
*Mhario Lincoln
A primeira questão a ser considerada é se essa escultura pode ser considerada "arte". Fui então em busca de elementos dentro da filosofia da arte e lá, encontrei muitas definições diferentes. Uma delas me chamou a atenção: "...arte é uma expressão criativa que envolve habilidade e imaginação". Ora, se essa polêmica escultura do homem-sapo crucificado, com pernas abertas, uma caneca na mão direita e um ovo na mão esquerda, com vestes e corpo verde, tenha sido criada com habilidade e imaginação pelo autor, artista alemão Martin Kippenberger, só ele mesmo poderia responder. O fato é que, após uma vida polêmica, contudo, de muitos aplausos, veio a falecer em 1997. Teria nesta data (Semana Santa de 2023), 70 anos.
Responderam por ele, no entanto, dezenas de jornalistas e especialistas. Para muitos, "uma blasfêmia", inclusive para o Papa Bento XVI. Para outros, uma arte subjetiva e interpretativa, por isso, a possibilidade de algumas pessoas a considerarem ofensiva ou sem sentido.
Na minha opinião de curioso, acredito que essa obra tem muitos apelos interiores, sim, todavia, é expressiva quanto ao artista Martin Kippenberger tentar desafiar as convenções tradicionais da arte e da religião ao transformar (por hermenêutica e isso não quer dizer ser algo real) a imagem de Jesus crucificado (????) em um homem-sapo verde com uma caneca na mão direita e um ovo na mão esquerda.
Partamos, então desse princípio: mudança radical na representação da figura sagrada sendo vista como uma crítica à própria ideia de divindade e sacrifício, bem como uma tentativa de provocar uma reação do espectador. Nessa linha, fui então descobrir coisas pertinentes à sociologia. Então conclui que tal obra pode ser vista como um exemplo de arte contemporânea, que desafia as normas sociais e culturais, questionando os valores e ideais que são valorizados pela sociedade.
Pode ser vista, ainda, como uma crítica à religião organizada e às expectativas da sociedade em relação ao que é considerado "bom" ou "ruim" na arte.
Na verdade, quaisquer que sejam as análises filosóficas ou sociológicas acerca dessa escultura, literalmente vai depender da interpretação individual do observador e sua aculturação, dentro do contexto histórico, cultural e artístico, em que foi (o observador) criado. Claro que por todos os lados explodem interpretações, como uma abordagem de uma representação simbólica da condição humana: o homem-sapo crucificado simboliza a dor e o sofrimento, bem como a transformação e a renovação, uma vez que o sapo é frequentemente associado à metamorfose. Por que, não?
Por sua vez, a caneca e o ovo podem ser interpretados como símbolos de nutrição, fertilidade e renovação ou um grito contra o consumo exacerbado e materialista. A presença desses objetos nas mãos do verde homem-sapo crucificado pode sugerir uma crítica à sociedade de consumo e à busca constante pelo prazer e satisfação material.
O Ovo, em particular, pode representar a necessidade de renovação, de renascimento. Algo muito perto da definição do "Ovo Cósmico", ou seja, aquele que está relacionado com o início da vida. É um símbolo universal para criação, seja divino ou elementar. Um símbolo benévolo que universalmente simboliza a sorte, a abundância, saúde, nascimento e ressurreição.
Outra abordagem pode se pensar na escultura como uma forma de questionar a ideia de divindade e religiosidade. A representação do verde homem-sapo crucificado pode ser vista como uma subversão da imagem tradicional de Jesus Cristo na cruz, desafiando as convenções e expectativas associadas à figura sagrada.
De uma forma ou de outra, Martin Kippenberger (1953-1997) teve um caso muito especial com sua arte. Sua vida e obras foram ligadas em uma prática notável centrada no papel do artista dentro da cultura e do sistema de arte.
Com sua personalidade grandiosa, Kippenberger se apresentou como empresário, artista, curador, boêmio, colecionador, arquiteto e editor. Nada era sagrado para esse iconoclasta, exceto o direito de satisfazer seu enorme apetite pela vida, apropriar-se de tudo para sua arte e criar um caos contínuo ao seu redor. Em 20 anos de extraordinária carreira incursionou pelas mídias - pinturas, esculturas, trabalhos em papel, instalações, fotografias , colaborações com outros artistas, pôsteres, cartões postais, livros e música.
Entre as principais obras reproduzidas estão as seleções do I.N.P. pinturas Bilder (Is Not Embarrassing Pictures) e No Problem, da década de 1980; a histórica exposição de escultura de 1987 "Peter. Die russische Stellung" ("Peter. A posição russa"); auto-retratos em uma variedade de mídias; Laterne an Betrunkene (Lâmpada de Rua para Bêbados); o ciclo Jangada da Medusa da década de 1990; os famosos desenhos do Hotel; e a instalação monumental, The Happy End of Franz Kafka's "Amerika".
