EXCLUSIVO: Por Dra. Flora Guilhonm, orientadora ocupacional, England, United Kingdom, correspondente da Plataforma Nacional do Facetubes.
Aqui na Inglaterra, na última reunião de pais e filhos que participei em uma escola “secondary school”, de 11 a 16 anos, ouvi boas palestras sobre uso de substâncias ilícitas (e lícita, como o álcool-altamente destrutivo). Mas uma das palestras veio de um conhecido músico inglês que tem um filho na mesma escola. E ele interpretou de forma brilhante a música “Hotel California/Eagles” que exemplifica a luta de quem entra nas drogas pela porta mais fácil: a maconha. E depois, dificilmente sai do uso porque mergulhou fundo em outras substâncias mais pesadas.
Porém, quem a ouve despretenciosamente, à primeira vista parece apenas a história de um viajante numa estrada escura do deserto. Ele vê luzes ao longe, encontra um hotel elegante, é recebido por uma atmosfera sedutora e acredita ter chegado a um lugar de descanso. Mas, pouco a pouco, a beleza do cenário começa a revelar outra coisa. O conforto vira labirinto. O luxo perde o brilho. A hospitalidade se transforma em captura.
Mas a força da canção está exatamente nesse deslocamento. O hotel não precisa existir no mapa. Ele existe como símbolo. Pode ser uma vida construída para impressionar. Pode ser uma carreira sustentada apenas pela aparência. Pode ser uma relação social baseada em consumo, vaidade e necessidade de aprovação. Pode ser, ainda, aquela rotina em que a pessoa sorri por fora, mas já não consegue reconhecer o próprio rosto por dentro. Aliás, incluo aqui um poemeto de Mhario Lincoln que vem a calhar com parte dessa música: ”Tem pessoas que deixam você viva/ Para nos matar por dentro”.
Como orientadora ocupacional, assim, vejo nessa música uma advertência sobre os ambientes que escolhemos habitar. Não apenas ambientes físicos, como casa, trabalho ou cidade ou de uso de substâncias ilegais. Refiro-me também aos ambientes mentais. Há pessoas que fazem check-in em padrões de vida que pareciam prometer liberdade, mas acabam exigindo delas uma permanência cruel. Entram pela porta do prestígio, do prazer rápido, da aceitação social, da ambição sem repouso. Depois descobrem que sair é mais difícil do que entrar.
O verso mais lembrado da canção, em tradução livre, diz que é possível encerrar a conta quando se quiser, mas não necessariamente partir. Esse é o ponto decisivo! Muitas prisões modernas não têm grades. Elas se parecem com festas, vitrines, cargos, convites, aplausos e fotografias bem enquadradas. O perigo está no fascínio. Ninguém obriga o sujeito a entrar. Mas, uma vez dentro, ele pode se afastar lentamente do que era, até confundir identidade com personagem.
“Hotel California” permanece porque fala de uma perda muito comum: a perda de si mesmo. Há pessoas que não adoecem por falta de oportunidades, mas pelo excesso de papéis que aceitaram representar. Trabalham para sustentar uma imagem. Consomem para preencher um vazio. Aceitam ambientes que as diminuem porque têm medo de perder o lugar conquistado. Confundem movimento com avanço, agenda cheia com sentido, visibilidade com presença.
A canção, portanto, não é apenas uma peça clássica do rock. É uma parábola sobre escolhas ocupacionais, emocionais e espirituais. Ela pergunta, sem didatismo, em que tipo de hotel estamos vivendo. Pergunta se nossas rotinas ainda nos pertencem. Pergunta se aquilo que chamamos de sucesso não está, silenciosamente, cobrando um preço alto demais.
Sair desse hotel simbólico exige mais do que vontade. Exige lucidez. Exige revisar vínculos, hábitos, ambientes, desejos e dependências. Exige perguntar se a vida que se exibe é a mesma vida que se suporta. Exige ter Fé. Porque o verdadeiro perigo não está no brilho do lugar. Está em permanecer nele depois que a alma já percebeu a ausência de saída.
Trad. livre: Mhario Lincoln.
VÍDEO-BÔNUS
Eagles/Hotel California
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