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Exclusivo: mais um capítulo de "As Cores do Swing", escrito por Augusto Pellegrini

Especial.

04/08/2021 às 19h47 Atualizada em 11/08/2021 às 11h23
Por: Mhario Lincoln Fonte: Augusto Pellegrini
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Capítulo 4 – A lógica do absurdo – Parte 1

AUGUSTO PELLEGRINI

Pode parecer estranho que um fenômeno alegre e contagiante como a explosão das big bands nos Estados Unidos tenha se dado durante a inquietante década de 1930, um período bastante conturbado tanto dentro das fronteiras americanas como em quase todo o mundo, especialmente na Europa.

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A Depressão acontecida no final da década anterior havia trazido reflexos absolutamente negativos na economia mundial, pois com a quebra da Bolsa de Nova York, as Bolsas das grandes capitais europeias como Londres, Paris, Roma e Berlim também sofreram impactos atordoantes.

            Os Estados Unidos enfrentavam a mais terrível recessão doméstica da sua história. Esta recessão iria perdurar até 1939, exatamente quando a intervenção nazista na Europa Central, nascida com a invasão da Polônia, faria eclodir a mais violenta conflagração mundial da história, envolvendo os cinco continentes.

Antissemitismo.

Durante a década de 1930, o panorama econômico na maioria dos países não era diferente da situação vivida pelos Estados Unidos. Na Europa, o fascismo e o nacionalismo exacerbado cresciam, muito em função de governos fracos e de economias arrasadas, enquanto a fome e o desemprego recrudesciam. A inflação havia chegado a níveis aterradores. A Alemanha se encontrava no olho do furacão de um processo de autodestruição política, econômica e social.

Um pão, que custava pouco mais de meio marco em 1918, chegou a custar 100 bilhões de marcos em 1923! A guerra civil espanhola, as perseguições políticas feitas pelo regime comunista de Stalin, os sonhos de Mussolini em restaurar o Império Romano no norte da África e a mistura de loucura e sede de poder de Hitler eram os ingredientes explosivos que faziam da Europa um barril de pólvora.

Hitler estimulou a invasão das regiões fronteiriças da Alemanha apoiado nas "necessidades" das minorias germânicas que ocupavam territórios da Polônia, da Checoslováquia e de outros países do leste europeu, o que compôs um quadro desanimador que fatalmente levaria o mundo a uma violência sem precedentes.

Os americanos, desde o término da Primeira Guerra, se arvoravam em ser os líderes do chamado "mundo livre e democrático" e eram frontalmente contrários à ideia fascista, contra a qual em breve se poriam em armas. Eles tinham, no entanto, um problema social doméstico que não conseguiam – ou não queriam – resolver: as diferenças raciais.

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Segregação racial.

Assim, chega a parecer uma piada de mau gosto que o todo-poderoso Capitão América, personagem de história em quadrinhos criado por Joe Simon e Jack Kirby em 1941 para exaltar as qualidades morais do povo americano e declarar uma guerra paralela ao nazi-fascismo e a outras práticas hediondas, não percebesse a ignomínia que se desenrolava dentro de seu próprio território, como a discriminação racial que impedia brancos e negros de frequentarem os mesmos lugares e de terem os mesmos direitos civis.

Afinal, a batalha que os americanos travavam contra a política expansionista de Hitler não se limitava a questões territoriais. Dentro da luta para preservar a liberdade dos povos havia uma linha de pensamento muito clara que condenava a prática do racismo nazista imposta contra judeus, eslavos, asiáticos e negros, considerados pelos arianos como "raças impuras" (além de ciganos, deficientes e homossexuais).

Na verdade, por detrás desta simplória justificativa social que usava o racismo como motivo, tanto nos Estados Unidos como na Alemanha nazista existia toda uma complexa rede de circunstâncias denunciando a necessidade explícita de dominação daqueles que estavam no comando da situação. Os brancos – na América – e a "raça ariana" – na Alemanha – queriam continuar mantendo a sua reserva de domínio conquistada ao longo do tempo, ameaçada por minorias que para eles estavam se transformando "perigosamente" em maioria.

 Negros, crioulos e brancos na mesma orquestra.

Os brancos não eram, tradicionalmente, "os donos" da América, que fora habitada havia séculos pelos índios de diversas tribos que tinham em comum suas práticas nativas e a sua pele avermelhada.

Estes índios haviam sido pouco a pouco dizimados, sem nunca terem chegado a ser uma ameaça urbana, nem mesmo na época das épicas batalhas travadas contra os intrépidos batalhões da cavalaria do exército. O establishment conseguira confiná-los em localidades específicas e rigidamente delimitadas, as quais chamaram de reservas indígenas, e nas primeiras décadas do século vinte o conformismo que se abateu sobre as tribos outrora valentes e agressivas – Cherokees, Apaches, Comanches, Cheyennes, Sioux, Navajos, e tantas outras – mostrou que o problema estava sob controle.

Mas os negros foram chegando e crescendo, confinados em guetos, é certo, mas se espalhando devagar sem necessidade de travar batalhas. Desde o início do século dezessete até as últimas décadas do século dezoito chegaram da África milhões de escravos que aos poucos foram incorporando a sua cultura aos costumes locais. Com o fim da escravidão em 1863, os negros, agora legítimos cidadãos americanos, foram se multiplicando, até que no início do século vinte começaram a incomodar o conservadorismo dos antigos senhores, pois as cidades economicamente mais importantes do país já contavam com uma crescente população negra. Em apenas dez anos, de 1910 a 1920, por exemplo, a população negra de Chicago havia dobrado.

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Os negros estavam ocupando cada vez mais espaço e a situação começava a alarmar os brancos, que viam nesse crescimento um grande risco de perderem poder, território, força de trabalho e, consequentemente, riqueza.

 

Video Bônus: negros e brancos na mesma banda - Jack Teagarden e Louis Armstrong 

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