Da redação ([email protected])
A maioria daqueles que buscam representar emoções e sentimentos nas poesias que escrevem, na maioria das vezes, incluem em seus textos as palavras "coração", "amor" e "desejo". Então, o que realmente representa a palavra "coração"? Sua origem começa na palavrinha latina «cor». Contudo, em muitas línguas ibéricas, este «cor» latino ganha um sufixo que mais parece algo explosivamente aumentado: "ação". Assim, nova palavra é formada juntando "cor"+sufixo: "coração" que existe na língua portuguesa/brasileira e no espanhol. Só que há insinuações pertinentes também no asturiano, leonês, mirandês, no aragonês — e até no velhinho moçárabe, o latim falado pelos muçulmanos ibéricos.
O professor português Marco Neves, aplaudido autor dos livros "Doze Segredos da Língua Portuguesa", "A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa" e "A Baleia Que Engoliu Um Espanhol", afirma em belo artigo no site "NCultura" publicado em 2019, que (coração) é "(...) uma palavra bem ibérica! Com exceções: o basco, que já cá andava muito antes de alguém falar latim por estes lados, chama ao músculo «bihortz». Mas também nas línguas latinas há pelo menos uma excepção: quando chegamos ao catalão encontramos uma forma mais próxima do latim: «cor». Reparemos que encontramos uma palavra com a mesma forma na nossa expressão «saber de cor» — saber de coração", diz o professor lusitano (¹).
Mais adiante ele completa o texto (ib iden):
"A partir daí, temos variações da palavra latina: "o «còr» occitano, o «cœur» francês, o «cuore» italiano… — até chegarmos ao romeno «cord». No entanto, temos uma surpresa. A palavra mais comum para «coração», em romeno, não é esse «cord» (que existe), mas sim «inimă». De onde vem esta palavra tão diferente? Da «anima» latina, ou seja, da alma. E, claro, o coração sempre quis dizer muito mais do que um órgão do corpo".
Ainda nesse artigo, o processo Marco Neves fala da origem da palavra amor. Interessante quando ele diz que "(...) donde vem a palavra 'amor'? Para não variar, vem do latim 'amor'(...)." Veja agora o que ele complementa sobre a língua latina:
"Ora, já sabemos que o latim não apareceu do nada — esta palavrinha muito importante veio do proto-indo-europeu, em concreto da forma «*amma», que quereria dizer «mãe» (ou «tia») em linguagem de criança. Ou melhor, esta é uma das teorias. Não há certezas — mas, se for verdade, significa que a palavra «amor» terá vindo da relação entre mãe e filho. Ah, mas o amor que hoje é tema de jantares e prendas e publicidade a rodos não é esse… É outro amor, bem mais físico, mais inconstante, que nos deixa rapidamente o coração a bater só com o olhar", argumenta.
O texto do professor Marco Neves, (nasceu em Peniche e vive em Lisboa), aborda também, de forma simples e bastante acessível a todos, a questão da palavra "desejo". Diz o professor Neves:
"Qual a origem de «desejo»? Pois, lá vamos nós escavar até à origem da palavra. Aqui há também muitas dúvidas — mas uma das hipóteses é esta: a palavra terá vindo de «desidero», cujo «sider» talvez se relacione com «sidus», «constelação» ou «estrela», palavra donde nos apareceu, aliás, a palavra «sideral». Por outro lado, «desejo» também poderá estar relacionado com «desidĭa-», que significava preguiça ou indolência".
Mas questiona:
"Não consigo agora resolver a questão — mas não fica mal dizer que o desejo tem, dentro de si, as estrelas (em certos momentos) e uma boa dose de indolência (acima de tudo se for concretizado). O desejo tem em si as estrelas. Uma boa frase, talvez de duvidoso rigor etimológico, mas que tem aquela pitada de kitsch tão necessária neste dia. Esta ligação perigosa lembra-me, aliás, um dos factos mais curiosos sobre o nosso mundo: a Terra e tudo o que por cá existe apareceu de materiais deixados no espaço pela explosão das primeiras estrelas. Sim: tudo o vemos é feito de pó de estrelas, incluindo o nosso coração, o nosso cérebro, o nosso corpo enfim — e tudo o que desejamos. Perdoem-me este desenlace sonhador: é do dia!"
NE: esta publicação não tem fins comerciais, nem publicitários.
Serviço:
Original em: https://certaspalavras.pt/marconeves/
(¹)Marco Neves - Tem sete ofícios, todos virados para as línguas: tradutor, revisor, professor, leitor, conversador e autor. Não são sete? Falta este: é também pai, com o ofício de contar histórias. Para lá das profissões, os amigos sempre lhe reconheceram a pancada das línguas. Nasceu em Peniche e vive em Lisboa. É professor na FCSH e investigador no CETAPS. É autor de vários livros sobre línguas e mantém uma coluna sobre o tema no Sapo 24. Foi fundador do escritório de Lisboa da Eurologos. Escreve sobre línguas, livros e outras viagens.
EXCLUSIVO ENTRE A MORTE E A CONTINUIDADE: O QUE FILOSOFIA, ESPIRITISMO E PESQUISA DIZEM SOBRE A CONSCIÊNCIA ALÉM DA VIDA
Música Internacional Entre São Luís e Grenoble, João Pedro Borges afirmou a universalidade do violão brasileiro
EXCLUSIVO Se a gravidade acabasse, os livros sobreviveriam ao caos ou a humanidade perderia até o direito de virar uma página?
Angélique Kidjo A africana Angélique Kidjo entra para a história, na Calçada da Fama
Direto dos EUA Amplia-se a Rede Internacional do Facetubes com a chegada da Dra. Ludmila Palhano (EUA)
Internacional Dois brasileiros colocam o Brasil entre os laureados do Vladimir Devidé Haiku Award 2026 Mín. 15° Máx. 19°
Mín. 16° Máx. 25°
ChuvaMín. 10° Máx. 17°
Chuva
Colunista Socorro Guterres Em visita a Curitiba-PR, a acadêmica Socorro Guterres escreveu: “UM MITO LITERÁRIO”.
Joizacawpy Costa SETEMBRO AMARELO: “ATENÇÃO! SINAL AMARELO”
Coluna de RUY PALHANO A crise na Justiça e os impactos comportamentais, institucionais e morais
Academias Brasil/Exterior Coirmãs JOÃO AURÉLIO DO VALE: “ENQUANTO HOUVER QUEM CARREGUE ESSA BANDEIRA, A HISTÓRIA DO MEU PAI NÃO IRÁ MORRER”