
NE: ler esse livro é encantar-se com detalhes que impressionam, ou melhor, segredos muito bem alinhavados por Francisco Gerardo Haghenbeck, nascido na cidade do México e considerado um dos melhores escritores revelados na América Latina nos últimos anos, fato que o levou a ganhar o Prêmio Nacional, em 2006, com seu thriller "Trago amargo". Além do que, ele mescla (no meio da história) com receitas de especiarias mexicanas. "Uma doideira", podem dizer alguns. No entretanto instiga o leitor não só a conhecer a história de Frida, como participar da agitada culinária da família e do México, como se estivesse sentado à mesa da família, com Guilhermo na cabeceira, D. Matilde à sua direita e as quatro filhas: Matilde, Adriana, Frida e Cristina.
O texto publicado na quarta capa garante, que "...ESTA MISTURA DE REALIDADE E FICÇÃO DESVENDA A FASCINANTE VIDA DE FRIDA KAHLO". E segue: "Depois de sofrer um terrível acidente de bonde e morrer pela primeira vez, a ousada e intrigante artista Frida Kahlo encontra sua Madrinha, a Morte, com quem faz um acordo: para voltar a viver, a artista deverá preparar todos os anos uma oferenda a fim de lembrar seu pacto. A partir de então, Frida passa a anotar cada banquete de Dia dos Mortos em um caderno de capa preta, guardado com todo zelo. Esse pequeno caderno ganha o nome de "Livro da erva santa". Enquanto a promessa se cumpre, a existência de Frida se desenvolve de modo impetuoso, cheia de arrebatamento e dor. Ela conhece o homem com quem compartilhará a vida - Diego Rivera - e que marcará o começo de sua segunda morte. Juntos irão saborear a traição e também a paixão pela arte.
Frida Kahlo amou e desejou com loucura, mas viveu dias emprestados; seu corpo dolorido e destroçado jamais lhe permitiu esquecer que sua Madrinha arrancava-lhe a alma pedaço por pedaço, e o encontro final entre elas estava sempre à espreita". A edição é impecável. Tem assinatura da PLANETA (2ª reimpressão/2ª edição/2021/Tradução de Luis Reys Gil). Vale adquirir essa obra prima.
"(...):
AS QUATRO DA MADRUGADA, FRIDA SE QUEIXOU COM VOZ ADORMECI- da, apagando como uma vela de pavio curto. A enfermeira que dava dela acalmou-a com carícias suaves na mão, alisando-lhe os lençóis para que continuasse seu sono, enquanto ficava ao lado dela, como uma mãe que vela o sono de um recém-nascido.
A enfermeira adormeceu e despertou ao ouvir o repicar do sino. Eram seis da manhã quando bateram à porta da Casa Azul. Espantou o sono para tentar saber se alguém se oferecia a ir abrir o portão. Enquanto Manuel levantava para ir abrira porta, ela percebeu que Frida estava de olhos abertos, fixos, o olhar perdido. Suas mãos estavam sobre os lençóis, como uma boneca que brinca de estar dormindo. Tocou as mãos dela: estavam geladas.
Manuel abriu o saguão, mas não descobriu nenhum ser vivo. A rua estava vazia, exceto por um ginete que sobre seu cavalo branco se perdia entre as ruas calçadas de pedra, deixando apenas o eco dos cascos ressoando pelas casas. Quando entrou de novo na casa, a enfermeira deu-lhe a notícia, e ele saiu em disparada até San Angel. onde Diego fora passar a noite.
"Senhor Diego, nossa menina Frida morreu."
O ataúde com os restos de Frida Kahlo foi colocado no saguão do Palácio de Belas Artes. Foi velado por amigos, artistas, políticos e gente que a admirava. Diego, entre a loucura do momento e a pena, concordou que o ataúde fosse envolvido com uma bandeira vermelha, estampada com a foice e o martelo, achando Frida teria que se sentido orgulhosa dessa decisão. A guarda de honra foi mantida durante um dia e uma noite.
Com uma grande procissão de quinhentas pessoas, o ataúde foi levado pelas ruas da Cidade do México que Frida tanto amava. E ao chegar ao crematório, houve uma última cerimônia de despedida; depois Frida foi incinerada.
Naquela tarde, as nuvens, que haviam se escondido, foram aparecendo para escurecer o céu da cidade. Afligidas pelo falecimento da princesa asteca, derramaram seu pranto pelas ruas, expandindo um sentimento de perda que foi tomando aqueles que assistiram à cerimônia de despedida da pintora. Era tão profunda aquela dor que parecia que ela morrera duas vezes.