Mutatis Mutandis, pouco encontrei nas redes sociais pertinentes, muitas referências concretas sobre a obra "The Green Frog Crucified". Por isso, acredito que nem mesmo o autor tenha construído um posicionamento único, já que alguns críticos interpretaram por conveniências próprias, a obra. Mas vale destacar alguns pensamentos aqui resumidos por mim, como o que versa sobre ser uma expressão artística da tensão entre religião e secularidade na sociedade contemporânea, fato que levou nesse caso, a outras tantas manifestações interpretativos, chegando a um veredito bem duvidoso, em meu bestunto:
"(...) a imagem de uma rã verde crucificada é uma subversão irônica da iconografia cristã tradicional, que desafia as concepções religiosas convencionais sobre a morte e a ressurreição".
Essas foram as palavras papais de Bento XVI, que exigia, na época, em nome da moral do Vaticano, retirar da exposição do Museion, de Bolzano, a escultura de Martin Kippenberger: "Primeiro os Pés".
Destarte, como dei o título deste apanhado de letras, copiando frase de Luis Eme, nome profissional de Luís Milheiro, jornalista, escritor e guardador das margens do Tejo, também posso finalizar com o seguinte recado sobre o assunto que ele escreveu em seu blog, em setembro de 2008, lá pelas bandas de Portugal:
"Aplaudo o museu italiano, Museion, de Bolzano, por resistir às pressões do Vaticano, do governo de Berlusconi e das autoridades locais. Por que razão a escultura, 'Primeiro os Pés', que nos mostra um Sapo crucificado, com a língua de fora, uma caneca numa mão e um ovo noutra, não pode ser considerada arte? Num tempo em que estamos todos a ser 'crucificados', lentamente, em nome de tanta coisa, porque não um sapo? Blasfémia? Não, é apenas um objecto de arte. Blasfémias serão sim, as frases ditas em nome de Deus, por quem tem tantos rabos de palha. Eu percebi a mensagem de Martin e acho que o Bento XVI também...".
Óbvio que em toda arte tem uma outra arte para interpretar essa arte. Assim, complemento essa saudável discussão colocando um pouquinho mais de brasa, chamando para a conversa o também polêmico poeta João Batista do Lago, cuja interpretação dessa obra, virou um poema intitulado "Prometeu esquecido". Abaixo:
PROMETEU ESQUECIDO
De João Batista do Lago
Ei, Tu aí que estás preso nesse madeiro
E com esse olhar de Réu arrependido
E tentando decifrar o mundo inteiro
E com rosto transpirando sangue comedido
E com essa boca de imolado carneiro
E suplicante do deus que Te fez Prometeu esquecido
E com braços abertos para o abraço de nadas
E com mãos chagadas por ferros encravados
E com peito trespassado pela lança da manada
E com pernas e pés ao suplício condenado
E com espírito de justiça da vida emanada
E com caminhos de espinhos cravejados…
Desce da Crucis
E vem
O inferno é aqui!
E ele precisa de Ti.
Há fome no front
Miséria em toda parte
― o inferno precisa de Ti! ―
Não parte.
Vem e guia-nos
Ante a suprema dor;
Fortalece
Todo furor crucificado
E que todo sangue derramado
Seja pleno fulgor
D’um povo calejado
― agora resgatado
com a esperança do porvir ―
Tempo novo
Há de vir!
.............................
João Batista do Lago tem vários livros publicados. É jornalista, poeta, escritor, consultor de análise política, empresário no ramo de jornais impressos. Morou em vários estados brasileiros e em várias cidades. João Batista Gomes do Lago (João Poeta do Brasil), é natural da cidade de Itapecuru Mirim (MA), onde nasceu aos 24 dias do mês de junho do ano da graça de 1950. É filho primogênito de Pedro Uchôa do Lago e de Júlia Martins Gomes do Lago. É jornalista, ator, escritor, poeta, teatrólogo, contista, ensaísta e pesquisador. João Batista do Lago é autor de três livros: 1) Eu Pescador de Ilusões; 2) Cânticos Viscerais; e, 3) Áporo. Dois novos livros: 50 Tons de Palavras (já lançado) e Das Sarjetas da Cidade. Ao mesmo tempo, um livro de contos, uma peça de teatro e um terceiro reunindo vários artigos escritos em diversos jornais estão sendo elaborados. João Batista do Lago trabalhou nos jornais O Estado do Maranhão, Jornal de Hoje e Secretaria de Comunicação Social (no Maranhão); O Noroeste e A Tribuna do Povo de Umuarama (no Paraná); jornal Folha de Rondônia (em Rondônia). Também atuou como assessor de imprensa para partidos políticos, sindicatos e políticos. Em Curitiba (PR) foi o editor de conteúdo do Portal Aqui Brasil. Faz parte, ainda, da Academia Poética Brasileira (APB), como membro efetivo, onde ocupa a cadeira de nº 57, tendo como patrono o poeta maranhense Luis Carlos da Cunha.
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