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"O problema não é o sapo, como sabes, mas a liberdade artística de cada um de nós..." (Luis Eme)

A discussão continua: o que representa a obra "Primeiro os Pés", do alemão Martin Kippenberger ?

07/04/2023 às 12h19 Atualizada em 07/04/2023 às 13h15
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln/João Batista do Lago
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"Primeiro os Pés", obra de Martin Kippenberger

*Mhario Lincoln

A primeira questão a ser considerada é se essa escultura pode ser considerada "arte". Fui então em busca de elementos dentro da filosofia da arte e lá, encontrei muitas definições diferentes. Uma delas me chamou a atenção: "...arte é uma expressão criativa que envolve habilidade e imaginação". Ora, se essa polêmica escultura do homem-sapo crucificado, com pernas abertas, uma caneca na mão direita e um ovo na mão esquerda, com vestes e corpo verde, tenha sido criada com habilidade e imaginação pelo autor, artista alemão Martin Kippenberger, só ele mesmo poderia responder. O fato é que, após uma vida polêmica, contudo, de muitos aplausos, veio a falecer em 1997. Teria nesta data (Semana Santa de 2023), 70 anos.  

Responderam por ele, no entanto, dezenas de jornalistas e especialistas. Para muitos, "uma blasfêmia", inclusive para o Papa Bento XVI. Para outros, uma arte subjetiva e interpretativa, por isso, a possibilidade de algumas pessoas a considerarem ofensiva ou sem sentido.

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Na minha opinião de curioso, acredito que essa obra tem muitos apelos interiores, sim, todavia, é expressiva quanto ao artista Martin Kippenberger tentar desafiar as convenções tradicionais da arte e da religião ao transformar (por hermenêutica e isso não quer dizer ser algo real) a imagem de Jesus crucificado (????) em um homem-sapo verde com uma caneca na mão direita e um ovo na mão esquerda. 

Partamos, então desse princípio: mudança radical na representação da figura sagrada sendo vista como uma crítica à própria ideia de divindade e sacrifício, bem como uma tentativa de provocar uma reação do espectador. Nessa linha, fui então descobrir coisas pertinentes à sociologia. Então conclui que tal obra pode ser vista como um exemplo de arte contemporânea, que desafia as normas sociais e culturais, questionando os valores e ideais que são valorizados pela sociedade. 

Pode ser vista, ainda, como uma crítica à religião organizada e às expectativas da sociedade em relação ao que é considerado "bom" ou "ruim" na arte.

Na verdade, quaisquer que sejam as análises filosóficas ou sociológicas acerca dessa escultura, literalmente vai depender da interpretação individual do observador e sua aculturação, dentro do contexto histórico, cultural e artístico, em que foi (o observador) criado. Claro que por todos os lados explodem interpretações, como uma abordagem de uma representação simbólica da condição humana: o homem-sapo crucificado simboliza a dor e o sofrimento, bem como a transformação e a renovação, uma vez que o sapo é frequentemente associado à metamorfose. Por que, não?

Por sua vez, a caneca e o ovo podem ser interpretados como símbolos de nutrição, fertilidade e renovação ou um grito contra o consumo exacerbado e materialista. A presença desses objetos nas mãos do verde homem-sapo crucificado pode sugerir uma crítica à sociedade de consumo e à busca constante pelo prazer e satisfação material. 

O Ovo, em particular, pode representar a necessidade de renovação, de renascimento. Algo muito perto da definição do "Ovo Cósmico", ou seja, aquele que está relacionado com o início da vida. É um símbolo universal para criação, seja divino ou elementar. Um símbolo benévolo que universalmente simboliza a sorte, a abundância, saúde, nascimento e ressurreição.

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Outra abordagem pode se pensar na escultura como uma forma de questionar a ideia de divindade e religiosidade. A representação do verde homem-sapo crucificado pode ser vista como uma subversão da imagem tradicional de Jesus Cristo na cruz, desafiando as convenções e expectativas associadas à figura sagrada.

De uma forma ou de outra, Martin Kippenberger (1953-1997) teve um caso muito especial com sua arte. Sua vida e obras foram ligadas em uma prática notável centrada no papel do artista dentro da cultura e do sistema de arte. 

