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Na poética cotidiana, quantas vezes incluímos «coração», «amor» e «desejo»? Mas, por quê?

Matéria construída em cima do texto do professor lusitano Marco Neves ("NCultura").

09/05/2023 às 19h56 Atualizada em 09/05/2023 às 20h19
Por: Mhario Lincoln Fonte: Da redação/ "NCultura"/Marco Neves
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Arte: MHL
Arte: MHL

Da redação ([email protected])

A maioria daqueles que buscam representar emoções e sentimentos nas poesias que escrevem, na maioria das vezes, incluem em seus textos as palavras "coração", "amor" e "desejo". Então, o que realmente representa a palavra "coração"? Sua origem começa na palavrinha latina «cor». Contudo, em muitas línguas ibéricas, este «cor» latino ganha um sufixo que mais parece algo explosivamente aumentado: "ação". Assim, nova palavra é formada juntando "cor"+sufixo: "coração" que existe na língua portuguesa/brasileira e no espanhol. Só que há insinuações pertinentes também no asturiano, leonês, mirandês, no aragonês — e até no velhinho moçárabe, o latim falado pelos muçulmanos ibéricos.

O professor português Marco Neves, aplaudido autor dos livros "Doze Segredos da Língua Portuguesa", "A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa" e "A Baleia Que Engoliu Um Espanhol", afirma em belo artigo no site "NCultura" publicado em 2019, que (coração) é "(...) uma palavra bem ibérica! Com exceções: o basco, que já cá andava muito antes de alguém falar latim por estes lados, chama ao músculo «bihortz». Mas também nas línguas latinas há pelo menos uma excepção: quando chegamos ao catalão encontramos uma forma mais próxima do latim: «cor». Reparemos que encontramos uma palavra com a mesma forma na nossa expressão «saber de cor» — saber de coração", diz o professor lusitano (¹).

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Mais adiante ele completa o texto (ib iden): 

"A partir daí, temos variações da palavra latina: "o «còr» occitano, o «cœur» francês, o «cuore» italiano… — até chegarmos ao romeno «cord». No entanto, temos uma surpresa. A palavra mais comum para «coração», em romeno, não é esse «cord» (que existe), mas sim «inimă». De onde vem esta palavra tão diferente? Da «anima» latina, ou seja, da alma. E, claro, o coração sempre quis dizer muito mais do que um órgão do corpo". 

Ainda nesse artigo, o processo Marco Neves fala da origem da palavra amor. Interessante quando ele diz que "(...) donde vem a palavra 'amor'? Para não variar, vem do latim 'amor'(...)." Veja agora o que ele complementa sobre a língua latina:

"Ora, já sabemos que o latim não apareceu do nada — esta palavrinha muito importante veio do proto-indo-europeu, em concreto da forma «*amma», que quereria dizer «mãe» (ou «tia») em linguagem de criança. Ou melhor, esta é uma das teorias. Não há certezas — mas, se for verdade, significa que a palavra «amor» terá vindo da relação entre mãe e filho. Ah, mas o amor que hoje é tema de jantares e prendas e publicidade a rodos não é esse… É outro amor, bem mais físico, mais inconstante, que nos deixa rapidamente o coração a bater só com o olhar", argumenta.

O texto do professor Marco Neves, (nasceu em Peniche e vive em Lisboa), aborda também, de forma simples e bastante acessível a todos, a questão da palavra "desejo". Diz o professor Neves:

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"Qual a origem de «desejo»? Pois, lá vamos nós escavar até à origem da palavra. Aqui há também muitas dúvidas — mas uma das hipóteses é esta: a palavra terá vindo de «desidero», cujo «sider» talvez se relacione com «sidus», «constelação» ou «estrela», palavra donde nos apareceu, aliás, a palavra «sideral». Por outro lado, «desejo» também poderá estar relacionado com «desidĭa-», que significava preguiça ou indolência".

Mas questiona:

"Não consigo agora resolver a questão — mas não fica mal dizer que o desejo tem, dentro de si, as estrelas (em certos momentos) e uma boa dose de indolência (acima de tudo se for concretizado). O desejo tem em si as estrelas. Uma boa frase, talvez de duvidoso rigor etimológico, mas que tem aquela pitada de kitsch tão necessária neste dia. Esta ligação perigosa lembra-me, aliás, um dos factos mais curiosos sobre o nosso mundo: a Terra e tudo o que por cá existe apareceu de materiais deixados no espaço pela explosão das primeiras estrelas. Sim: tudo o vemos é feito de pó de estrelas, incluindo o nosso coração, o nosso cérebro, o nosso corpo enfim — e tudo o que desejamos. Perdoem-me este desenlace sonhador: é do dia!"

 

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NE: esta publicação não tem fins comerciais, nem publicitários.

 

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Serviço:

Original em: https://certaspalavras.pt/marconeves/

(¹)Marco Neves - Tem sete ofícios, todos virados para as línguas: tradutor, revisor, professor, leitor, conversador e autor. Não são sete? Falta este: é também pai, com o ofício de contar histórias. Para lá das profissões, os amigos sempre lhe reconheceram a pancada das línguas. Nasceu em Peniche e vive em Lisboa. É professor na FCSH e investigador no CETAPS. É autor de vários livros sobre línguas e mantém uma coluna sobre o tema no Sapo 24. Foi fundador do escritório de Lisboa da Eurologos. Escreve sobre línguas, livros e outras viagens.

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