
Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, poeta e jornalista.
Se a Lua desaparecesse de repente? Muita coisa poderia mudar. Especialmente no romantismo das poesias inatas. E aí, os poetas teriam dez problemas imediatos. Perderiam o velho atalho do amor, a metáfora da distância; a cumplicidade das madrugadas; o espelho da melancolia; a testemunha das serenatas; o relógio íntimo das fases; o repertório do mar; o pretexto nobre para a insônia; a desculpa clássica para o exagero sentimental; e, por fim, um dos poucos clichês que ainda funcionam quando bem escritos.
Poeticamente tem muito romantismo. Mas, como o homem novamente deu umas voltinhas ao redor de nosso astro, (9 dias, 1 hora e 32 minutos. De 1º a 10 de abril de 2026 e encontraram a Lua no mesminho lugar), a matéria sobre Lua/Astronautas/Astronomia e Poesia, tem certa lógica. Por outro lado, a graça da suposição acaba, astrologicamente, tendo um fundo real. Sem a Lua, as noites seriam mais escuras, as marés continuariam por ação do Sol, mas muito mais fracas, e a estabilidade do eixo terrestre ficaria mais vulnerável em escalas longas. A NOAA explica que as marés resultam da atração conjunta do Sol e da Lua, mas que a Lua é a força dominante. O Institute of Physics resume a consequência de modo direto. Sem ela, as marés seriam mais simples e, sobretudo, mais fracas. Um relatório técnico da NASA acrescenta que a Lua ajuda a manter a obliquidade da Terra numa faixa estreita; sem essa influência, essa variação poderia ser muito maior.
Na literatura foi Byron quem rondou esse abismo. Em Darkness, Byron* leva a imaginação poética a um ponto extremo ao retirar da Terra não apenas a luz, mas também o amparo simbólico da Lua. Quando surge a imagem da Terra lançada ao “ar sem lua”, o que se instala não é só a falta de claridade física, mas um colapso de orientação, consolo e medida humana diante da noite. A Lua, que tantas vezes serve à poesia como companhia, espelho e testemunha, ali já não cumpre nenhuma função. O céu deixa de oferecer qualquer promessa de beleza ou ordem. Byron ronda esse abismo justamente porque percebe que a escuridão total não assusta apenas os olhos. Ela ameaça também a imaginação, a memória e a própria ideia de permanência do mundo.
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(*)George Gordon Byron, 6.º Barão Byron, conhecido como Lorde Byron, foi um poeta britânico e uma das figuras mais influentes do romantismo. Entre os seus trabalhos mais conhecidos estão os extensos poemas narrativos Don Juan, A Peregrinação de Childe Harold e o curto poema lírico She Walks in Beauty.
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Por outro lado, há, sim, uma reflexão séria sobre a correlação entre Lua e poesia. Um ensaio da Academy of American Poets (sem dúvida uma fonte real para pesquisas desta editoria), afirma que a Lua é “the very embodiment of lyric poetry”. Ora, chamar a Lua de “a própria encarnação da poesia lírica” significa reconhecer que poucos símbolos atravessaram tanto tempo com tamanha força emocional, íntima e musical. A poesia lírica nasce do que é interior, do que vacila entre desejo, memória, perda, encanto e solidão, e a Lua sempre ofereceu a essa experiência uma forma visível no céu.
Ela muda sem deixar de ser a mesma, ilumina sem dominar, aparece distante, mas parece falar ao íntimo de quem a contempla. Por isso, na tradição poética, a Lua não funciona apenas como paisagem. Ela age como linguagem do sentimento, como imagem capaz de condensar amor, ausência, espera e pensamento numa única presença silenciosa e chega a sugerir que a própria lírica ocidental nasce numa noite enluarada.
No campo acadêmico, Karen ní Mheallaigh mostra que, na tradição greco-romana, a Lua reuniu poesia, filosofia, sátira, ciência e ficção num mesmo arquivo imaginativo. E um estudo de corpus sobre 220 song ci, os chineses concluíram que a imagem lunar é abundante e funciona como veículo de emoções, em especial afetos pessoais e tonalidades mais sombrias do que luminosas.
E por ser a imagem da Lua tão abundante, a editoria pesquisou em inúmeras citações líricas incluindo a Lua e separou 20 citações, às vezes romântica; outras vezes, nem tanto. Vale dizer que em algumas citações, a grafia original foi preservada:
BRASILEIROS
“O que vês, trovador? — Eu vejo a lua” — Álvares de Azevedo, Luar de Verão.
“Azul sem mancha, - a lua equilibrada” — Gonçalves Dias, Tristeza.
“Olha-a o luar com ciúmes...” — Olavo Bilac, O Luar.
“Onde o frouxo luar brinca entre flôres.” — Gonçalves Dias, Leito de Folhas Verdes.
“Quando a lua brilhar num céu sem nuvens” — Casimiro de Abreu, Noivado.
“A lua soltava seus pallidos lumes;” — Fagundes Varela, Elegia.
“Oh Lua voluptuosa e tentadôra,” — Cruz e Sousa, Evocação.
“Fulgúra. A rua é triste. A Lua Cheia” — Augusto dos Anjos, Uma Noite no Cairo.
“A lua amarelada a face embuça;” — Álvares de Azevedo, Solidão.
“Da lua pálida ao fatal clarão.” — Castro Alves, A visão dos mortos.
ESTRANGEIROS
“Swung blind and blackening in the moonless air;” (Balançando, cega e enegrecendo, no ar sem lua;) — Darkness, Lord Byron.
“Art thou pale for weariness” (Estás pálida de cansaço) — To the Moon, Percy Bysshe Shelley.
“The Moon is distant from the Sea –” (A Lua está distante do Mar –) — The Moon is distant from the Sea – (387), Emily Dickinson.
“The moon has a face like the clock in the hall;” (A lua tem um rosto como o relógio no salão;) — The Moon, Robert Louis Stevenson.
“The Moon shone white and alive and plain.” (A Lua brilhava branca, viva e nítida.) — The Wind and the Moon, George Macdonald.
“The Moon, how definite its orb!” (A Lua, quão definido é o seu orbe!) — Fragment 6: The Moon, how definite its orb!, Samuel Taylor Coleridge.
“Late, late yestreen I saw the new Moon,” (Tarde, bem tarde, ontem à noite vi a Lua nova,) — Dejection: An Ode, Samuel Taylor Coleridge.
“Ask me no more: the moon may draw the sea;” (Nada mais me perguntes: a lua pode puxar o mar;) — from The Princess: Ask me no more, Alfred, Lord Tennyson.
“Beneath the comfortless cold moon;” (Sob a lua fria e sem consolo;) — A Daughter of Eve, Christina Rossetti.
“The silver apples of the moon,” (As maçãs de prata da lua,) — The Song of Wandering Aengus, William Butler Yeats.
Destarte, a hipótese de um céu sem Lua parece engraçada apenas até a primeira linha bem pensada. Depois disso, ela revela um vazio maior do que o da paisagem. Revela a perda de uma linguagem antiga, de um pacto silencioso entre a noite e a imaginação humana. Sem a Lua, o planeta seguiria seu curso, ainda que mais pobre em marés, em brilho e em orientação simbólica. Já o poeta teria de reinventar a própria falta, procurar em outras frestas do mundo a claridade que durante séculos encontrou suspensa no alto. Talvez sobrevivesse. Poeta quase sempre sobrevive. Mas escreveria com a sensação de que o céu, de repente, deixou de responder.
Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, poeta e jornalista.
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