
Capítulo 46
Do Livro: “Finalmente a Noiva Chegou"
Edomir Martins de Oliveira é vice-Presidente Nacional da APB
O CASAMENTO DA PERDA DAS ALIANÇAS
Eram um casalzinho lindo de pajem e daminha rumo ao altar, entrando logo após os padrinhos, anunciando a entrada da noiva. Ele conduzia uma cestinha de vime com uma almofada em seu interior bem visível mostrando as alianças presas por um laço. A daminha, muito graciosa, entrou com um lindo buquê de flores, adequado para sua estatura e idade.
Era o casamento de um casal apaixonado, cuja cerimônia e festa foram planejadas nos mínimos detalhes ao longo dos últimos doze meses. Tudo seria perfeito!! As mães dos noivos ajudaram muito, pois eram senhoras finas e de muito bom gosto. Tudo foi escolhido com muito requinte e elegância.
A entrada da noiva foi triunfal, estava linda e radiante, acompanhada por emocionante música tocada por uma orquestra maravilhosa destacando-se os violinos, piano e sax. Lágrimas de emoção rolavam pela face de muitos familiares e amigos, inclusive pela face do noivo que não conseguiu segurar a emoção ao ver a sua amada tão deslumbrante.
O Padre, procedendo a sua homilia e entregando uma mensagem aos noivos, preliminarmente, disse que tivessem sempre em mente a necessidade de uma vida conjugal harmoniosa, leal, com respeito mútuo. Lembrou-lhes que o casamento fora instituído por Deus e que por isso deveriam amar-se nas alegrias e nas doenças a que estamos sujeitos.
Que eles não se esquecessem que estavam casando autorizados pelas leis Divinas, que exigem fidelidade recíproca, e também nas leis do País, que advertem os noivos para um bom comportamento social.
Em que pese a inspiração do padre com as suas belas palavras e as músicas maravilhosas que tocavam os corações dos presentes, a cerimônia estava bastante longa e, por conseguinte, o pajem e a daminha já estavam entediados, o que é próprio dos seus respectivos oito e sete anos.
E assim, o pajem virou-se para daminha e disse: - Você sabia que se eu desatar esse laço das alianças eu faço um mais bonito ainda? - E eis que prontamente a daminha diz: - Eu duvido. - Com essa resposta, o estrago estava selado. Imediatamente o laço foi desfeito e o que eles não imaginavam é que as alianças pulariam para fora da almofada e rolariam pelo chão. A cara de desespero deles foi notável e começaram a chorar. Os padrinhos que estavam próximos foram até eles para saber do que se tratava e quando eles explicaram aos prantos a arte que tinham feito, o pânico tomou conta.
Um padrinho foi imediatamente até o cerimonial, explicou o fato e pediu a máxima discrição na procura das alianças para não comprometer a bela cerimônia em andamento. Mas esse foi o maior desafio que esse tão renomado cerimonial havia recebido, pois as alianças poderiam ter rolado para muito longe e a igreja estava cheia de convidados. E pela previsão do elegante caderno da missa, eles teriam somente uns dez minutos para achá-las. Uma missão quase impossível.
Imediatamente, várias pessoas começaram a se abaixar e procurar as alianças. Os convidados estavam achando aquilo meio esquisito, mas preferiram se concentrar na belíssima cerimônia. Os noivos não tinham a menor noção do que estava acontecendo. E eis que, de repente, uma moça que se encontrava abaixada, membro da expedição à procura das alianças, saiu correndo desesperada para fora da Igreja, chorando muito, pois havia se deparado com duas imensas baratas e ela sofria de catsaridafobia (medo de baratas). O seu choro era convulsivo, incontrolável e, assim, a expedição teve três baixas, a dela própria e de mais dois colegas que foram a seu auxílio, pois ela estava passando com um forte ataque de pânico com sensação de desmaio.
A chefe do cerimonial, vendo a impossibilidade de cumprir a missão, resolveu trabalhar em cima de um plano B. Foi até a mãe da noiva, explicou o fato e pediu a sua aliança emprestada bem como a do seu marido, pois mesmo que ficassem folgadas nos dedos dos noivos, era melhor do que não ter nada. Fariam dessa forma apenas para cumprir o ritual, momento tão sublime em um casamento; e quando a Igreja estivesse vazia tentariam encontrá-las e, em último caso, novas alianças teriam que ser compradas.
Discretamente, os pais retiraram as suas alianças dos dedos e imediatamente a chefe do cerimonial, com muita maestria, foi até o pajem e refez o laço dando-lhe uma reprimenda.
O tempo parecia ter sido cronometrado. Tão logo o pajem se refazia da reprimenda, sabendo que fora bem merecida, o padre pediu que lhe fossem trazidas as alianças para que pudesse impor as mãos sobre elas e simbolicamente as abençoasse desejando-lhes felicidades na vida matrimonial que estavam iniciando. Ao entregar as alianças o pajem, devidamente orientado, pediu para dizer um segredo no ouvido do noivo: - As alianças vão ficar folgadas e são diferentes das suas, mas depois eu juro que vou lhe entregar as verdadeiras. Avisa a noiva para ela não estranhar. - Quem diria!... O noivo não tinha outra opção a não ser fazer o que fora solicitado pelo pequeno. Todos acharam engraçado o pajem dizendo um segredo ao noivo e a grande maioria nem imaginava do que se tratava. Os noivos não entenderam nada, mas enfrentaram a situação com discrição e elegância. O padre, além das belas palavras padronizadas para esse momento, encerrou citando I Coríntios 16: 14: “Que tudo o que vocês fizerem seja feito com amor”. E os noivos da mesma forma, após citarem as tradicionais palavras para esse bonito momento, declararam um ao outro o Cantares 6:3: “Eu sou do meu amado (a) e o meu (minha) amado (a) é meu (minha)” ...
Encerrada a cerimônia, os noivos souberam o que realmente houvera acontecido. Claro que não ficaram nada satisfeitos. Mas quando estavam quase entrando no carro, de mãos fechadas para não cair a alianças folgadas dos pais, viram o pajem, a daminha e uma cerimonialista correndo até eles para lhes comunicar, cheios de felicidade, que haviam encontrado as alianças. Os noivos entregaram as alianças dos pais à cerimonialista. As crianças abraçaram os noivos, choraram de alegria e pediram perdão. Os noivos estavam tão felizes que entenderam a peraltice própria das crianças e adoraram ver as suas alianças verdadeiras em seus dedos. O mesmo ocorreu com os pais da noiva que estavam inquietos com seus dedos anelares da mão esquerda vazios, que o Cerimonial devolveu também, agradecendo.
A colaboradora do cerimonial que enfrentou a crise de pânico pela fobia de barata que tinha, já recuperada, foi pedir ao padre que providenciasse a dedetização da Igreja, ao que este explicou que estava mesmo vencido o prazo e perguntou logo se ela não gostaria de contribuir, pois o caixa da igreja estava muito baixo, o que ela comunicou ao pai da noiva.
O cerimonial aumentou mais ainda a sua reputação por ter conseguido contornar com tanta excelência uma situação como aquela. O pai da noiva, quando soube das baratas na Igreja, fez uma boa doação ao padre para que aquilo não mais se repetisse. Enfim, no final tudo deu certo. A recepção foi primorosa e todos estavam muito felizes, e o casamento da perda das alianças, como ficou conhecido, foi um retumbante SUCESSO!!!
Mín. 13° Máx. 20°