Com sua personalidade grandiosa, Kippenberger se apresentou como empresário, artista, curador, boêmio, colecionador, arquiteto e editor. Nada era sagrado para esse iconoclasta, exceto o direito de satisfazer seu enorme apetite pela vida, apropriar-se de tudo para sua arte e criar um caos contínuo ao seu redor. Em 20 anos de extraordinária carreira incursionou pelas mídias - pinturas, esculturas, trabalhos em papel, instalações, fotografias , colaborações com outros artistas, pôsteres, cartões postais, livros e música. 

Laterne an Betrunkene (Lâmpada de Rua para Bêbados). Kippenberger

Entre as principais obras reproduzidas estão as seleções do I.N.P. pinturas Bilder (Is Not Embarrassing Pictures) e No Problem, da década de 1980; a histórica exposição de escultura de 1987 "Peter. Die russische Stellung" ("Peter. A posição russa"); auto-retratos em uma variedade de mídias; Laterne an Betrunkene (Lâmpada de Rua para Bêbados); o ciclo Jangada da Medusa da década de 1990; os famosos desenhos do Hotel; e a instalação monumental, The Happy End of Franz Kafka's "Amerika". 

Mutatis Mutandis, pouco encontrei nas redes sociais pertinentes, muitas referências concretas sobre a obra "The Green Frog Crucified". Por isso, acredito que nem mesmo o autor tenha construído um posicionamento único, já que alguns críticos interpretaram por conveniências próprias, a obra. Mas vale destacar alguns pensamentos aqui resumidos por mim, como o que versa sobre ser uma expressão artística da tensão entre religião e secularidade na sociedade contemporânea, fato que levou nesse caso, a outras tantas manifestações interpretativos, chegando a um veredito bem duvidoso, em meu bestunto:

"(...) a imagem de uma rã verde crucificada é uma subversão irônica da iconografia cristã tradicional, que desafia as concepções religiosas convencionais sobre a morte e a ressurreição".

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Essas foram as palavras papais de Bento XVI, que exigia, na época, em nome da moral do Vaticano, retirar da exposição do Museion, de Bolzano, a escultura de Martin Kippenberger: "Primeiro os Pés".

Destarte, como dei o título deste apanhado de letras, copiando frase de Luis Eme, nome profissional de Luís Milheiro, jornalista, escritor e guardador das margens do Tejo, também posso finalizar com o seguinte recado sobre o assunto que ele escreveu em seu blog, em setembro de 2008, lá pelas bandas de Portugal: 

"Aplaudo o museu italiano, Museion, de Bolzano, por resistir às pressões do Vaticano, do governo de Berlusconi e das autoridades locais. Por que razão a escultura, 'Primeiro os Pés', que nos mostra um Sapo crucificado, com a língua de fora, uma caneca numa mão e um ovo noutra, não pode ser considerada arte? Num tempo em que estamos todos a ser 'crucificados', lentamente, em nome de tanta coisa, porque não um sapo? Blasfémia? Não, é apenas um objecto de arte. Blasfémias serão sim, as frases ditas em nome de Deus, por quem tem tantos rabos de palha. Eu percebi a mensagem de Martin e acho que o Bento XVI também...".

Óbvio que em toda arte tem uma outra arte para interpretar essa arte. Assim, complemento essa saudável discussão colocando um pouquinho mais de brasa, chamando para a conversa o também polêmico poeta João Batista do Lago, cuja interpretação dessa obra, virou um poema intitulado "Prometeu esquecido". Abaixo:

 

 

PROMETEU ESQUECIDO

De João Batista do Lago

 

Ei, Tu aí que estás preso nesse madeiro

E com esse olhar de Réu arrependido

E tentando decifrar o mundo inteiro

 

E com rosto transpirando sangue comedido

E com essa boca de imolado carneiro

E suplicante do deus que Te fez Prometeu esquecido

 

E com braços abertos para o abraço de nadas

E com mãos chagadas por ferros encravados

E com peito trespassado pela lança da manada

 

E com pernas e pés ao suplício condenado

E com espírito de justiça da vida emanada

E com caminhos de espinhos cravejados…

 

Desce da Crucis

E vem

O inferno é aqui!

E ele precisa de Ti.

