Sóbrio, Reflexões Diárias, Na Opinião do Bill e A Linguagem do Coração, além da revista Grapevine. Não se trata de catálogo. Trata-se de uma arquitetura de linguagem para quem perdeu o centro de si.
A reunião, por sua vez, é o lugar onde essa literatura respira. O próprio AA no Brasil define o grupo como o alicerce básico da irmandade e informa a existência de 1.676 grupos e 4.538 reuniões semanais no país. Muitas dessas reuniões são dedicadas justamente ao estudo dos Passos e da literatura básica.
Isso importa porque a recuperação não nasce apenas de informação, mas da repetição disciplinada de uma escuta entre iguais. E a melhor evidência disponível hoje reforça esse ponto. Isto é, intervenções baseadas em AA e Facilitação dos Doze Passos foram mais eficazes para ampliar a abstinência do que abordagens como terapia cognitivo-comportamental, com cerca de 42% de abstinentes após um ano, contra 35% em outros tratamentos comparados.
No mundo, a OMS estimou 2,6 milhões de mortes atribuíveis ao álcool em 2019, o equivalente a 4,7% de todos os óbitos, além de 400 milhões de pessoas com transtornos por uso de álcool, sendo 209 milhões com dependência.
Só na Região Europeia da OMS, o álcool responde por cerca de 800 mil mortes por ano. No Brasil, levantamentos recentes apontam prevalência em torno de 2,9% da população com transtorno por uso de álcool em 2021, enquanto nota técnica do Ministério da Saúde informa cerca de 53 mil mortes atribuíveis ao álcool no país naquele mesmo ano e 21.315 óbitos por causas totalmente atribuíveis em 2022. O custo econômico também é pesado: estudo divulgado pela Fiocruz estimou em R$ 18,8 bilhões o impacto anual do consumo de álcool no Brasil.
No Brasil, o alcoolismo não deve ser tratado como simples “vício” moral. O enquadramento técnico é outro. O Ministério da Saúde trabalha com a noção de transtorno por uso de álcool e afirma que o alcoolismo é doença crônica e multifatorial. A classificação diagnóstica brasileira se apoia no CID, historicamente no CID-10, dentro do grupo dos transtornos mentais e comportamentais relacionados ao uso de substâncias psicoativas.
O que caracteriza a doença do alcoolismo na CID-10 (Classificação Internacional de Doenças)? “A Síndrome de Dependência do Álcool (F10.2) é caracterizada pela necessidade de ingerir álcool para funcionar, perda de controle sobre o consumo, tolerância aumentada (necessidade de beber mais para obter o mesmo efeito) e sintomas de abstinência quando o consumo para. Nota: A OMS aponta o álcool como causa direta de diversas doenças, como cirrose e câncer, classificando-o como um grave problema de saúde pública”.
Portanto é errado se afirmar que o Alcoolismo é “vício”, e não doença: a diferença é bem decisiva, inclusive para o tratamento. Vício, no senso comum, costuma sugerir fraqueza de caráter ou desvio de conduta. Doença, aqui, significa um quadro clínico reconhecido, com alterações de comportamento, tolerância, abstinência, recaída, prejuízo social e risco orgânico elevado de morte. O próprio Ministério da Saúde lembra que o álcool se associa a mais de 230 categorias de doenças no CID e que dezenas delas são totalmente atribuíveis ao consumo alcoólico. É por isso que tratamento, acompanhamento e rede de apoio importam mais do que sermão.
Exemplo disso é a frase de Andrew Solomon, contida na obra O Demônio do Meio-Dia que ajuda a separar dois territórios que a linguagem cotidiana costuma misturar: “Sentir desejo de repetir algo porque é prazeroso não é o mesmo que ter necessidade de repetir algo por ser intolerável ficar sem ele.” A primeira experiência ainda pertence ao campo da vontade. A segunda já entrou no campo da servidão.
No alcoolismo, a bebida deixa de ser recompensa e se converte em anestesia, depois em rotina, depois em exigência fisiológica e emocional. É aí que a literatura de recuperação ganha força. Ela devolve nome ao que a dependência havia transformado em impulso cego.
A própria história literária conhece bem esse abismo. Entre os britânicos, Dylan Thomas, autor de Under Milk Wood, drama de rádio que o catapultou ao estrelado, tornou-se símbolo de uma vida atravessada por bebedeiras destrutivas e morreu em Nova York, aos 39 anos, depois de anos de consumo excessivo.
Malcolm Lowry, autor do incrível Under the Volcano, fez da devastação alcoólica matéria central de sua obra e de sua própria trajetória. No Brasil, Lima Barreto autor do famoso “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, teve internações marcadas pelo alcoolismo e morreu com a saúde profundamente consumida; e Torquato Neto, jornalista brasileiro, figura fundamental da Tropicália, aparece em perfis biográficos e estudos sobre sua trajetória associado a sucessivas crises ligadas ao álcool.
São muitas as situações que o abuso do álcool interfere. O Ministério da Saúde brasileiro destaca, entre os danos relevantes, hipertensão, infarto, fibrilação atrial, miocardite, pancreatite e cirrose, além de participação expressiva em cânceres de esôfago, fígado, boca e faringe. O INCA é direto: não há nível seguro de consumo para prevenção do câncer. Em outras palavras, o álcool não agride apenas o fígado. Ele repercute no cérebro, no coração, no aparelho digestivo, na saúde mental, nas relações familiares, no trânsito e na violência social.
Por isso, talvez a maior força de A.A.r esteja menos no slogan do que na combinação rara entre comunidade, disciplina e linguagem. Um alcoólico chega, escuta, fala, lê, volta, recai, retorna, insiste. A literatura de AA não substitui o encontro, mas organiza a experiência para que o encontro não se perca. Ela oferece frase, memória, método e espelho. Num tempo em que o álcool segue tratado por muitos como hábito elegante ou escape banal, essa literatura continua lembrando o essencial: a recuperação começa quando alguém consegue dizer, sem ornamento, a verdade sobre a própria ruína — e encontra, do outro lado da mesa, quem entenda exatamente o que aquilo quer dizer.
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SERVIÇO
Em tempo: Os grupos de Alcoólicos Anônimos se encontram em praticamente todas as cidades brasileiras. Mas caso alguém necessite de informações concretas, aqui está o endereço e os contatos do AA/Brasil:
A sede nacional de Alcoólicos Anônimos no Brasil (JUNAAB) está localizada em São Paulo.
Endereço: Rua Padre Antônio de Sá, 116 - Tatuapé, São Paulo - SP, CEP: 03066-010.
Telefone: +55 11 3229-3611.
E-mail e Contato: O contato é preferencialmente feito através do site oficial por meio de formulário: www.aa.org.br/fale-conosco.
Para encontrar reuniões, linhas de ajuda ou escritórios locais, o site oficial de A.A. Brasil oferece um mapa de localização: www.aa.org.br/localizacao.
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