O Chamaco Covarrubias, Juanito O'Gorman, suas irmãs Cristina e Matilde, seus alunos, os Fridos, suas amigas e conhecidos, todos estavam compungidos. O fantasma do pranto alcançou também terras distantes: num rincão da Europa, enquanto navegava seu veleiro, o doutorzinho querido de Frida chorou por mais de duas horas enquanto guiava o timão sem saber por que se perdera; Nickolas Murray sentiu um desejo enorme de ver as fotografias que tirara daquela que foi sua amada; a editora da Vanity Fair, madame Clare, trancou-se em seu escritório recriando o momento em que sua amiga Dorothy pulou pela sacada; Nelson Rockefeller interrompeu suas elucubrações sobre como poderia chegar à Presidência e, depois de uma garfada de mole poblano, que compartilhava numa reunião com um líder sindical nova-iorquino, começou a derramar tantas lágrimas que se viu obrigado a cancelar a reunião; Lucienne, a antiga auxiliar de Diego, que lhe dera assistência depois do aborto, tentou esculpir a figura da princesa asteca representada por Frida.
E toda aquela dor retumbou sobre Diego quando regressava a Coyoacán. Em silêncio, relembrou cada momento em que por sua culpa Frida chorou. Manuel e ele iam absortos olhando para a frente. enquanto lágrimas solitárias se desprendiam de seus rostos de vez em quando. A bolsa com as cinzas de Frida permanecia a seu lado, no lugar que ela costumava ocupar.
Quando o automóvel chegou à Casa Azul, Diego sentia-se absolutamente cansado e faminto. Entrou na casa, onde os animais gritavam a ausência da dona. Encaminhou-se até o quarto de Frida, sentou ao lado da cama, dispondo suavemente a bolsa com as cinzas. Ficou olhando-a por vários minutos, até que seu olfato deu uma bofetada em seu entendimento e em seu estômago, que deu um pulo diante de um aromático cheiro de cozido que descansava numa mesa a seu lado. Era um grande pedaço do tamal de panela em erva santa, dentro da vasilha de barro com os pombos segurando a fita com uma frase romântica. Ao lado do prato, o livrinho gasto que Frida guardava e no qual os aromas do frango, do chile verde e de exóticas especiarias se misturavam num arrebatamento suculento.
Depois de guardar o livrinho numa das gavetas, para ficar ali acumulando poeira à espera de que alguém o descobrisse, pegou o prato e fincou o garfo no tamal. Começou a comer em silêncio, degustando cada bocado, deixando que se desfizessem os sucos que saciavam seu apetite e, ao mesmo tempo, reconfortavam sua alma. Ao sentir o estômago saciado, seu coração se encheu de uma paz que nunca mais voltaria a sentir.
De repente, soltou o talher no prato e voltou a soluçar. Seu lamento chamou a atenção de Eulália, a cozinheira, que se aproximou O quarto para tentar consolá-lo. Diego comia e choramingava. Eulália parou no batente da porta, e quando Diego a viu, em seu rosto desenhou-se um sorriso triste.
"Mandou cozinhar para mim e, como sempre, está delicioso", murmurou com tristeza. Pegou outra porção do prato e comeu-a pouco a pouco. Quando terminou o último pedaço, teve que admitir: "Frida foi embora e nunca consegui lhe dizer o quanto eu gostava da erva santa".
*****
Em 1957, Diego Rivera faleceu de parada cardíaca. Foi enterrado na Rotunda dos Homens Ilustres da Cidade do México, o que contra- disse seus últimos desejos: que suas cinzas fossem misturadas às de Frida e fossem guardadas na urna da Casa Azul de Coyoacán. Suas filhas e sua esposa se negaram a cumprir sua última vontade, convencidas de que para o México seria melhor que o enterrassem ali, onde hoje ainda permanece, muito longe de sua querida Frida.
Em 1958, a Casa Azul foi aberta ao público como Museu Frida Kahlo. Desde sua inauguração, tal como fazia Frida, todo dia 2 de novembro é montado um altar de mortos, com comidas, arranjos e fotografias em honra ao amor que Frida e Diego tiveram um pelo outro e pelos seus conhecidos.
O "Livro da erva santa" continua desaparecido. (...)".
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