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Em homenagem ao aniversário de nascimento do autor, Mhario Lincoln resenha "Cem Anos de Solidão"

06 de março de 1927 - Uma homenagem ao aniversário de nascimento do autor Gabriel José García Márquez

06/03/2022 às 16h42 Atualizada em 06/03/2022 às 23h15
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln
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A capa do livro
A capa do livro

CEM ANOS DE SOLIDÃO, 55 ANOS DEPOIS...

(6 de março de 1927 - Uma homenagem ao aniversário de nascimento do autor Gabriel José García Márquez, que depois se transformaria em Gabo para os amigos e admiradores).

*Mhario Lincoln com pesquisas.

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“Cem Anos de Solidão”, neste 2022, já se vão praticamente 55 anos que foi publicado. E o que se dizer do colombiano Gabriel García Márquez?  Sem dúvida que é um dos maiores contadores de histórias da América Latina, junto com outro monstro sagrado do realismo fantástico. O inesquecível D. Quixote de La Mancha, ou melhor, Miguel de Cervantes Saavedra (Alcalá de Henares, 29 de setembro de 1547 – Madrid, 22 de abril de 1616), outro romancista, dramaturgo e poeta castelhano. Os dois, sem dúvida, produziram suas obras sob angustiante insight da solidão.

Garcia Márquez - segundo li em alguns críticos literários especializados nessa obra específica - trabalhou essa solidão em cima da própria família - os Márquez/Buendía. Eu vou mais além. Trabalhou a solidão como um todo indomesticável da América Latina. Márquez já dizia: "Há completa solidão na América Latina". Solidão de antolhos citado pelo autor de “Cem Anos de Solidão”, em discurso feito no ato do recebimento do seu Prêmio Nobel de Literatura, em 1982, pelo conjunto de sua obra, integrando uma lista de quatro latino-americanos e o primeiro colombiano a receber essa honraria.

Ilustrou ele: “O general Antonio López de Santana, que foi três vezes ditador do México, mandou enterrar com funerais magníficos a perna direita que perdeu na chamada Guerra dos Bolos. O general García Mo­reno governou o Equador durante dezesseis anos como monarca absoluto, e seu cadáver foi velado com seu uniforme de gala e sua couraça de condecorações, sentado na poltrona presidencial. O general Maximiliano Hernández Martínez, o déspota teósofo de El Salvador que fez exterminar numa matança bárbara 30 mil camponeses, tinha inventado um pêndulo para averiguar se os alimentos estavam envenenados, e mandou cobrir de papel vermelho a iluminação pública para combater uma epidemia de escarlatina.”(Dá medo, não?).

Em meio a toda essa turbulência histórica, Gabriel García Márquez construiu seu romance como um maestro sinfônico, regendo uma melodia quase ilógica com começo, meio e final, todavia, toda ela, em praticamente três movimentos em um só: largo, andante e adagio, sim, um enredo lento e triste, integrando-o a seus personagens surreais (como em D. Quixote), e ligando-os a guerras sem o mínimo de finalidades, em cenário muito aquém do que crescia no Mundo lá de fora, e além do litoral daquelas bandas, cuja busca foi incessante, sem antes parar e ver crescer a pequena Macondo. Ao ler, também me transportei para aquele mundo sombrio e até mesmo me indaguei: "O que eu diria se anos depois estivesse, eu, diante de um pelotão de fuzilamento?"

O fato indelevelmente acaba induzindo o leitor a uma viagem, seguindo a narrativo de Márquez, repleta de construções fantásticas, usando o solo fértil da fantasia para plantar realidades doídas. Mas só faz isso quem tem o poder da arte. Isso é arte pura!

Mas, que ninguém pense que é 'apenas criação pura do imaginário gabrieliano'. Nunca! Ninguém pode chegar a escrever uma peça grandiosa dessas, sem base lítero-social. Tanto que García Márquez leu demais e vivenciou muitos de seus escritos na obra, queimando a sola dos pés, em diversas partes do mundo. Sofreu influência direta do tcheco Franz Kafka. Aqui, aproveito para lembrar uma frase que tinha em cima de minha mesa de trabalho na redação dos jornais, para os quais prestei serviços em mais de 45 anos de profissão:  'Talvez haja apenas um pecado capital: a impaciência. Devido à impaciência, fomos expulsos do Paraíso; devido à impaciência, não podemos voltar...'. Nunca esqueci.

