
Por causa da Recessão, muitos músicos de jazz, principalmente aqueles que relutavam em modernizar as suas criações, foram relegados à mais completa solidão, e sucumbiram diante da falta de renovação e da ausência de público.
É o caso do trompetista King Oliver, figura lendária do jazz tradicional, e do pianista Jelly Roll Morton, o “inventor do jazz”, que se obrigaram a um périplo pelo interior afora buscando reencontrar a sua identidade, mas tiveram que se conformar, em poucos anos, com um fim de carreira precoce.
Oliver vagou pelo sul e ainda conseguiu realizar alguns trabalhos até 1931, quando se aposentou, mudando para a Georgia, onde trabalhou como porteiro e feirante. Morreu em 1938, pobre, doente, desdentado e praticamente anônimo.
Morton se deslocou para o norte e terminou melancolicamente tocando piano em barzinhos de baixa categoria em Washington D.C. Pouco a pouco, ele foi perdendo a saúde, o carro conversível, todo o dinheiro que havia guardado e até o famoso diamante que havia incrustado entre os dentes. Morreu em 1941, vendo o hot jazz em total declínio.
O clarinetista Leon Rapollo, ex-integrante da New Orleans Rhythm Kings também não vislumbrou a oportunidade de reerguer a sua carreira e se perdeu em meio ao cigarro e à bebida falsificada, encerrando seus dias à míngua num hospício, em 1943.
Nem todos os músicos, no entanto, naufragaram.
O pianista Count Basie, por exemplo, foi bafejado pela sorte apesar de ter ficado à pé no meio da estrada, em Oklahoma, quando a banda Blue Devils comandada por Walter Page encerrou repentinamente as suas atividades. Basie não se apavorou e teve a boa ideia de voltar para Kansas City, sua cidade natal, e de se juntar à orquestra de Bennie Moten, que dera um jeito de sobreviver à crise.
Um dos segredos de Moten era tocar em diversos lugarejos nos confins do Kansas, onde a lei federal tinha dificuldade em se fazer cumprir. Outro segredo foi a sua ligação com um tal Tom Pendergast, um gangster que controlava o jogo e a bebida nas casas noturnas do interior, e fazia valer a sua força junto aos prefeitos, juízes e xerifes da região.
Desta forma, Count Basie conseguiu passar ao largo da crise, e quando Bennie Moten morreu em 1935, vítima de uma prosaica operação de amídalas, o pior já havia passado. Aí Basie pode então constituir a sua própria orquestra de nove elementos, a Barons of Rhythm, chamando para compô-la o contrabaixista Walter Page, seu antigo empregador nos Blue Devils, o cantor Jimmy Rushing, amigo de todas as horas, e muitos remanescentes da orquestra de Moten, incluindo o saxofonista Lester Young e o baterista Jo Jones.
Com a recessão, a Broadway e o Harlem começaram a reduzir a quantidade e a luminosidade dos shows, e as orquestras que haviam se multiplicado nos anos que antecederam o swing sofreram modificações radicais. Os espetáculos ficaram mais pobres e com menos atrativos. O público, que lotava os night clubs na época das vacas gordas, diminuíra consideravelmente, pois faltavam dinheiro e ânimo. Com o tempo, o mercado da diversão começou a reagir, mas levaria alguns anos para que aquele clima alegre e descontraído voltasse a imperar.
Entre as diversas histórias envolvendo músicos de jazz e seus problemas, uma das mais emblemáticas é a que diz respeito ao saxofonista e clarinetista Sidney Bechet, um dos grandes nomes do início do século vinte e um dos primeiros jazzistas a divulgar a nova arte no Velho Continente.
Sidney Bechet havia vivido na Europa desde 1925, fazendo grande sucesso na Inglaterra, Alemanha, Rússia e França. Quando morava em Paris, Bechet teve um entrevero com um músico francês que acabou em uma troca de tiros. Como algumas pessoas ficaram feridas no incidente, Bechet foi inicialmente preso por quase um ano, e depois deportado, por ser estrangeiro.
