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Quando a literatura realmente salva, orienta e dá um 'norte' a quem perdeu a vontade de viver

Com recordes de mortes ligadas ao álcool e milhões de doentes no mundo, inclusive grandes escritores, poetas e músicos, a literatura especializada de A.A. permanece como uma das vias mais humanas de acesso à sobriedade.

02/04/2026 às 16h34 Atualizada em 02/04/2026 às 16h54
Por: Mhario Lincoln Fonte: Flora Guilhomn (England)
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Ilustração: MHL/GINAIFT
Ilustração: MHL/GINAIFT

FLORA GUILHOMN - O texto é da Orientadora Ocupacional (England & United Kingdom), dra. Flora Guilhonm, correspondente da Plataforma do Facetubes, na Europa. (Tradução livre do jornalista Mhario Lincoln).

Quando literatura especializada vira ponte para atravessar as angústias do alcoolismo

A Inglaterra registrou 8.274 mortes específicas por álcool em 2023, a maior taxa desde o início da série histórica em 2006. No mesmo ciclo, houve 339.916 internações hospitalares especificamente ligadas ao álcool. Também recorde da série, enquanto a mais recente pesquisa nacional inglesa apontou que 77% dos adultos beberam nos 12 meses anteriores e 44% disseram fazê-lo ao menos uma vez por semana. O dado frio não descreve sozinho o drama. Ele apenas mede o tamanho da falência quando o prazer deixa de ser escolha e passa a comandar a vida.

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É nesse ponto que a história de Alcoólicos Anônimos ganha peso moral, comunitário, também literário. Desde sua formação, em 1935, a irmandade de A.A. percebeu que precisava transformar experiência em linguagem, sofrimento em relato compartilhável, queda em testemunho útil.

Os números oficiais da própria organização ajudam a entender a dimensão dessa travessia. Em 1940, o AA estimava cerca de 1.400 membros em 50 grupos. Em 1950, já eram 96.475 membros em 3.527 grupos. Em 1980, 907.575 membros em 42.105 grupos. Em 2023, (números atuais), a estrutura mundial era estimada em 190.455 grupos e 2.567.613 membros, presentes em cerca de 200 países.

A expansão não ocorreu por acaso. Um dos marcos decisivos foi a grande reportagem de Jack Alexander na The Saturday Evening Post, publicada em 1º de março de 1941. O próprio material histórico de AA registra que a matéria provocou cerca de 6 mil pedidos de ajuda enviados ao escritório de Nova York e que a irmandade saltou, naquele ano, de aproximadamente 2 mil para 8 mil membros. Foi a prova concreta de que, antes mesmo de convencer por teoria, a palavra impressa podia alcançar quem já não suportava mais a própria rotina com a bebida.

Essa centralidade da literatura nunca foi acidental. Os documentos históricos de AA mostram que seus fundadores consideravam indispensável ter um livro, também insistiam em que a própria irmandade mantivesse o controle de sua literatura, por entendê-la como um de seus bens mais valiosos. Daí nasce o peso de títulos como Alcoólicos Anônimos — o chamado Livro Azul —, Os Doze Passos e as Doze Tradições, Vivendo Sóbrio, Reflexões Diárias, Na Opinião do Bill e A Linguagem do Coração, além da revista Grapevine. Não se trata de catálogo. Trata-se de uma arquitetura de linguagem para quem perdeu o centro de si.

A reunião, por sua vez, é o lugar onde essa literatura respira. O próprio AA no Brasil define o grupo como o alicerce básico da irmandade e informa a existência de 1.676 grupos e 4.538 reuniões semanais no país. Muitas dessas reuniões são dedicadas justamente ao estudo dos Passos e da literatura básica.

Isso importa porque a recuperação não nasce apenas de informação, mas da repetição disciplinada de uma escuta entre iguais. E a melhor evidência disponível hoje reforça esse ponto. Isto é, intervenções baseadas em AA e Facilitação dos Doze Passos foram mais eficazes para ampliar a abstinência do que abordagens como terapia cognitivo-comportamental, com cerca de 42% de abstinentes após um ano, contra 35% em outros tratamentos comparados.

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No mundo, a OMS estimou 2,6 milhões de mortes atribuíveis ao álcool em 2019, o equivalente a 4,7% de todos os óbitos, além de 400 milhões de pessoas com transtornos por uso de álcool, sendo 209 milhões com dependência.

Texto: Dra. Flora Guilhomn (England).

Só na Região Europeia da OMS, o álcool responde por cerca de 800 mil mortes por ano. No Brasil, levantamentos recentes apontam prevalência em torno de 2,9% da população com transtorno por uso de álcool em 2021, enquanto nota técnica do Ministério da Saúde informa cerca de 53 mil mortes atribuíveis ao álcool no país naquele mesmo ano e 21.315 óbitos por causas totalmente atribuíveis em 2022. O custo econômico também é pesado: estudo divulgado pela Fiocruz estimou em R$ 18,8 bilhões o impacto anual do consumo de álcool no Brasil.

No Brasil, o alcoolismo não deve ser tratado como simples “vício” moral. O enquadramento técnico é outro. O Ministério da Saúde trabalha com a noção de transtorno por uso de álcool e afirma que o alcoolismo é doença crônica e multifatorial. A classificação diagnóstica brasileira se apoia no CID, historicamente no CID-10, dentro do grupo dos transtornos mentais e comportamentais relacionados ao uso de substâncias psicoativas.