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Não só Kafka. Márquez, também, foi influenciado pela linguagem do norte-americano William Faulkner, esse autor inimaginável, usuário da técnica do fluxo de consciência (a mesma consagrada por James Joyce, Virginia Woolf, Marcel Proust e Thomas Mann). Com essa extraordinária técnica, Faulkner contou, com sapiência, a morte literal do sul dos Estados Unidos, interiorizando-a em seus personagens passando por situações desesperadoras, numa também imaginária cidade; a de Faulkner, era o condado de Yoknapatawpha. Gabriel García Márquez também leu e recebeu influência do mexicano Juan Rulfo. É dele, a novela 'Pedro Páramo’, responsável pelo ponto de virada da literatura mexicana.

“Cem Anos de Solidão” também foi um ponto de virada da literatura mundial. E nessa virada, o autor nos dá uma grandiosa lição de como utilizar seu pequeno mundo (Macondo imaginária é quase a mesma Aracataca, sua cidade natal), para construir uma obra indiscutivelmente universal, com temperos apimentados de surrealismo. Abaixo seguem dois trechos fortes, os quais envolvem sexo com adolescente e com pessoas consanguíneas. Fazem parte desse enredo. Porém, a alguém, devem ter agredido. Todavia, García Márquez, especialmente no segundo trecho, dá uma aula de sensualidade, sem se expressar de forma explícita e presenteando o leitor (coisa rara hoje em dia) com a oportunidade de construir sua própria imagem do que está acontecendo naquele momento.

Tais espectros, aparentam certa repulsa, sem dúvida. Mas integra uma das maiores obras literárias dos últimos 2 séculos:

Trecho 01: “Vem cá, você também — disse ela [a prostituta] — São só vinte centavos. Aureliano jogou uma moeda na caixinha que a matrona tinha nas pernas e entrou no quarto sem saber para quê. A mulata adolescente, com suas tetinhas de cadela, estava nua na cama. Antes de Aureliano, naquela noite sessenta e três homens tinham passado pelo quarto”.

Trecho 02:

"(...)". Aqui, os personagens citados são Aureliano Buendía, sua tia Amaranta Úrsula e Gastón seu esposo: “Eram quatro e meia da tarde quando Amaranta Úrsula saiu do banho. Aureliano a viu passar diante do seu quarto, com um robe de pregas delicadas e uma toalha na cabeça como um turbante. Seguiu-a quase na ponta dos pés, cambaleando da bebedeira, e entrou no quarto nupcial no momento em que ela abria o robe e o tornava a fechar espantada. Fez um gesto silencioso para o quarto contíguo, cuja porta estava entreaberta, e onde Aureliano sabia que Gastón começava a escrever uma carta.

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– Vá embora – disse sem voz.