Sem conseguir o desejado visto para entrar na Inglaterra, Bechet teve que se contentar em ir para a Alemanha, então chamada República de Weimar, o que lhe foi permitido sem maiores restrições. Bechet se fixou em Berlim à procura de trabalho e acabou se juntando à orquestra de bailes de um cantor americano chamado Noble Sissle.
Mas as coisas não estavam muito confortáveis na República de Weimar, naquela época. O alto preço pago pela derrota na guerra terminada em 1918 causara muitas baixas no país, e a situação havia piorado ainda mais com a recessão de Wall Street, pois o governo americano, que estava ajudando na reconstrução das cidades e na recuperação da economia germânica, também havia entrado em crise. A inflação alemã assumia números assustadores e o povo enfrentava o pior índice de desemprego de toda a sua história.
Por ter sido derrotada na Primeira Guerra Mundial, a Alemanha tivera que arcar com um pesado ônus em termos de indenizações – coisa de alguns trilhões de dólares a serem pagos para a chamada Tríplice Entente, a união dos países vencedores formada pela Inglaterra, pela França e, na época do fim da guerra, pelo Império Russo – além de outras punições impostas pelo Tratado de Versalhes.
O povo alemão se sentia humilhado, principalmente pelos franceses, e o país perdera toda a soberania, tendo o seu Exército reduzido a um máximo de cem mil homens e a Marinha e Aeronáutica desarticuladas e proibidas de se organizar.
Nesse momento histórico apareceu em cena um certo líder político de nome Adolf Hitler. Carismático e manipulador de massas, Hitler assumiu de pronto uma posição nacionalista, propondo medidas saneadoras com base na valorização do cidadão germânico para salvar o país da derrocada total e devolver-lhe a dignidade. Para tanto, ele havia fundado o Partido Nacional Socialista, popularmente conhecido como Nazista, e conclamava a juventude à sua filiação para fazer da Alemanha novamente um país forte. O partido recebeu mais de seis milhões de votos nas eleições parlamentares, cerca de oitenta por cento do total, e passou a controlar o Reichstag, nome que se dá ao Parlamento Alemão.
A Alemanha fervia como uma panela de pressão e, apesar de saber que a situação dos músicos na América ainda era delicada, Sidney Bechet pressentiu que a coisa poderia se complicar em toda a Europa e, quando Sissle resolveu retornar para os Estados Unidos em 1931, ele não titubeou em voltar junto.
Após passar um pequeno período ainda trabalhando com Sissle, Bechet teve que deixar a música de lado por causa de problemas financeiros e de absoluta falta de melhores oportunidades. Ele ainda sonhava com a retomada do estilo chicago, mas a exemplo de Louis Armstrong, percebeu que os tempos eram outros. Afastou-se então dos palcos e, junto com o amigo e trompetista Tommy Ladnier, abriu uma alfaiataria e engraxataria em Nova York, a qual denominaram Southern Tailor Shop, em homenagem aos bons tempos da Louisiana. A aventura durou apenas dois anos – 1933 e 1934 – quando Bechet reencontrou o caminho da música. Ladnier desapareceu totalmente da cena artística, retornando somente em 1938, um ano antes de morrer, vítima de um fulminante ataque cardíaco.
Mas a música pouco a pouco voltava a ocupar o seu devido e merecido espaço, apesar do país estar ainda juntando os cacos. E o maior aliado dessa recuperação foi exatamente a determinação legal que havia sido criada para desaquecer os ânimos e acalmar o frenesi dos tempos dourados.
Este aliado foi a “Prohibition” – ou seja, a Lei Seca – que, em vigor desde 1920, estranhamente ajudou primeiro a impulsionar o swing e a carreira de muitos músicos, e depois a recolocar as coisas no lugar.
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