O que caracteriza a doença do alcoolismo na CID-10 (Classificação Internacional de Doenças)? “A Síndrome de Dependência do Álcool (F10.2) é caracterizada pela necessidade de ingerir álcool para funcionar, perda de controle sobre o consumo, tolerância aumentada (necessidade de beber mais para obter o mesmo efeito) e sintomas de abstinência quando o consumo para.  Nota: A OMS aponta o álcool como causa direta de diversas doenças, como cirrose e câncer, classificando-o como um grave problema de saúde pública”.

 

Portanto é errado se afirmar que o Alcoolismo é “vício”, e não doença: a diferença é bem decisiva, inclusive para o tratamento. Vício, no senso comum, costuma sugerir fraqueza de caráter ou desvio de conduta. Doença, aqui, significa um quadro clínico reconhecido, com alterações de comportamento, tolerância, abstinência, recaída, prejuízo social e risco orgânico elevado de morte. O próprio Ministério da Saúde lembra que o álcool se associa a mais de 230 categorias de doenças no CID e que dezenas delas são totalmente atribuíveis ao consumo alcoólico. É por isso que tratamento, acompanhamento e rede de apoio importam mais do que sermão.

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Exemplo disso é a frase de Andrew Solomon, contida na obra O Demônio do Meio-Dia que ajuda a separar dois territórios que a linguagem cotidiana costuma misturar: “Sentir desejo de repetir algo porque é prazeroso não é o mesmo que ter necessidade de repetir algo por ser intolerável ficar sem ele.” A primeira experiência ainda pertence ao campo da vontade. A segunda já entrou no campo da servidão.

No alcoolismo, a bebida deixa de ser recompensa e se converte em anestesia, depois em rotina, depois em exigência fisiológica e emocional. É aí que a literatura de recuperação ganha força. Ela devolve nome ao que a dependência havia transformado em impulso cego.

A própria história literária conhece bem esse abismo. Entre os britânicos, Dylan Thomas, autor de Under Milk Wood, drama de rádio que o catapultou ao estrelado, tornou-se símbolo de uma vida atravessada por bebedeiras destrutivas e morreu em Nova York, aos 39 anos, depois de anos de consumo excessivo.

Malcolm Lowry, autor do incrível Under the Volcano, fez da devastação alcoólica matéria central de sua obra e de sua própria trajetória. No Brasil, Lima Barreto autor do famoso “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, teve internações marcadas pelo alcoolismo e morreu com a saúde profundamente consumida; e Torquato Neto, jornalista brasileiro, figura fundamental da Tropicália, aparece em perfis biográficos e estudos sobre sua trajetória associado a sucessivas crises ligadas ao álcool.

 

São muitas as situações que o abuso do álcool interfere. O Ministério da Saúde brasileiro destaca, entre os danos relevantes, hipertensão, infarto, fibrilação atrial, miocardite, pancreatite e cirrose, além de participação expressiva em cânceres de esôfago, fígado, boca e faringe. O INCA é direto: não há nível seguro de consumo para prevenção do câncer. Em outras palavras, o álcool não agride apenas o fígado. Ele repercute no cérebro, no coração, no aparelho digestivo, na saúde mental, nas relações familiares, no trânsito e na violência social.

Por isso, talvez a maior força de A.A.r esteja menos no slogan do que na combinação rara entre comunidade, disciplina e linguagem. Um alcoólico chega, escuta, fala, lê, volta, recai, retorna, insiste. A literatura de AA não substitui o encontro, mas organiza a experiência para que o encontro não se perca. Ela oferece frase, memória, método e espelho. Num tempo em que o álcool segue tratado por muitos como hábito elegante ou escape banal, essa literatura continua lembrando o essencial: a recuperação começa quando alguém consegue dizer, sem ornamento, a verdade sobre a própria ruína — e encontra, do outro lado da mesa, quem entenda exatamente o que aquilo quer dizer.

 

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SERVIÇO

Em tempo: Os grupos de Alcoólicos Anônimos se encontram em praticamente todas as cidades brasileiras. Mas caso alguém necessite de informações concretas, aqui está o endereço e os contatos do AA/Brasil:

A sede nacional de Alcoólicos Anônimos no Brasil (JUNAAB) está localizada em São Paulo. 
Endereço: Rua Padre Antônio de Sá, 116 - Tatuapé, São Paulo - SP, CEP: 03066-010.
Telefone: +55 11 3229-3611.
E-mail e Contato: O contato é preferencialmente feito através do site oficial por meio de formulário: www.aa.org.br/fale-conosco. 
Para encontrar reuniões, linhas de ajuda ou escritórios locais, o site oficial de A.A. Brasil oferece um mapa de localização: www.aa.org.br/localizacao. 

 

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AnselmoHá 2 meses Campina Grande PBPassei por várias clínicas e me drogaram mais ainda. Vivia como um Zumbi. Teve dia em que nem meu pai conheci. Hoje, sem o álcool, pelo AA, retomando a minha carreira de escritor. Meu primeiro livro "O SANTUÁRIO", romance, vendeu mais de 5 mil cópias em meu estado. Nem vi a cor desse dinheiro e até hoje ainda devo a gráfica. Mas renegociei e estou pagando devagar. Graças ao AA.
M.N.TOHá 2 meses TocantinsFaço parte de AA há cinco anos. Fui tirado da sergeta por meu padrinho de ingesso e estou vivo. Retomei minha família, criei uma nova banda de música e estou feliz graças ao AA
ACHá 2 meses Camboriu SCMestre, eu estou em desespeo mesmo. Perdi meu emprego, minha família. Fui numa clínica e eles me encheram de barbitúricos. Ora, não quero mais usar nada. Acabo de ler esta matéria. Agora mesmo vou entrar em contato aqui em minha cidade. Obrigado. Estava muito desesperado mesmo. Ó Deus, ele ouviu minhas preces. Não aguento mais.
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