
Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, poeta e jornalista.
"Quando o erotismo entra no poema com estrutura, ritmo e visão, ele deixa de ser mero tema escandaloso e se transforma em conhecimento. Mesmo que esse tipo de escrita não agrade consensos, isso não reduz sua legitimidade estética nem sua força literária."
“Cancela”, de Bioque Mesito, entra num território que a poesia quase nunca atravessa sem atrito. O poema escolhe o corpo como campo de impacto, e não como ornamento. Sua linguagem toca a zona em que desejo, falta de ar, vertigem e teatralidade se confundem. Os maranhenses mais antigos sabem que essa ousadia não é inteiramente nova. Bioque é maranhense, e o grande Reynaldo Faray, diretor e ator de teatro, já havia tensionado esse mesmo campo numa São Luís bem mais pudica, ao levar ao palco “Adão e Eva”. À época, a bailarina Vicenir Costa surgia em cena com malha cor da pele e os longos cabelos cobrindo o corpo. Foi algo de forte repercussão para os padrões da década de 1960.
Agora, Mesito retoma essa tradição de falar do concreto sendo concreto, sem arrodeios. Em “Cancela”, ele não narra um encontro amoroso em chave descritiva. O texto prefere registrar um estado de combustão, como se o eros surgisse menos como prazer pacífico e mais como força que inclina, quebra, arrasta e suspende. Mas há, nesses versos, um dado decisivo que precisa ser revelado desde logo: a origem cinematográfica dessa matéria poética.
Antes de chegar ao poema, é preciso entender o tipo de experiência humana que o antecede. A base está no filme Now & Later, de 2011. Ali está a história de Angela, interpretada por Shari Solanis, citada logo nos primeiros versos, e Bill, vivido por James Wortham. Eles não se encontram apenas como duas pessoas solitárias. Cruzam-se como duas crises. Ela, imigrante ilegal, vive sob a pressão concreta da exclusão. Ele, banqueiro em ruína e foragido, carrega o peso de um colapso moral e social. Quando esses dois destinos se tocam, o filme sugere que o amor não nasce em terreno estável. Nasce pelas beiradas. E é justamente nessa beira que a poesia de Bioque Mesito encontra sua força.
Angela não surge apenas como personagem sensual. Ela aparece como agente de deslocamento. É ela quem oferece abrigo, corpo, conversa e um novo ângulo de mundo a um homem que já vinha quebrado. O sexo, nesse contexto, não é enfeite dramático. Funciona como linguagem de recondução. Entre política, filosofia e prazeres terrenos, o filme constrói uma pedagogia íntima do abalo. Bill não recebe apenas afeto. Recebe uma espécie de desmonte interior. E isso ajuda a entender por que “Cancela” não descreve simplesmente uma cena erótica. O poema registra o instante em que alguém deixa de ser inteiramente senhor de si.
Bioque Mesito capta esse movimento e o radicaliza. Em vez de reproduzir a narrativa do filme, ele a comprime em imagem, ritmo e choque verbal. O que no cinema se desenvolve pela convivência, pela fala e pelo corpo em presença, no poema se transforma em pulsação concentrada. A linguagem entra no nervo da experiência. O corpo deixa de ser paisagem e passa a ser campo de tensão. O desejo não aparece como prazer decorativo, mas como força que enverga, desorganiza e arrasta.
Há um ponto decisivo nessa passagem do filme para o poema. O relacionamento entre Angela e Bill, tal como é apresentado, mistura acolhimento e perigo, prazer e reconfiguração, abrigo e vertigem. E é isso que “Cancela” absorve. O título, aliás, já sugere ambiguidade. Cancela é limite, obstáculo, passagem controlada. Mas toda cancela também pode ser aberta. O poema trabalha nessa zona em que o amor deixa de ser proteção serena e se torna travessia tensa. Não é o erotismo pelo erotismo. É o erotismo como rito de passagem. Nesse sentido, a leitura remete à reflexão de Georges Bataille, (escritor, filósofo, bibliotecário e pensador francês do século XX, conhecido por suas abordagens provocativas sobre erotismo, sagrado e transgressão), para quem o erotismo não se reduz à satisfação sexual, mas se aproxima de uma transgressão dos interditos, funcionando como experiência de passagem para algo mais fundo.
Por isso, a presença do corpo, em Mesito, não deve ser lida de modo estreito. Quando ele nomeia com franqueza certas partes e certos impulsos, não está se rendendo ao efeito fácil. Está dizendo que há experiências humanas que já não cabem na linguagem domesticada. O filme, que está na origem de tudo, já apontava nessa direção ao unir sexo apaixonado e conversas profundas. O poema apenas leva essa intuição a um ponto mais extremo: o lugar em que a carne também pensa, em que o desejo também reorganiza a consciência, em que a intimidade pode ser tão filosófica quanto física.
Angela, vista desse modo, não é somente musa ou parceira amorosa. Ela se converte em figura de iniciação. Bill, por sua vez, não é apenas um homem caído. É alguém que, ao tocar esse outro mundo encarnado por ela, perde o eixo antigo e entra num regime novo de percepção.
“Cancela” nasce justamente desse abismo entre o antes e o depois. Seus versos parecem dizer que o encontro amoroso, quando verdadeiro, nunca conserva intacta a pessoa que entra nele. Sempre há perda de forma. Sempre há uma pequena ruína do eu. Mas uma ruína em erupção verbal.
Ao fim, a ligação entre o filme e o poema “Cancela” é madura justamente porque não idealiza o amor como 'descanso'. O amor aparece ali como força que acolhe e também desestabiliza. Como liberdade que se paga com exposição. Como prazer que toca regiões mais fundas do ser. Bioque Mesito entende que certas histórias não terminam na tela. Continuam vibrando na linguagem. E, ao escrever “Cancela”, transforma esse encontro entre Angela e Bill em algo maior do que um enredo de desejo. Transforma-o numa meditação poética sobre entrega, limite e transfiguração.
Bioque reafirma, assim, uma evidência que a crítica séria reconhece há muito tempo: quando o erotismo entra no poema com estrutura, ritmo e visão, ele deixa de ser mero tema escandaloso e se transforma em conhecimento. Mesmo que esse tipo de escrita não agrade consensos, isso não reduz sua legitimidade estética nem sua força literária. Ave, poeta!
Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, poeta e jornalista.
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