
APRENDENDO COM AS CRIANÇAS
Edomir Martins de Oliveira, vice-Presidente Nacional da ACADEMIA POÉTICA BRASILEIRA - APB
-“Moço, - ouvi uma voz infantil a me chamar: - por favor, desenhe uma linha para mim, daquela que minha mãe faz costura” - disse-me a criança.
O meu pensamento voou para “O Pequeno Príncipe” onde Exupéry conta que uma vozinha pedia: “Por favor ... desenha-me um carneiro”.
Confesso que fiquei em apuros. Não sei desenhar absolutamente nada. Aliás, se eu dependesse de desenho, mal daria para sobreviver; e acredito mesmo que teria sido muito malsucedido.
Mas, era uma criança pedindo meigamente: “desenhe uma linha para mim”.
Fiz um esforço sobre-humano. Tracei um rabisco meio torto, com o lápis na folha de papel que a menina exibia e ela feliz me disse: obrigada.
-“Era isto mesmo que eu queria”-, confessou para meu espanto.
E virando-se a criança para a mãe, acrescentou:
- “Mãe essa é a linha que você usa nas suas costuras? ”
É impressionante como o olhar puro de uma criança vê as coisas do seu desejo e, mais do que isso, como que entendendo as limitações dos seus semelhantes, ainda se dá por satisfeita com o que lhe foi entregue como objeto daquilo que solicitara, ficando ainda muito agradecida e feliz.
Era mais um dia comum na vida de advogado.
O episódio aconteceu quando estava a visitar a 6ª. Vara Cível da Capital, em busca de notícias de alguns processos aos cuidados do meu escritório, quando escutei novamente a voz da criança, talvez de uns seis (6) anos de idade, que me dizia:
-“Moço, eu também vou ser advogada quando crescer. Toda vez que minha mãe vem a esta casa eu faço questão de vir com ela. Não entendo bem dessas coisas, mas parece que eu nasci para isto. Gosto de ouvir as palavras Direito e Justiça. Na escola, faço meus deveres escolares, escuto as aulas da professora e recebo seus elogios.
Isso é Direito e Justiça? ”
Segurando sua tenra mãozinha, a senhora dizia para a criança:
-Não perturbe o advogado, minha filha, deixe ele examinar o processo que tem em mãos-.
Eu, concentrado na criança, feliz da vida por aquela interrupção, respondi:
-Não tem importância, senhora, deixe a criança externar seus nobres pensamentos.
A criança olhou-me com profundo amor e me disse:
-Muito obrigada.
Aproveitando essa oportunidade, eu disse para a criança: O Direito e a Justiça caminham sempre de mãos dadas, pois enquanto o Advogado sai em busca do Direito em defesa dos interesses dos seus clientes, o Juiz, zeloso, atentamente a tudo analisa para aplicar a Justiça.
A criança disse que eu desculpasse, mas que ela pouco havia entendido. Procurei ser o mais didático possível para falar em palavras que ela pudesse entender. E ao final ela me disse com muita alegria: - “muito obrigada”.
Verdade é que Direito e Justiça caminham de tal forma juntos, que a sociedade jamais viveria tranquila se não tivesse os seus direitos respeitados.
Tinha razão a criança.
Na sua inocência, sem saber fazer a distinção, tinha ela um direito: o de fazer seus deveres e escutar as lições ministradas. A justiça estava sendo aplicada quando a professora fazia elogios ao seu aproveitamento e comportamento escolar. E isso gerou na criança um estímulo.
Ela, na sua inocência, não entendia onde começava seu direito e até onde se estendia a justiça.
Mas, a sua sensibilidade de criança, sentia que havia algo muito para aprender.
A sua genitora, por seu turno, mostrando-se sensível ao diálogo da filha, concluiu: - essa menina se apaixona muito fácil, pelas coisas que lhe interessam.
Diz-nos o escritor Mhario Lincoln em seu livro “Guia do Extraordinário Poético no Twiter” que “para os apaixonados, a menor distância entre dois pontos não é uma reta, mas o coração”.
Com certeza foi essa reta do coração que me aproximou daquela menina.
Encantou-me o seu modo carinhoso de aproximação inocente e deu-me um belo exemplo de iniciação de diálogo.
Eu, atento a lição de Jesus Cristo sobre “deixai vir a mim as criancinhas”, disse à mãe que a sua criança era muito bem-vinda, e aceitei aquela nova amizade, guardando-a no recôndito do meu coração.
Mín. 13° Máx. 20°