
@Mhario Lincoln
Tenho acompanhado a evolução técnica e artística de João Ewerton, maranhense que passou pela moda, pelos governos de cultura, pela tinta das telas, pelas criações internacionais e estilosas das manifestações culturais de inserção social e, de repente, recebo dele, esta espécime criativa que abrange, de uma só vez, em forma de arte digital, a poesia, a imagem e a alma.
Algo que só mesmo um ultrartista poderia conceder de tal forma, em razão da sua arte imagética, que passa a ser poderosa, lhe dando poderes para transformar a arte em diversas outras artes. Por essa razão, vejo nesse trabalho uma explícita a relação entre a leitura da poesia, a inclusão da palavra e prospecção da imagem. Nesta relação plurisentimental, acabo por me direcionar ao processo involuntário e poderoso que acontece com a leitura.
Esse caminho com a leitura, começa com a palavra, no poema, e termina na imagem poética, como essa aplicada por João Ewerton nos trabalhos atuais que conheci. Classifico-as como poderosas e fortes, como se uma travessia de palavra, de história e cores abundantes, fosse.
É, sim, um movimento perto de ser apocalíptico, misturando grito, denuncia e saudade, quando, nessa obra específica que mostro aqui (foto) ele revive a luta pela vida de antigos povos indígenas. Obvio que tais características não foram 'inventadas' por Ewerton, mas, sem dúvida, foram aperfeiçoadas.
A arte que envolve imagem, poesia e pintura tem elementos que lembram a tradição da Poesia Visual, que surgiu no Brasil na década de 1960, como uma forma de explorar a relação entre a palavra e a imagem na arte. A Poesia Visual brasileira é marcada pelo uso de elementos gráficos, tipográficos e visuais em combinação com a poesia, criando uma experiência estética que vai além das formas convencionais de expressão literária.
João Ewerton, estudioso e curioso em determinados aspectos, transformou isso em algo de 'surpreendência' lírica, atingindo pontos "cardeais" diferenciados e alunares, extrapolando-se para além dos círculos solares da nossa Galáxia e do que os estudos pertinentes teimam em conceituar como “Concretismo” - a geometrização e visualização da linguagem. Só sei dizer que Ewerton com esta obra magnética, estampada na alma, vai se juntar a nomes como os dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari, Ronaldo Azeredo, Ferreira Gullar (em uma de suas fases) entre outros, explicitamente concretistas e neoconcretistas, cuja filosofia era explorar novas possibilidades estéticas, a partir da fusão de linguagens. E claro que existem outros nomes fora do Brasil.
Só para ilustrar, cito o francês Guillaume Apollinaire - esse, o mais importante ativista cultural das vanguardas do início do século XX. Quanto a João Ewerton, um detalhe que rodeia a arte central, traz uma informação importantíssima - o grito - a que me referi antes: "... minha tetravó foi pega no laço pelos criminosos portugueses que aqui invadiram. E se prevalecendo de suas armas mais poderosas que a dos nativos brasileiros, mataram, abusaram, estupraram e roubaram seus bens e os seus direitos, como donos da terra, que são até hoje (...)".
Leia: através de uma linguagem transformada em arte, Ewerton transborda sentimento e grita, de modo a chamar a atenção para um problema que até hoje revolta: a ‘desinclusão’ social dos povos indígenas. Parece que o antanho agarra-se ferozmente ao ventre da sequência hereditária do artista, e fá-lo sentir tudo isso desde o ventre da própria mãe, como a terra sentiu em seu ventre desde os primeiros gritos de socorro do povo originariamente brasileiro: o mesmo grito que é dado nessa obra, contra a discriminação, marginalização, violência e o preconceito. Destarte, essa é a arte que sangra, através das cores embutidas em cada espaço da tela. É a arte que geme no olhar triste do indiozinho órfão.
É uma arte, no entretanto e como autêntico paradoxo, que tenta mostrar também a beleza, a riqueza de uma diversidade cultural que precisa ser respeitada e justiçada, a fim de que haja a autêntica inclusão dos povos indígenas neste país.
Parabéns, João.
Curitiba, 17.04.2023
Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira.
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