
Augusto Pellegrini
O maestro parecia um touro ensandecido, e quase pôs a porta abaixo com um safanão de balançar as estruturas ao adentrar o largo camarim com a força de um furacão.
Absolutamente transtornado, ele partiu na direção do jovem trompetista que fazia no momento algum comentário alegre com um companheiro da orquestra enquanto guardava o seu instrumento no estojo.
O clima era festivo, como sempre ocorria depois das apresentações bem sucedidas. Os músicos tiravam o paletó e afrouxavam o colarinho em meio a alguns goles de água e uma bicada na garrafinha de uísque comunitária – “para relaxar”, diziam eles.
A orquestra dera mais uma demonstração do seu poderio, e o público mais uma vez atribuíra nota dez para o trabalho executado pelo grupo, que misturava o seu repertório de swing com muita dança, um canto alegre e uma boa dose de diversão.
Mas o maestro estava profundamente indignado.
Alguém tentara fazê-lo de palhaço atirando bolas de papel molhado nas suas costas enquanto ele agradecia os fartos aplausos. E ele sabia que o engraçadinho fora aquele trompetista jovem e insolente que queria aparecer mais do que ele.
Dirigiu-se ao subalterno e, dedo em riste, desandou a chamá-lo de moleque e a exigir respeito, pois que “ele não era da sua laia”.
O trompetista teve uma reação no mínimo inusitada. Apesar da ameaça iminente, encarou o líder com uma expressão de desdém, olhando fixamente nos seus olhos, inclinou a cabeça para o lado e perguntou candidamente:
“ Whassamatter, boss? Ya’nervous?”
O assim chamado chefe não titubeou e desceu o braço sobre o músico, enquanto os demais circunstantes, surpresos por tão insólita situação, ficaram momentaneamente paralisados.
O rapaz levantou os braços na tentativa de se proteger contra a saraivada de socos que desabavam sobre a sua cabeça como se uma parede de tijolos estivesse ruindo e se afastou celeremente em direção ao balcão em frente ao espelho, adornado por cremes para o cabelo, pentes, cinzeiros cheios de bitucas, copos de café, lenços de papel e algumas partituras espalhadas ao léu.
Quer por falta de condições físicas, quer por respeito ao maestro, quer por medo de receber algum sopapo de graça, os músicos não estavam fazendo muita questão de encarar a confusão, e a coisa se estendeu por alguns segundos, que pareceram horas.
Cansado de apanhar, o trompetista decidiu reagir, transformando o camarim num palco de briga de rua, com socos e pontapés disparados a esmo, ao mesmo tempo em que alguns dos músicos presentes decidiram finalmente se amontoar para tentar conter a fúria de um e o desespero do outro.
De repente, o trompetista vislumbrou um pequeno objeto brilhando no meio da confusão de cremes, pentes e copos de café que estavam espalhados sobre o balcão. Era o canivete que Leroy Maxey usava para apertar parafusos dos elementos da bateria, e que agora serviria bem a propósito. Rápido como um azougue, apanhou a arma e, às cegas, começou a golpear o que parecia ser o seu agressor.
Ferido na coxa, o chefe soltou um berro e deu um pulo pra trás. O sangue começou a se espalhar sobre a calça azul claro, provocando um interessante contraste de cores.
A confusão parou por aí e deu origem ao pânico, logo controlado pela perícia de um dos rapazes que possuía uma razoável noção de primeiros socorros.
A paz foi conseguida graças à gravidade do problema e à intervenção de Jonah Jones e Milt Hinton, dois dos mais respeitados músicos da orquestra, que de pronto assumiram a responsabilidade pelo episódio das bolinhas que tanto havia desagradado o maestro.
Tal qual um leão ferido, e humilhado por se ver subitamente sem calças diante dos seus comandados, com uma toalha molhada amarrada próximo ao joelho pelo esperto enfermeiro ocasional para estancar o sangue, o chefe demitiu o trompetista no ato, mesmo sem ele ter tido qualquer culpa no cartório.
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