
As Cores do Swing
Livro de Augusto Pellegrini
Capítulo 8 – O Lindy Hop – Parte 3
Voltando aos anos 1930, podemos dizer então que o swing se firmava não apenas como música, mas também como dança, e que o novo estilo representava “a América em movimento” naquilo que ela podia oferecer de melhor – música e alegria.
A dança – e aqui o movimento não se restringia apenas aos grupos ensaiados, mas também ao público que assistia aos shows – teve uma importância capital na história do swing, e por sua causa o Harlem foi denominado por alguns historiadores como “a pátria do swing”, sendo o Cotton Club e o Savoy Ballroom com certeza os seus pontos de maior referência.
Nessas casas as orquestras travavam verdadeiras batalhas, entre elas as melhores – Duke Ellington, Cab Calloway, Fletcher Henderson, Jimmie Lunceford, Count Basie, Benny Goodman e Chick Webb – dentro de um maravilhoso espetáculo de som, luz, cores, coreografia e... dança.
No Cotton Club os shows artísticos eram mais organizados e ensaiados, incluindo grupos de patinadores que vez por outra invadiam a pista para demonstrar suas habilidades ao som do swing. No Savoy a coreografia podia até ser razoavelmente previsível com respeito aos dançarinos profissionais, mas o público fazia da alegria desorganizada a sua grande frente de batalha. Os shows eram deslumbrantes, e misturavam uma música quente com uma dança mais quente ainda.
Nascidos da febre do lindy hop, os dançarinos do swing se espalharam por toda Nova York, e depois por todo o país e até pela Europa, constituindo-se numa marca muito forte da nova música americana.
Aqueles que dançavam tentavam imitar os lindy hoppers de diversos grupos – quaisquer que fossem os seus nomes – ou criar novos passos e novas coreografias, resultando numa dança espontânea e incrivelmente diversificada.
Apesar de o swing ser multicultural, o lindy hop, assim como o jazz, teve a sua origem no negro. Não foi a formação cultural dos brancos que propiciou o nascimento do jazz, pois isto aconteceu principalmente em função do blues originado no canto e no lamento do negro. Apesar da freneticidade e do modismo do charleston, inventado pelo branco, foi a origem histórica do blues que permitiu a inventividade da ginga e do jive, criados com naturalidade e sem grandes restrições de ordem social, coisas bem próprias do negro que, paradoxalmente, não era livre (pois costumava sofrer restrições de toda espécie), mas se sentia livre para fazer artisticamente aquilo que bem entendesse.
Muitos homens e mulheres se destacaram na dança do lindy hop e construíram as suas vidas através desta dança. Muitos deles formaram seus próprios grupos e se deslocaram pelo país, ensinando como desenvolver o novo passo e abrilhantando salões de baile em todos os recantos com suas exibições.
Quase todos os pioneiros do lindy hop eram autodidatas, pois praticamente aprenderam a dançar nas ruas do Harlem, muitos deles em frente aos salões onde as orquestras se apresentavam ou ensaiavam, de onde o som da música irradiava para as calçadas.
Alguns puritanos torciam o nariz e condenavam a dança porque sentiam um certo ar de lascívia no comportamento dos casais – os homens requebravam de uma forma pouco recomendável para o bom-mocismo da época e as mulheres rodavam suas saias e seus vestidos largos, saltando com as pernas para cima sem estarem trajando roupas de baixo adequadas para permitir tais piruetas.
Com o passar do tempo, elas começaram a usar uma espécie de short, o que não era lá menos indecoroso – não podemos esquecer que estávamos em plena década de 1930 – mas dava pra quebrar o galho com a “censura”.
Muitos destes hoppers amadores acabavam sendo convidados por empresários e donos de clubes para ingressar em grupos de dança profissionais, contratados por salários relativamente baixos, se considerarmos a quantidade de dinheiro que circulava no mundo do show business.
É claro que, muito ou pouco, eles geralmente aceitavam o que lhes era oferecido, levando em conta que quase todos estavam desempregados e que a vida financeira do país ainda não havia conseguido se endireitar, apesar da gestão progressista do presidente Roosevelt.
Com o passar do tempo, porém, os rendimentos dos dançarinos começaram a ser corrigidos em função do seu talento, na medida em que os clientes, os band leaders e a concorrência passaram a exigir mais qualidade coreográfica.
Muitos dançarinos eram legalmente casados e formavam pares estáveis, apresentando-se regularmente em festas, salões e teatros.
Entre os dançarinos mais famosos de lindy hop podemos mencionar os pioneiros “Twistmouth” George Ganaway e Leroy “Stretch” Jones, e também Tiny Bunch & Dorothy “Dot” Johnson, Lawrence “Lolly” Wise & Lílian Arnold, Billy Ricker & Willa Mae Ricker, Maxie Dorf & Mary McCaslin, Frieda Washington, Naomi Waller, Ann Johnson, Sandra Gibson, George Grenidge, Al Minns e Mildred Pollard, além do californiano Ray Randazzle, que dançava e dirigia o grupo Ray Rand Dancers.
Havia também a dançarina Louise “Mama Lu” Parks, líder do grupo The Lindy Hopper Champion’s Champion, que permaneceu participando das noitadas do Savoy Balroom até o seu fechamento em 1958, e o fantástico Leon James, campeão de concursos no Savoy e um dos dançarinos do filme “A Day At The Races”, dos irmãos Marx.
De todos os lindy hoppers, porém, dois dançarinos acabaram fazendo parte da história e se destacaram pela criatividade ímpar, pelo respeito conquistado pelas suas apresentações, pela perfeição dos seus passos e pelo carisma imposto junto à crítica e público: são eles Frankie “Musclehead” Manning e Norma Miller.
Video Bonus - Youtube - Cena do filme A Day At The Races - Grouxo Marx
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