
Foto: Antonio Noberto e o francês Jean-Marie Collin fazendo a entrega ao então governador do Maranhão José Reinaldo Tavares, do brasão recém-descoberto de Daniel de la Touche, fundador de São Luís.
*Antonio Noberto
Faz um século que a fundação francesa de São Luís é alvo de criticas por parte de alguns intelectuais defensores da colonização e da causa portuguesa. Nas ultimas décadas, com o declínio do império e do legado francês em todo o mundo, as críticas à herança gaulesa tomou corpo considerável. A acidez das maledicências, no entanto, não são uma maldade pura e simples, mas parte de um rito de destruição das últimas colunas de um império findante para abrir espaço aos reinos sucessores. É por este prisma e fazendo esta leitura superior que a presença francesa no Brasil devem ser observada. É olhando por cima que conseguiremos enxergar melhor e ver o todo, e não o contrário, mirando apenas o específico como alguns fazem. Um dos assuntos levantados nos ultimos dias sobre este tema é se a semelhança entre algumas partes do centro histórico de São Luís do Maranhão e alguns logradouros e casarões de Lisboa não seriam uma prova de que a fundação da capital maranhense seria portuguesa. Tal pensamento é semelhante ao "mico" de perguntar a uma mulher com uns quilinhos a mais se a mesma está grávida de cinco meses. O erro nos remete ao sábio adágio popular que nos adverte que "as aparências enganam" ou ainda: "De longe, toda montanha é azul".
O pós-guerra trouxe um rearranjamento geopolítico e econômico mundial, onde o império europeu saiu enfraquecido com a submissão francesa ao exército de Hitler e ao enfraquecimento econômico britânico. Por outro lado, a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra foi o ponto chave para a ascensão de um novo império mundial. Desde então o que se viu foi o declínio do idioma e da influência francesa em todo o mundo incentivados pela força do nascente império ianque.
Isto posto, é mister analisar aqui no Brasil as transformações dos topônimos observadas nas ultimas décadas, a exemplo da Base Naval do Rifoles, marco inicial do bairro do Alecrim, que nas últimas décadas teve o nome alterado para Base Naval do Natal. Outra descaracterização é a Rua Paris, primeiro logradouro do Brasil setentrional, na cidade de Viçosa do Ceará, onde onde os franceses Charles Des Vaux e Adolphe de Montville fundaram (por volta de 1590) e mantiveram uma espécie de colônia francesa na Serra da Ibiapaba. A rua Paris teve o nome alterado para José Siqueira, restando a rua Pedra Lipse, que da acesso à igrejinha do Céu. O que vem acontecendo no Maranhão é apenas a continuação da dilapidação do legado estrangeiro no Brasil.
As pessoas de conhecimento e boa fé sabem quão grande foi a obra civilizatória dos franceses no Maranhão. A boa convivência e o investimento inicial foi largamente superior às demais fundações portuguesas no Brasil observadas entre os anos mil e quinhentos e e mil e seiscentos, quando a imensa maioria dos marcos fundacionais à época era apenas missas rezadas sob uma árvore ou quando muito fortalezas de pau-à-pique. A herança dos franceses em São Luís, por outro lado, foi algo suficiente e muito superior às fundações portuguesas observadas país a fora.
Sobre a semelhança da arquitetura lusa e ludovicense, engana-se quem confunde fundação (nascimento) com colonização (crescimento). Arquitetura diz respeito ao séculos seguintes ao momento fundacional e não ao século XVII (anos mil e seiscentos).
O que existe do período fundacional de São Luís (1612 a 1650) é muito pouco. De arquitetura não sobrou quase nada (ainda existem as balizas francesas: praça do forte - Praça Pedro II; "fonte de água límpida" - Fonte do Ribeirão, praia do Estaleiro, etc; o traçado espanhol da capital, pelo engenheiro Frias de Mesquita, etc)... No mais, as construções que vemos hoje começaram de 1770 em diante, após o boom econômico advindo com a implantação da Cia de Comércio do Grão Pará e Maranhão. Nada da nossa arquitetura é do período fundacional. Quase tudo é do Século das luzes (XVIII) e do do século do Luxo (XIX). Mas muito antes de tudo isso foram os franceses que desbravaram com sucesso a região ainda nos idos anos mil e quinhentos. Os portugueses até que tentaram, mas sem sucumbiram em naufrágios e nas poucas posses dos donatários das capitanias hereditárias.
Foram os franceses que, no alvorecer dos anos mil e seiscentos puseram o nome na capital tomando emprestado o nome do rei francês Luís XIII e do rei Santo Luís IX.
À vista disto, a arquitetura de São Luís representa a colonização portuguesa. Fato! Mas a escolha do nome e da localização da cidade coube aos súditos de Sua Majestade o Rei francês.
No mais, as críticas descabidas e insistentes à fundação francesa da capital maranhense diz mais respeito às tentativas de destruir definitivamente o que sobrou do império francês e ao desejo da ganância política e econômica de diminuir o as balizas da civilização para empobrecer intelectualmente a sociedade mundial (note que fazem o mesmo com a Atenas brasileira) e, com isto, "comprar" fácil e conquistar sem resistência o que ainda existe de belo e de civilização neste belo mundo nos legado pelo Criador.
A gente se vê!
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*Escritor, membro-fundador e ex-presidente da Academia Ludovicense de Letras - ALL, embaixador da Paz (Organização Mundial dos Defensores dos Direitos Humanos - OMDDH), Doutor Honoris Causa em História pela Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes - FEBACLA. membro-fundador da AVLA, idealizador e curador da exposição França Equinocial para sempre. Membro do Conselho da Fundação Sousândrade, 2⁰ vice-presidente da Cruz Vermelha no Maranhão, presidente do Sindicato dos Policiais Rodoviários Federais no Maranhão.
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