
Coluna: O CORDEL BRASILEIRO
*Esmeralda Costa
NOSSO EDITORIAL DE HOJE
Trata-se de uma manifestação literária popular que expressa grande riqueza artística e cultural. A Literatura de Cordel, chegou ao Brasil por meio dos colonizadores portugueses, adentrando inicialmente os grandes centros do país, as chamadas cidades fortificadas como São Paulo e Rio de Janeiro, mas foi na região Nordeste que ela fixou-se com intensidade e ganhou autonomia e identidade.
Em Portugal o Cordel era cantado pelos trovadores que narravam feitos da elite, histórias dos reis, rainhas e outros nobres para as demais camadas populares, através de uma linguagem acessível a todos.
Aqui no Brasil, a literatura de cordel popularizou-se por meio dos repentistas e/ou violeiros, que muito se assemelham aos trovadores medievais por contarem uma história musicada e rimada, popularizando assim os poemas que depois passaram a ser também impressos em folhetos. Conforme documentos, Leandro Gomes de Barros foi o primeiro brasileiro a escrever cordéis, produzindo cerca de 240 obras campeãs de vendas. Seus cordéis são muito populares em todo o território brasileiro e principalmente no Nordeste.
João Martins de Athayde é outro nome importante que também se destacou na primeira geração do Cordel no Brasil.
Principais características do Cordel
O Cordel conta com métrica e rimas que fazem a musicalidade dos versos. Ao mesmo tempo também faz-se necessária a oração ou sequência lógica da história que é conduzida por um fio ou cordão, daí provém o nome Cordel. Este nome é oriundo principalmente da corda ou cordão onde os cordelistas penduravam os cordéis nas feiras livres onde os mesmos declamavam e comercializavam.
A linguagem que marca o cordel brasileiro na sua originalidade é simples, informal e com fortes traços da linguagem matuta e regional. Isto se dá pelo fato que o Cordel conquistou principalmente as pessoas mais humildes, gente que em sua grande maioria não tinha conhecimento formal da língua. Outros, mesmo sendo conhecedores da linguagem padrão, adoravam este estilo poético que expressa a arte e a cultura do povo.
O Cordel é uma forma de resistência para o folclore da região, uma vez que que o gênero trata dos costumes locais e fortalece as identidades regionais.
As xilogravuras ilustram a capa e/ou as páginas dos poemas. Trata-se de uma técnica muito usada na literatura de cordel pois, uma vez que a matriz do desenho é feita, é possível imprimir os desenhos várias vezes..
Principais cordelistas brasileiros
Os autores da literatura de cordel são chamados "cordelistas". De acordo com pesquisas, existem no Brasil cerca de 4 000 artistas em atividade. Eis alguns nomes que se destacam na Literatura de Cordel brasileira: Apolônio Alves dos Santos, Cego Aderaldo, Cuica de Santo Amaro, Guaipuan Vieira, Firmino Teixeira do Amaral, João Ferreira de Lima, João Martins de Athayde, Manoel Monteiro, Leandro Gomes de Barros,, José Alves Sobrinho Homero do Rego Barros, Patativa do Assaré (Antônio Gonçalves da Silva), Téo Azevedo, Gonçalo Ferreira da Silva, Arievaldo Viana e João de Cristo Rei.
Cordelistas Contemporâneos
Diversos Cordelistas vêm colaborando de forma significativa para que o cordel seja cada vez mais reconhecido e valorizado. Dentre eles podemos citar: Gonçalo Ferreira da Silva, Paola Tôrres, Antonio Ribeiro da Conceição (Bule-Bule), Josenir Lacerda, Geraldo Amâncio, Gerardo Pardal, Stélio Torquato, Pedro Sampaio, Ivonete Morais, Marcos Silva, Pádua de Queiroz, Charles Melo, Lucas Carneiro, Ana Maria Nascimento, João Rodrigues, Samya Abreu, Francine Maria, Dalva Moreira, Artemiza Correia,Francinilto Almeida, Sandreilson Moreira, Kênia Diógenes, Rosário Lustosa, Diógenes Pereira, Abelardo Nogueira, Luiz Ademar, Ocione Soares, Stélio Torquato, João Teles, Zé Mutuca e tantos outros. A temática do Cordel é bastante ampla e brevemente estaremos divulgando notícias do mundo do Cordel, biografias de cordelistas Contemporâneos que muito têm contribuído com seus trabalhos e temas neste universo que começou nas cordinhas das feiras e hoje chegou às universidades e é patrimônio imaterial e cultural do Brasil, reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em setembro de 2018. Saudações Cordelísticas a todos!
