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Uma crônica com o exemplo de uma das grandes solidariedades do ser humano nordestino

Autor: Edomir Martins de Oliveira, vice-presidente da Executiva Nacional da Academia Poética Brasileira.

17/01/2023 às 14h56 Atualizada em 20/01/2023 às 17h48
Por: Mhario Lincoln Fonte: Edomir de Oliveira
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O Autor.
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OLHANDO A VIDA COM OS OLHOS DO CORAÇÃO

                       

                    Ele era deficiente visual. Mas o que lhe faltava de visão física, sobrava em grandeza de espírito e amor ao próximo. Por uma dessas infelicidades da vida, perdera a visão   em duas operações malsucedidas a que se submetera. Eu o conheci pessoalmente pelos idos de 1960, quando visitei, pela primeira vez, São João Batista, interior    do    Maranhão, em companhia da hoje minha esposa, Elma Figueiredo de Oliveira que à época, era minha noiva.  Apesar da cegueira, contemplava seu semelhante com os olhos do coração e gostava imensamente de poder fazer um favor.           

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         À época, as estradas eram péssimas. As pontes eram de madeira. O motorista da camioneta avisava quando íamos passar por uma ponte, ocasião em que ele diminuía a velocidade e passava com mais cautela, ao que minha cunhada Francineti, de saudosa memória, que nos acompanhava, dizia: - ”Seja o que Deus quiser”.

Felizmente, chegamos bem. Passamos por campos de paisagens belíssimas, onde a natureza mostrava todos os seus encantos!  Enquanto trafegávamos, jaçanãs, japeçocas, guarás, e outras aves, exibiam seus voos e bela plumagem.

A Cidade era pequena. A comercialização se resumia a pequenas mercearias, que vendiam os produtos da agricultura familiar, básicos para consumo e os que vinham da capital. Era um povo feliz, sempre pronto a fazer o bem ao próximo.

Quando chegamos a casa do casal, Sr. Antônio e Sra. Antônia, avós de minha esposa, dos quais fomos hóspedes, eles nos dispensaram a melhor das atenções. 

-“Seu Dico, vá ali ao quintal e apanhe uma galinha gorda para o almoço”.

E lá ia seu Dico ao galinheiro, apanhava a ave, e entregava ao cozinheiro, que dava o trato especial à penosa, para chegar bem gostosa à mesa da refeição. 

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Assim passamos o dia a ver aves, gado, porcos, cabras, e isso tudo era uma parte do que o casal possuía.

Selo Expertise: + de 2 mil acessos.

Nesse clima de alegria e descanso, foi que vimos o decorrer do dia. O pôr-do-sol, encantador, anunciava que a claridade do dia seria substituída pela escuridão da noite, que nos permitia observar as belezas de miríades de estrelas vendo e das galáxias que na capital não é possível contemplar. À falta de energia elétrica que a Cidade só dispunha até as 22 horas, acendia-se a lamparina e nos recolhíamos para dormir.

Foi nesse momento que ao deitar, forçosamente olhei para cima, e vi uma urna funerária que repousava sobre umas travessas de madeira. Era uma urna bem simples.

        O importante era que se tratava de uma urna mortuária que comportava qualquer defunto. Quer fosse grande, ou pequeno, gordo ou magro. Era um caixão simples, não dispunha de acabamento porque diziam todos que iria ser corroída pelo próprio tempo, pois desceria à tumba e o tempo a corroeria. Esse é o fim de toda urna funerária. Não importa se muito bonita, bem trabalhada, acolchoada e outros tratos especiais.

    Curiosamente, no dia seguinte, perguntei aos familiares o que representava aquela urna, ao que me informaram que era hábito da terra, ter uma urna daquela para atender a alguém da família que morresse, de repente, ou a amigos que precisassem, em virtude de morte inesperada.   

Ressaltaram os informantes que não havia funerária na Cidade que pudesse fazer um caixão rapidamente para atender ao defunto que precisasse. Então, se houvesse um disponível na Cidade, era por hábito essa urna ser emprestada e os familiares que a pediam por empréstimo, depois pagavam, não em espécie, mas com outro caixão. 

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         -“Morreu alguém”? 

         -“Vá à casa do seu Antônio pedir o caixão dele emprestado”.

  Assim, o “caixão de seu Antônio”, foi emprestado durante mais de 20 anos, sempre servindo ao próximo nesse mister. 

Uma urna funerária não era representada pelo valor em espécie que ela representava, mas pela amizade existente entre os amigos que eram atendidos em hora aflitiva e de extrema necessidade.

Se a urna não fosse logo paga por outra igual, dizia a família que a tomara emprestada, viria maldição sobre aqueles que receberam o empréstimo, e logo outra morte sobreviria dentro dela rapidamente, uma lenda...

Por outro lado, a família que fazia o empréstimo recebia sobre si a bênção de viverem seus membros muitos anos, outra lenda! A verdade, é que o “caixão do seu Antônio”, levou 25 anos para que o levasse à campa fria.    

 

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Judith Bogéa Bittencourt Há 3 anos São Luís-MAVenturosa crônica com relatos de empatia e solidários.
João Batista AzevedoHá 3 anos São Luis /MaranhãoCrônica muito aprazível e que nos remete a um tempo que já não existe mais, mas que nos mostra os costumes da sociedade da época. Parabéns!
Vicente Arouche Santos Há 3 anos São Vicente Ferrer MS A sua crônica demonstra a beleza e a leveza dos sábios, ê uma maravilhosa viagem que se faz no tempo. Temos orgulho de convivermos com um escritor diferenciado.
Tania LillyHá 3 anos São LuísLembro perfeitamente da urna. A princípio tínhamos medo. Depois passou a fazer parte da casa, e motivo de amedrontar os mais novos à noite na hora de dormir. Contavam cada uma ... A verdade é que quanto mais vezes emprestada, mais anos vovô Antônio tinha na sua conta com Deus. Obrigada meu querido por essas lembranças de um tempo tão simples e de tanto amor..
Tania LillyHá 3 anos São LuísQue bela crônica meu primo. Me remeteste à minha infância ao lugar que para nós era sagrado: São Benedito. À casa de vovô Antônio e vovô Antonia. As pessoas mais carinhosas e generosas que já conheci. Vovô Antônio, apesar de não ser o nosso avô de sangue, era mais do que se assim o fosse. Nós o adotamos e ele à nós. Não fazia descriminação entre os filhos do seu único filho nosso querido tio Adauto e nós. Éramos todos uma grande família.
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Edomir Martins de Oliveira
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