
PRIMEIRO ATO:
*Mhario Lincoln
Como era o nosso Mundo nos anos 80? A maldade das pessoas nos anos 80? Como se comportavam as pessoas "de bem", diante de fatos ou gente fora do quadrado? Os hippies (ainda), os alcoólatras, os ateus, os indigentes? O que mudou de lá pra cá, quando vivemos a euforia da virtualidade, da inteligência artificial, do amor (mais) livre, da desnecessidade de cursos superiores, da diminuição brutal dos livros físicos, da falta do abraço amigo, das guerras mentais e da sucumbência da verdadeira liberdade de expressão e pensar? Será que estamos reeditando o pavoroso mundo de Truman? Essas, algumas inquietações que me passam pela cabeça no alto de meus 69 anos.
Mas, que tal se compararmos o modus vivendi do "ontem", analisando essa história contada por Lopes Bogéa em seu livro "Pedras da Rua"? Alguma diferença contextual ou básica, com pertinência aos dias de hoje? Se der, me ajudem a pensar. Comentem também. Obrigado.
A VACA
Vivia pelas ruas da cidade, uma mulher com um pedaço de pau na mão, resmungando. Seu ponto predileto era a escadaria da Igreja do Carmo, e os motoristas e engraxates viviam a atormentar a pobre da velha: -Ei Vaca, ei vaca!...
A cada "vaca" a nossa personagem mandava aqueles nomes extraídos do dicionário de Bocage. Basta dizer que o mais leve era "aquilo" da mãe, que você já deve ter imaginado. Certo dia, aproximamo-nos da mulher e, com muito tato e jeito, perguntamos se era natural do Maranhão. Resposta ríspida e negativa.
- De onde a senhora é filha?
- De Alcântara.
- Ah! Então, senhora é minha conterrânea, somos maranhenses, dona... como é mesmo o seu nome?
- Maria. - Muito bem, dona Maria. Nome bonito. Mas Maria de quê?
Olha aqui, seu moço, o senhor é padre?
Não, dona Maria, o que eu quero é lhe ajudar. Vou pedir ao Coronel Paiva que mande prender estes moleques que andam por ai te chamando de...
-É de vaca que o senhor quer dizer, não é seu filho da puta?
-Não, dona Maria, respeitamos os mais velhos. Se lhe fizermos uma pergunta a senhora responde?
-Depende da pergunta...
- Pois bem, fique calma e não se zangue. Por que é que lhe chamam deste nome?
O diálogo terminou aí. A velhota não quis mais saber de papo, apanhou o seu inseparável cacete e saiu resmungando.
Conversando depois com o amigo Antônio Castelo, proprietário da Sapataria Castelo, que existia na Rua Grande, ele nos revelou porque Dona Maria fora batizada de "Vaca". Antes de entrar para a vida de esmoler, ela fora amante de um carregador conhecido pela alcunha de Boi.
Ele fazia carretos para a Livraria Universal e pequenos mandados e fazia ponto na escadaria da Igreja do Carmo com sua caixa de carregar mercadorias.
Todos os dias, Maria ia àquele local buscar alguns trocados para a "bóia" e, mesmo depois da morte do "Boi" ficou com aquele hábito. Enquanto o companheiro era vivo ninguém se atrevia a chamá-la por apelido, pois a coisa podia engrossar. Depois que o "Boi" morreu, entretanto, Maria passou a ser chamada "Vaca", para todos os efeitos... Hoje, ela descansa no Campo Santo juntamente com o seu "Boi" e outros azulejos que ali jazem....
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