
Edomir Martins de Oliveira é vice-Presidente Nacional da Academia Poética Brasileira - APB
UM ACONTECIMENTO DE SAO JOÃO
Ainda hoje, penso do mesmo modo de outrora. Sempre entendi que um profissional, vivendo das suas atividades, deve exercê-las com amor e dedicação, colocando em primeiro lugar não os honorários, mas o que a Lei permite fazer em favor do cliente. Os honorários serão uma consequência do exercício profissional.
Havia explodido uma indesejável pandemia, que em pouco tempo espalhou-se por todo o mundo. Os cientistas, imediatamente, começaram a trabalhar pela descoberta de uma vacina que pudesse imunizar imediatamente a todos.
As autoridades sanitárias, por sua vez, entenderam que como providências preliminares a população deveria passar a usar máscara facial que minimizasse o contágio da doença, e, determinaram a suspensão de festas, onde houvesse aglomeração. Estas foram liberadas aos poucos, depois de dois anos.
Havendo a pandemia diminuído a intensidade, as autoridades decidiram, dar ao povo um pouco de liberdade. Então, as festividades populares, tais como Carnaval, Festejos de São João, Campos de Futebol, Teatro e outras mais, onde havia sempre muita aglomeração foi flexibilizado, embora continuasse mantida, as exigências do uso das máscaras.
Vários dançantes das festas juninas, como quadrilhas e brincantes de bumba-meu-boi e outras danças, se deslocaram do interior do Estado para a Capital, puderam fazer suas exibições, e receberem os aplausos do povo. Todos tomando as cautelas exigidas pelas autoridades sanitárias.
Quando tomei conhecimento de que um ˜Boi de Matraca˜ de determinado município iria se apresentar, resolvi assistir a sua apresentação, pois me lembrei do meu relacionamento com muitas pessoas daquele município, inclusive com o prefeito à época.
Eis que, de repente, alguém me tocando em um ombro cumprimentou-me com um boa noite e perguntou se eu dele me lembrava. Uma consulta rápida em minha mente trouxe a minha lembrança e também dele me lembrei Tratava-se de um prefeito que eu houvera atendido para prestação de serviço jurídico.
Ele, então, começou a clarear mais a minha memória, lembrando-me que eu impetrara um pedido de Habeas Corpus em seu favor, com resultado positivo. Disse-me que não me pagara os honorários por falta de oportunidade, pois quando ele me procurara eu houvera viajado. Mas a divida ele nunca esquecera e queria pagar-me agora, em valor atualizado. Então, eu disse-lhe que tinham decorridos tantos anos que nem me lembrava do valor contratado. Eu já estava bem pago pela gentileza de sua lembrança e nada quis receber .
Disse-me que quando vinha à capital, coincidia não me encontrar, porque eu estava viajando a trabalho, segundo a informação que recebia.
Causava-lhe espanto eu nunca lhe ter mandado cobrar, o que o levava a ficar cada vez mais envergonhado, acreditando que um dia haveria de encontrar-me, pois ensina um adágio popular de "que até as pedras se encontram" ele haveria de encontrar-me também.
Agora, conversando com um sobrinho, este lhe disse que houvera sido estagiário do meu escritório e havia aprendido muito comigo. Teceu algumas considerações que muito me envaideceram. Trouxe o jovem advogado à minha mesa e conversamos em um encontro muito alegre. Lembrei-me do tempo em que o jovem era um estagiário interessado e estudioso, por isso mesmo que a vida lhe reservaria muito sucesso.
O jovem advogado lembrou-me que a preciosa liçãosobre o amor à profissão e o que o escritório poderia fazer pelo cliente, o acompanhou sempre, e que honorários viriam como uma consequência do trabalho realizado.
Contudo, como todo profissional deve proceder, para resguardo de direitos recíprocos, sempre preguei que fosse
feito um contrato especificando o serviço a ser executado e os honorários ajustados, esclarecendo no contrato se esses honorários seriam só em primeira instância. Em caso de haver recurso para uma segunda instância deveriam ser ajustados novos honorários.
O amor e dedicação ao trabalho executado ao cliente, agora apresentava os resultados pecuniários.
Foi, então, que o cliente amigo voltou ao assunto de que as informações do seu sobrinho levavam a ver que por tudo isso, agora mais do que nunca, deveria ter encontrado um modo de me localizar. Estava envergonhado. Ainda uma vez voltei a dizer-lhe que a alegria dos bons resultados pelo serviço prestado tinha sido o meu pagamento, e eu estava muito feliz.
Eis o resultado de um contrato de serviços profissionais firmado para resguardo de direito das partes. Bem verdade, que o advogado poderia ter cobrado seus honorários em Juízo. Era questão ganha. Mas a demora do resultado final, desestimulou o profissional. Esses casos são tão raros de acontecer que era melhor tratar de situações de outros clientes. No presente caso, não foram pagos honorários, porém ficou mais um amigo.
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