
Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln.
Na longa história literária da poeta Maya Angelou dois de seus versos sempre causaram um certo pico de discussões. E, para críticos literários, essas frases (versos) ainda hoje se enfrentam, porém, sem se desmentirem:
“I can be changed by what happens to me. But I refuse to be reduced by it”. (Posso ser transformada pelo que me acontece. Mas me recuso a ser diminuída por isso), isto é, uma afirmação à soberania moral do sujeito ferido.
A outra: “Nobody, but nobody, can make it out here alone” (“Ninguém, absolutamente ninguém, consegue chegar aqui sozinho.”). Ora, essa desmonta a fantasia moderna da autossuficiência. Assim, ao analisar as duas juntas, a conclusão mais lógica é: a primeira fala da resistência íntima. A segunda fala da dependência humana. O antagonismo está aí. Uma, ergue o indivíduo. A outra o recoloca dentro da comunidade. Juntas, elas condensam uma das tensões mais fortes do século XX entre autonomia e solidariedade.
Essas frases (versos) ganham peso porque Maya Angelou não escreveu de um lugar abstrato. Sua obra nasce do século da segregação racial, das lutas por direitos civis, das memórias do abuso, da pobreza e da recusa em aceitar que a dor privada deva permanecer invisível.
Desta forma, a primeira frase se aproxima de uma ética da dignidade que reconhece o impacto do mundo sobre a pessoa, mas recusa que esse impacto defina seu valor. A segunda, se inscreve numa crítica ao individualismo duro, muito presente nas sociedades urbanas e competitivas do século XX, ao lembrar que ninguém se forma, se salva ou se sustenta sozinho. Conclui-se dessa forma que em Angelou, o humano não é apenas um eu que resiste. É também um corpo histórico que precisa de voz, de memória e de laço.
Vale dizer, ainda, que na obra de Maya Angelou, há uma tensão que ajuda a ler o século XX com mais clareza. De um lado, a frase em que ela admite que os fatos da vida podem mudá-la, mas não reduzí-la. De outro, a afirmação de que ninguém atravessa o mundo sozinho. Entre uma e outra, está um dos grandes impasses da modernidade tardia. O indivíduo quer ser inteiro, mas descobre, cedo ou tarde, que a própria sobrevivência depende dos outros.
É por isso que essas duas frases (versos), embora pareçam opostas, se completam. A primeira impede que o sujeito desapareça dentro da dor. A segunda impede que ele se iluda com a própria suficiência. Em Maya Angelou, resistir e pertencer não são escolhas rivais. São exigências simultâneas para manter sua altitude moral, mas só encontra linguagem, abrigo e continuidade quando reconhece que há uma comunidade em torno de si.
Talvez resida aí a atualidade de Maya Angelou. Num tempo ainda marcado por discursos de força individual e por formas renovadas de exclusão, ela lembra que o ser humano não se esgota nem na autodefesa, nem na dependência. Ele vive no intervalo entre as duas coisas. E é exatamente nesse intervalo, onde a dignidade resiste e a solidariedade sustenta, que sua obra continua falando com uma clareza que o século XXI ainda não conseguiu ultrapassar.
Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln.
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Fontes consultadas: acervo oficial Maya Angelou/Caged Bird Legacy, Poetry Foundation, Smithsonian American Women’s History Museum, National Archives, Encyclopaedia Britannica.
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