
Filmes fortes que fizeram muitos espectadores se mexerem desconfortáveis nas cadeiras de cinema da época. Dois exemplos mostram as décadas de 60/70.
Original de: EL PAÍS/BRASIL. IANKO LÓPEZ
Persona (1966), de Ingmar Bergman
O filme que foi um ponto de inflexão na carreira de Bergman, mas também na história do cinema. O argumento é simples: a renomada atriz Elisabeth Vogler perdeu a fala como consequência de uma crise nervosa e está confinada em sua casa de campo com uma jovem e ingênua enfermeira chamada Alma. As duas mulheres iniciarão um processo de mútua transferência de personalidades repleto de ecos vampíricos e psicanalíticos.
Tudo no filme é ousadíssimo, das decisões formais até o desenvolvimento da trama. Mas há uma cena que na época deve ter incomodado bastante e que hoje ainda pode levantar uma sobrancelha ou outra. Depois de tomar algumas doses, Alma confessa a Elisabeth que em um verão traiu o namorado fazendo uma orgia ao ar livre com outra garota e dois rapazes, e depois de ter engravidado, abortou. A crueza de sua linguagem (palavras como “ejacular” ou “aborto” simplesmente não eram pronunciadas no cinema comercial na época) criava um trauma no espectador, que dessa maneira estabelecia uma empata com o próprio trauma da narradora. É claro que na primeira sequência do filme Bergman já havia inserido um plano subliminar de um pênis em ereção, outra coisa para a qual as pessoas que então pagavam um ingresso de cinema não pornográfico não estavam preparadas.
Sopro no Coração (1971), de Louis Malle
O incesto é um dos grandes tabus que ainda restam. Louis Malle dizia que quando começou a escrever este filme autobiográfico sua intenção não era que a mãe e o filho adolescente acabassem se deitando juntos, mas tudo levava a isso, e é claro que teve de sucumbir ao ditado de sua própria narração. Ah, o fantástico clichê dos personagens que têm vida própria, o quão batido pode chegar a ser. E principalmente o quão ilustrativo é aqui sobre certas fantasias pouco confessáveis do homem heterossexual. Talvez o aspecto mais marcante deste caso não seja a relação mãe-filho (que também foi pintada, com tons mais sombrios, em La Luna de Bertolucci e Minha Mãe de Christophe Honoré), mas a leveza com que é retratada. A mãe, cheia de sabedoria, apesar de sua juventude —e, principalmente, apesar de ter acabado de cometer o que pode ser considerada uma grave imprudência—, tenta aliviar a consciência do filho dizendo a ele que não deve ter remorso pelo encontro sexual que acabam de compartilhar. Ele não deixa que o conselho entre por um ouvido e saia pelo outro, e faz o que se espera dele: se deita com outra mulher, porque a mancha de uma amora se remove com outra verde.
Para ler a íntegra: https://brasil.elpais.com/cultura/2020-05-17/como-se-atreveram-a-rodar-estes-12-filmes-que-quebraram-todas-as-regras-nos-anos-30.html
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