 

Há fome no front

Miséria em toda parte

― o inferno precisa de Ti! ―

Não parte.

Vem e guia-nos

Ante a suprema dor;

Fortalece

Todo furor crucificado

E que todo sangue derramado

Seja pleno fulgor

D’um povo calejado

― agora resgatado

com a esperança do porvir ―

 

Tempo novo 

Há de vir!

.............................

 

JB do Lago.

João Batista do Lago tem vários livros publicados. É jornalista, poeta, escritor, consultor de análise política, empresário no ramo de jornais impressos. Morou em vários estados brasileiros e em várias cidades. João Batista Gomes do Lago (João Poeta do Brasil), é natural da cidade de Itapecuru Mirim (MA), onde nasceu aos 24 dias do mês de junho do ano da graça de 1950. É filho primogênito de Pedro Uchôa do Lago e de Júlia Martins Gomes do Lago. É jornalista, ator, escritor, poeta, teatrólogo, contista, ensaísta e pesquisador. João Batista do Lago é autor de três livros: 1) Eu Pescador de Ilusões; 2) Cânticos Viscerais; e, 3) Áporo. Dois novos livros: 50 Tons de Palavras (já lançado) e Das Sarjetas da Cidade. Ao mesmo tempo, um livro de contos, uma peça de teatro e um terceiro reunindo vários artigos escritos em diversos jornais estão sendo ela­borados. João Batista do Lago trabalhou nos jornais O Estado do Maranhão, Jornal de Hoje e Secretaria de Comunicação Social (no Maranhão); O Noroeste e A Tribuna do Povo de Umuarama (no Paraná); jornal Folha de Rondônia (em Rondônia). Também atuou como assessor de imprensa para partidos políti­cos, sindicatos e políticos. Em Curitiba (PR) foi o editor de conteúdo do Portal Aqui Brasil. Faz parte, ainda, da Academia Poética Brasileira (APB), como membro efetivo, onde ocupa a cadeira de nº 57, tendo como patrono o poeta maranhense Luis Carlos da Cunha.

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JAIME Há 3 anos BSB/DFA PUBLICACAO DO ARTIGO ACIMA, MOSTRA QUE O PRESIDENTE DA APB/FACETUBES, ESTÁ A FRENTE DO SEU TEMPO, POIS ARTE, CULTURA E LETRAS NÃO SE PODE CENSURAR E SIM QUEM APRECIA, EMITE SUA OPINIÃO, CONFORME SUA ÓTICA E SUA CONVICÇÃO. ELE COMO UM EXCELENTE JORNALISTA E CONHECEDOR DE TODAS AS FORMAS DE DIVULGAÇÃO CULTURAL, SABE BEM DISSO. PARABÉNS PRESIDENTE. APLAUDIMOS DE PÉ, PELA CORAGEM E DETERMINACAO.
Linda BarrosHá 3 anos São Luís Tudo na arte é subjetivo, o que leva em consideração à leitura, interpretação e ração de cada um. Essa imagem é muito oportuna nesse período de tempo específico ( a Páscoa), me remeteu ao poema "Lagarta com chapéu de Dedal", onde tem uma mensagem muito forte sobre o Natal. Por fim, arte serve de reflexão.
Rogerio Rocha Há 3 anos São LuísO resgate de um simbolismo universal pelas mãos de um exemplar da arte contemporânea e da poesia, tudo num só texto. Parabéns Mhario.
Alcina Maria Silva AzevedoHá 3 anos Campinas SPEsse tipo de arte só quem poderia explicar seria o autor. O que ele estava sentindo quando colocou o sapo na cruz. O artista tem um sentir diferente que nem sempre conseguimos entender.Eu não entendi.
João Batista Gomes do LagoHá 3 anos São LuisPrimeiramente devo destacar a coragem do editor deste site, Mhario Lincol, pela coragem da publicação, porém, o belíssimo texto desfaz qualquer dúvida no que diz respeito a questão da religiosidade. O que temos aqui é pura e tão-s omente uma obra de arte nascida da genialidade do artista alemão. No que diz respeito a mim, também, esses afetos subjetivos me ocorrem com as ondas de Nazaré. Não gosto de religiões (quaisquer) e, talvez! por isso o sapo crucificado muito me agrade. Gratidão, Mhario.
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