Esmeralda Costa, na VídeosTV do FACETUBES
CORDELIZANDO
* O Incrível do nosso Cordel brasileiro é que ele cabe em qualquer gênero. Veja esta: "O Pequeno Príncipe", uma obra clássica, acaba de ganhar versão em cordel. O texto segue a simplicidade, beleza emesma alegria do cordel, com ilustrações alusivas à cultura nordestina. Esse novo livro foi finalista do Prêmio Jabuti, em 2016, e agora estende o alcance para mais públicos. Detalhe da ilustração da capa: o personagem traz o chapéu do cangaço, as vestes do maracatu, a pele amorenada e os cabelos amarelados, típicos dos meninos da zona da mata de Pernambuco. Genial!
* Muito interessante o movimento de mulheres cordelistas na defesa dos direitos famininos. A cordelista sergipana Izabel Nascimento ministrou recentemente palestra com esse tema, no III Encontro de Cordelistas da Paraíba. O tema foi “O cordel como ferramenta de transformação social”. A artista fez um recorte histórico para denunciar o traço forte do machismo que também ocorre nesse gênero literário.
* Reconhecida como patrimônio imaterial do Brasil, a Literatura de Cordel recebeu um espaço exclusivo na Biblioteca Central da Universidade de Fortaleza (Unifor) para armazenamento e catalogação de títulos desse gênero. Essa instituição é a primeira a ter uma "Cordelteca" na Capital. O espaço é também o primeiro do País a catalogar os títulos com a mesma deferência de qualquer outra obra literária, preservando informações básicas como autor, assunto e ano de publicação. Grande iniciativa, sem dúvida.
* Para quem não sabia, aí vai uma notícia muito interessante. Mesmo que ainda tenha sido divulgada em julho do ano passado: a médica e cordelista Paola Tôrres tomou posse na Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC). Ela é, inclusive, professora de Medicina da Universidade de Fortaleza e da Universidade Federal do Ceará. Paola é a primeira mulher a estar no cargo em 32 anos de fundação da agremiação.
* Os versos da cearense Auritha Tabajara estão prestes a morar na maior biblioteca do mundo. De Ipueiras (a 300 quilômetros de Fortaleza) a Washington, D.C, nos EUA, a primeira mulher indígena a publicar livros em cordel no Brasil terá a trajetória literária preservada e reconhecida pela instituição Library of Congress (Biblioteca do Congresso). A obra “Coração na aldeia, pés no mundo” (2018), com xilogravuras de Regina Drozina, e os folhetos “A sagrada pedra encantada” (2019) e “Diário de uma índia nordestina” (2019) foram doados pela autora, na última quarta-feira (8), para compor o acervo internacional. Daqui, parabéns. Valem muitos aplausos!
LANÇAMENTOS DO MÊS
"Cordelistas Contemporâneos", coletânea 2022, é uma obra que contou com a organização do poeta e escritor Zeca Pereira de Barreiras-BA e foi publicada pela Nordestina Editora. Participam da obra 49 poetas cordelistas de 11 estados, distribuídos em cinco regiões brasileiras. São 13 mulheres e 36 homens. A participação maior foi de três estados nordestinos. Em primeiro lugar a Bahia com 14 participantes, em segundo o Ceará com 10 e em terceiro o Pernambuco com 9 participantes. Isso mostra que o Nordeste continua sendo o maior propagador da Literatura de Cordel. A antologia apresenta-se de forma cativante, trazendo informações biográficas e um Cordel de cada autor.
CORDELISTA CONVIDADO
Abelardo Nogueira
Natural de Aracoiaba/Ceará, Abelardo esteve em diversos estados brasileiros e regiões de fronteiras, como Peru e Colômbia, apresentando seu trabalho como músico e literário. Por meio de suas obras, ele resgata a cultura e costumes do seu povo.Entre os trabalhos mais recentes estão " Poetizando sonhos", publicado pelo Instituto de Estudos e Pesquisas sobre o Desenvolvimento do Estado do Ceará (Inesp), e "Brixia Brasil in versi", publicado na Itália e lançado em Fortaleza.
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(*) ESMERALDA COSTA é professora, poetisa, cordelista, escritora e cerimonialista. Ama Deus, a vida, família e bons livros! Estudou Pós-graduação em Língua Portuguesa na instituição de ensino Universidade Regional do Cariri - URCA. Estudou Licenciatura em Letras Português na instituição de ensino Univesidade Estadual do Piaui-UESPI. Mora em Campos Sales, Ceara, Brasil.
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