
Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes c/Leonardo Magalhaens
Foto do porco inflável no céu da fábrica: A imagem funciona como síntese visual do disco: um porco suspenso sobre uma fábrica, entre céu industrial e poder simbólico.
A aproximação entre A Revolução dos Bichos, de George Orwell, e Animals, do Pink Floyd, é correta, desde que feita com precisão. O disco de 1977 não é uma adaptação linear do livro. É uma transposição conceitual. O próprio site oficial do Pink Floyd registra que as músicas Sheep e Dogs nasceram dentro de um conceito ampliado por Roger Waters, “inspirado” em Animal Farm, de Orwell. O álbum saiu em janeiro de 1977, produzido pelo próprio Pink Floyd, com faixas organizadas em torno de Pigs on the Wing, Dogs, Pigs (Three Different Ones) e Sheep.
No livro, Orwell transforma a Revolução Russa e a traição stalinista em fábula política. Os animais expulsam o homem da fazenda, prometem igualdade, mas logo veem os porcos assumirem o poder, mudarem as regras e criarem uma opressão semelhante ou pior que a anterior. Assim, Animal Farm, publicado em 1945, é uma sátira antiutópica da Revolução Russa de 1917 e da traição de seus ideais por Joseph Stalin.
Roger Waters desloca essa matriz. Sai a granja como alegoria do totalitarismo soviético. Entra a sociedade britânica dos anos 70, marcada por crise econômica, tensão trabalhista, desencanto político e disputa por sobrevivência social. A House of Lords Library (de quem obtivemos as mais fortes informações para esta matéria), descreve a década de 1970 no Reino Unido como período de “stagflation”, com estagnação econômica, inflação alta, desemprego em elevação e tensões industriais. A inflação britânica chegou a 24,2% em 1975; os dias de trabalho perdidos em greves passaram de 2,8 milhões em 1967 para 23,9 milhões em 1972; entre 1972 e 1974, o preço do petróleo quadruplicou.
É nesse ambiente que Animals encontra sua força. Os porcos, no disco, não são apenas os dirigentes de uma revolução traída. Eles representam a elite que manda, calcula, controla e se protege. São políticos, moralistas, autoridades e manipuladores do discurso público. Em Pigs (Three Different Ones), o porco não aparece como caricatura engraçada. Aparece como figura de comando, capaz de sorrir enquanto transforma o poder em sistema.
Os cães são outra camada. Em Orwell, os cães são instrumentos de repressão de Napoleão, o porco que representa Stalin. No Pink Floyd, os cães ganham uma leitura mais ampla. São executivos, operadores do sistema, homens treinados para farejar vantagem, atacar concorrentes, obedecer aos porcos e acreditar que estão no comando. O drama de Dogs está nisso. O cão corre, vence, devora, mas também envelhece preso à lógica que ajudou a defender.
As ovelhas completam o triângulo. Em Orwell, o rebanho simboliza a massa vulnerável à propaganda. No Pink Floyd, as ovelhas continuam representando obediência, alienação e medo, mas a canção muda o desfecho. Elas se rebelam. A massa que parecia condenada ao silêncio descobre a força do número. A diferença é central. Orwell escreve sobre uma revolução sequestrada pelo poder. Waters escreve sobre uma sociedade em que todos parecem animalizados pela engrenagem.
A capa reforça a leitura. O porco inflável sobre a Battersea Power Station tornou-se uma das imagens mais conhecidas da história do rock. Durante as sessões de foto para Animals, o porco cheio de hélio se soltou sobre a usina e chegou a causar cancelamento de voos ao passar perto de Heathrow, segundo registro do The Guardian. A imagem funciona como síntese visual do disco: um porco suspenso sobre uma fábrica, entre céu industrial e poder simbólico.
Há, porém, uma fresta afetiva no álbum. Pigs on the Wing, dividida em duas partes, abre e fecha o disco como uma pequena canção de cuidado em meio ao diagnóstico social. Depois de cães, porcos e ovelhas, Waters deixa uma ideia simples: sem algum vínculo humano, todos acabam expostos ao vento. É uma nota íntima dentro de uma obra amarga.
A correspondência entre Orwell e Pink Floyd, portanto, não está apenas nos animais. Está na pergunta sobre o poder. Quem manda? Quem obedece? Quem ataca para subir? Quem aceita o curral por medo? Orwell respondeu olhando para o stalinismo. Pink Floyd respondeu olhando para a Inglaterra capitalista dos anos 70. Em ambos, a metáfora animal revela o ponto mais incômodo: a sociedade só parece civilizada enquanto suas regras não são vistas de perto.
No vídeo que acompanha esta publicação, o crítico Leonardo de Magalhães, por sua vez, amplia esse caminho ao aproximar discos e literatura. Sua leitura ajuda a recolocar o LP dentro de uma tradição em que a música popular não serve apenas ao entretenimento. Ela também lê livros, interpreta épocas e devolve ao público uma forma de pensar. Animals, nesse sentido, permanece como um disco que escuta Orwell, mas responde com o ruído de seu próprio tempo.
VÍDEO-BÔNUS
(Leonardo Magalhaens)
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