
Estudos sobre a obra de Ferreira Gullar/ Pedra Angullar
*José Neres
AS MUITAS VOZES DE GULLAR
Ler a obra poética de Ferreira Gullar é uma tarefa ao mesmo tempo prazerosa e instigante. Prazerosa por se tratar de poesia de verdade, na melhor acepção da palavra, cheia de imagens e de soluções linguísticas que estimulam o raciocínio do leitor. Instigante porque, por mais que se leia os poemas de Gullar, jamais se irá chegar ao âmago, à essência poética desse maranhense capaz de criar belíssimas imagens líricas e, ao mesmo tempo, desancar com palavras e formas contundentes a própria noção de poesia, deixando sempre a expectativa sobre o que virá depois.
Ferreira Gullar é o que podemos chamar de escritor visceralmente polifônico, pois sua poética, às vezes funciona como receptor de muitas outras vozes, transformando-as e fazendo-as ressoar como uma força e uma intensidade que possivelmente jamais alcançariam sem o exaustivo trabalho vocabular do poeta.
Desse modo, o leitor, seja ele de que classe social for, sempre encontra na poesia gullariana o som de sua própria voz, ecos dos protestos mortos na garganta e que encontraram finalmente como elemento catalisador, outra voz firme e experiente,
Um breve retrospecto na carreira poética daquele que Vinícius de Moraes considerou "o último grande poeta brasileiro" mostrará que o ecletismo estilístico-temático é uma de suas marcas fundamentais. Partindo de poemas parnasianos em que perseguia a perfeição formal, alcançou em A Lata Corporal, com o poema Rozeiral, o auge de sua experiência linguística e da desconstrução da linguagem, acreditando inclusive que nada mais poderia fazer no campo da poesia.
Depois vieram as experiências vanguardistas com as consequentes tentativas de destruir os conceitos mais elementares da poesia, como a noção de verso e de poema. Após o rompimento com os demais membros do grupo concretista, ele lançou as bases da Poesia Neoconcreta, rompendo, em seguida, com os aspectos vanguardistas.
Insatisfeito, passa a escrever cordéis de cunho social. Para a alegria de alguns desafetos aparentemente chegava ao fim sua carreira de poeta. Além disso, a repressão perseguia-o e o exílio político a cada dia tomara-se mais real.
No entanto, em pleno período de afastamento de sua ter natal surge o poeta em epifania, trazendo à luz sua obra-prima Poema Sujo, um grito de dor e saudade de um exilado que buscava através das palavras, recuperar as próprias origens. O momento histórico e a qualidade do texto transformaram o Poema Sujo em uma espécie de ícone de resistência contra o período ditatorial que se instalou no Brasil. O poeta estava vivo e produzindo para desespero daqueles que se consideravam dono da verdade.
A publicação de poemas, ensaios, peças teatrais, crônicas e contos solidificaram a importância de Ferreira Gullar no cenário cultural brasileiro, transformando-o em um dos maiores poetas e um dos mais respeitados criticos de arte do século XX. E todavia, na arte da poesia que Gullar atinge a maior parte de seu público leitor, popularizando-se através de um produto aparentemente feito para uma elite cultural e conseguindo adeptos e admiradores em todas as camadas sociais.
Como foi dito anteriormente, Ferreira Gullar é um poeta que sintetiza diversas vozes. Pode-se, assim, encontrar em sua produção, ao mesmo tempo, "uma moça branca como a neve" e palavras como diarreia; o sentimento lírico da esperança e a proposta de uma luta de classe; desejo de uma reforma agrária e a dominação do Brasil pelos Estados Unidos; um grito de revolta porque "no Piauí, de cada 100 crianças que nascem 78 morrem antes de completar oito anos de idade" e referências autobiográficas; Olavo Bilac e Clarice Lispector; 1964 e metalinguagem. Tudo fazendo parte de um projeto poético que mistura pares, antagônicos ou não, dependendo das circunstâncias por que passava o autor em seus momentos de produção. Sintomaticamente, um dos últimos livros do poeta recebeu o título de Muitas Vozes. Nele, novamente, temos, lado a lado, versos de forte tom lírico (Visita) e poema-piada (Meu pai), a vida e a morte, o social e o telúrico, o presente e o passado...
Mesmo dizendo em um de seus poemas que "o funcionário público não cabe no poema com seu salário de fome", Gullar deixa transparecer, através de sua obra, que são múltiplas as vozes que compõem sua poesia. Do latifundiário ao pobre lavrador, passando por prostitutas, operários, crianças, estudantes e meros desconhecidos, todos têm direito à exposição de ideias e ao protesto, à vez e à voz, mesmo que muitas vezes "a liberdade seja pequena".
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Artigo publicado no jornal O Estado do Maranhão, 20 de outubro de 1999.
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