
EDITORIAL: Por Helena Bennett* (FACETUBES NY/Hipergiro).
“Justiça seria perguntar por que a fome ainda precisa entrar pela porta dos fundos da venda e sair pela porta lateral da viatura”. HB
Estava eu navegando pela whats em um grupo de amigos brasileiros, quando deparei-me com um vídeo que trazia uma cena, pelo menos, reflexiva. Mas foi como se eu recebesse uma pancada no peito. Um homem comum, desempregado, tentava furtar um litro de leite e duas bananas numa venda de esquina, em São Paulo. Não havia violência. Não havia arma. Não havia ameaça. Havia fome, ou algo muito perto dela. Havia também vergonha, cansaço, raiva e uma frase que ficou maior do que o boletim de ocorrência.
“Mano, pode me fichar. Porque essa vida está uma m..., está um c..., todo mundo querendo subir nas costas do outro para ficar maior, não existe mais solidariedade, nem respeito. É cada um com a po...de se dar bem, roubando milhões do INSS e o resto que se f....”, disse o homem aos soldados que o tentavam prender.
Chocada. Porém, não escrevo para absolver o furto. Furto é furto. A lei não pode ser dissolvida pela emoção de uma cena. Quem furta um tostão, diz o velho provérbio, pode furtar um milhão. A frase tem sua razão moral, porque uma sociedade sem limite vira mercado da esperteza. Mas também é verdade que uma sociedade que olha para duas bananas e um litro de leite como se estivesse diante de um assalto ao banco já perdeu parte da medida humana.
O que me feriu naquela imagem não foi apenas o gesto do homem. Foi a distância entre o tamanho da fome e o tamanho da resposta. A algema, o camburão, o constrangimento público, o corpo simples sendo conduzido como espetáculo de correção. A lei estava ali. Mas a pergunta que me veio foi outra. A justiça também estava?
A frase atribuída a Albert Einstein diz que há duas maneiras de viver a vida. Uma é acreditar que não existem milagres. A outra é acreditar que tudo é milagre. Lida de forma ligeira, ela parece frase de calendário. Lida diante de um homem tentando levar leite e bananas, ela muda de peso. O milagre não é fechar os olhos ao erro. O milagre seria uma sociedade conseguir punir sem humilhar, corrigir sem esmagar, aplicar a lei sem esquecer que a miséria também produz seus tribunais.
O estoicismo não manda passar a mão na cabeça de ninguém. Epicteto ensinava que algumas coisas dependem de nós e outras não. Depende de nós não furtar. Depende de nós não transformar a dor em desculpa automática. Mas nem sempre depende de um desempregado encontrar trabalho, controlar o preço do alimento, vencer a fila invisível das oportunidades, suportar a humilhação diária e ainda conservar a alma limpa como documento carimbado.
É nesse ponto que a filosofia fica séria. O estoico não é o homem frio. É o homem que tenta distinguir culpa, necessidade, impulso, contexto e responsabilidade. Ele não chama desespero de virtude. Mas também não chama pobreza de defeito moral. Marco Aurélio falava em dirigir o presente conforme a justiça. Justiça, para mim, naquele vídeo, não seria fingir que nada aconteceu. Justiça seria perguntar por que a fome ainda precisa entrar pela porta dos fundos da venda e sair pela porta lateral da viatura.
O ódio social nasce muitas vezes assim. Não nasce apenas no criminoso. Nasce no olhar de quem filma com gosto. Nasce no comentário que pede cadeia antes de pedir explicação. Nasce na pressa de esmagar o pequeno erro do pequeno homem, enquanto erros maiores, cometidos de terno, de gabinete ou de planilha, costumam viajar em primeira classe na linguagem da burocracia.
Assim, o princípio da insignificância, quando discutido nos tribunais, existe justamente porque nem toda lesão material tem o mesmo peso social, moral e jurídico. Por isso, a frase do homem desempregado não pode ser lida apenas como palavrão. Ela é um diagnóstico bruto. “Todo mundo querendo subir nas costas do outro para ficar maior.” Aí está uma crítica social dita sem biblioteca. Ele falou de competição, ressentimento, abandono, humilhação e sobrevivência. Falou errado, talvez. Mas falou a partir do chão. E o chão, quando fala, raramente pede licença à gramática.
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*Helena Bennett é jornalista e colunista internacional da Plataforma do Facetubes, com base em N.York (EUA).
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