Aureliano sorriu, levantou-a pela cintura com as duas mãos, como um vaso de begônias, e jogou-a de frente na cama. Com um puxão brutal, despojou-a do roupão de banho antes que ela tivesse tempo de impedi-lo e se aproximou do abismo de uma nudez recém-lavada que não tinha um matiz de pele, uma região de pelos, um sinal escondido que ele não tivesse imaginado nas trevas de outros quartos. Amaranta Úrsula se defendia sinceramente, com astúcias de fêmea sábia, esquivando o escorregadio e flexível e cheiroso corpo de doninha, enquanto tentava destroncar-lhe os rins com os joelhos e picava-lhe a cara com as unhas, mas sem que ele ou ela emitissem um suspiro que não se pudesse confundir com a respiração de alguém que contemplasse o econômico crepúsculo de abril pela janela aberta. (...)  No fragor do encarniçado e cerimonioso forcejar, Amaranta Úrsula compreendeu que a meticulosidade do seu silêncio era tão irracional que poderia despertar as suspeitas do marido contíguo muito mais do que os estrépitos de guerra que tentavam evitar. Então começou a rir com os lábios fechados, sem renunciar à luta, mas se defendendo com mordidas falsas e desesquivando o corpo pouco a pouco, até que ambos tiveram consciência de ser ao mesmo tempo adversários e cúmplices, e a brigas degenerou numa excitação convencional e as agressões se tornaram carícias. De repente, quase brincando, como uma travessura a mais, Amaranta Úrsula descuidou da defesa e, quando tentou reagir, assustada do que ela mesma tinha feito possível, já era tarde demais. Uma comoção descomunal imobilizou-a no seu centro de gravidade, plantou-a no lugar, e a sua vontade defensiva foi demolida pela ansiedade irresistível de descobrir o que eram os apitos alaranjados e os balões invisíveis que a esperavam do outro lado da morte. Mal teve tempo de esticar a mão e procurar às cegas a toalha e meter uma mordaça entre os dentes, para que não saíssem os gemidos de gata que já estavam rasgando as suas entranhas.”

EPÍLOGO

Para quem ainda não leu e, ainda também, não se apaixonou pela obra, deve aproveitar a dica e lê-la, antes de quaisquer comentários e prejulgamentos impacientes. Lembra da máxima de Kafka que citei acima? ('Talvez haja apenas um pecado capital: a impaciência').

Por outro lado, ainda hoje quando vou fazer qualquer comentário sobre coisas usuais, lembro do cigano Melquíades, personagem igualmente interessante do livro, que ajudou a imortalizar a história dos Buendía. O cigano escreveu num pergaminho sinistro os segredos de todos eles. E somente 100 anos depois a profecia foi desvendada: " (...) as estirpes condenadas a cem anos de solidão não terão uma segunda chance sobre a terra”.

Essa é a chave-mor de todas as gerações dessa família. Então, conclui-se...

Capa.

UM OUTRO GABRIEL

Quando Gabriel García Márquez escrevia ‘Cem Anos de Solidão’, nos anos sessenta, disse que um dos momentos mais difíceis aconteceu no dia em que datilografou a morte do memorável coronel Aureliano Buendía. Gabo saiu de seu estúdio na casa onde morava na Cidade do México, procurou sua esposa Mercedes em um quarto e anunciou desconsolado: “Matei o coronel”. “Ela sabia o que isso significava para ele e permaneceram juntos em silêncio com a triste notícia”, lembra seu filho, Rodrigo García, sobre o luto que seus pais viveram. Agora é ele, Rodrigo, que digita seu próprio luto com um novo livro para se despedir dos pais: ‘Gabo y Mercedes: Una Despedida’.⁠

Este doce adeus, publicado pela Random House na Colômbia e na Espanha [ainda sem edição no Brasil], é a nova homenagem que Rodrigo, diretor de cinema, presta ao Nobel que morreu em 2014 e à mãe, Mercedes Barcha, que morreu em agosto do ano passado. “Meu pai reclamava que uma das coisas que mais odiava na morte era o fato de ser a única faceta de sua vida sobre a qual não poderia escrever”, anota Rodrigo, que mescla a narração dos últimos dias de seus pais com as mortes que Gabo escreveu.⁠

*Mhario Lincoln é Jornalista e Presidente da Academia Poética Brasileira.

 

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EDOMIR MARTINS DE OLIVEIRAHá 4 anos São Luís"Cem anos de Solidão" já o li duas vezes e ao terminar sempre acabo sentindo que me pareceu que fugiu algo ao meu entendimento. Obrigado Mhario Lincoln por esta resenha. Bela homenagem.
Rogerio RochaHá 4 anos São Luís - MAUm escritor que muito orgulha a América Latina.
Luciah Lopez Há 4 anos Campina Grande do SulDepois dessa resenha urge a necessidade de uma nova leitura de Cem Anos de Solidão. Você, Mhario Lincoln, tem esse dom de nos instigar a novas interpretações, novas vivências. Abraços
Marcio LimaHá 4 anos GuarapariMemorável. Rápida. Curta e objetiva.
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