Sexta, 12 de Junho de 2026
13°C 20°C
Curitiba, PR
Publicidade

Será que o monopólio midiático americano molda a indústria editorial e impulsiona publicidade esmagadora de livros, na América Latina?

"Perdoe-me aqueles que podem achar esta crônica algo contra a literatura americana. Não, não é. Respeito os EEUU e seus benefícios para o mundo."

02/06/2023 às 09h48 Atualizada em 02/06/2023 às 15h15
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln
Compartilhe:
Arte: MHL
Arte: MHL

 

Continua após a publicidade

*Mhario Lincoln

 

Continua após a publicidade

Eu tirei algumas horas do dia de ontem para navegar por jornais da América Latina e América Central procurando autores novos. Seguindo aquela ideia de "procurar e achar", encontrei donos de prosa e poesia magníficos passando despercebido da maioria dos leitores brasileiros, em razão da influência abissal dos produtos americanos no vivendi modus do planeta leitura nacional.

No primeiro item de pesquisa no Google, veio-me um texto sobre um festival literário, nascido no Reino Unido em 1987, e depois, espalhado por diversas partes do mundo (menos o Brasil), para levantar novos e melhores escritores latino-americanos com menos de 40 anos. 

Agora, em 2023, a ideia ganhou um repeteco: editores latino-americanos vasculharam a mentes da literatura da região, para dar publicidade aos novos autores. (Veja que mentalidade, onde não há concorrências absurdas, nem egos megalomaníacos). 

Fui, então, pesquisar essa lista e descobri nomes como o do dominicano Junot Díaz ("Así es como la pierdes"), do chileno Alejandro Zambra ("Bonsai e A vida privada das árvores", disponível em português), da mexicana Guadalupe Nettel e, pasmem, dos brasileiros Santiago Nazarian ("Neve negra", sua obra mais recente) e João Paulo Cuenca ("Descobri que estava morto"). 

E mais: o colombiano Juan Cárdenas ("El diablo de las provincias"), o mexicano Emiliano Monge (autor "El cielo árido" e "Entre los perdidos") e as brasileiras Mariana Torres, (nascida, em 1981, em Angra dos Reis, mas vivendo em Madri desde os sete anos de idade, autora do livro de contos "El cuerpo secreto"), e Natália Borges Polesso (sabia que ela venceu o prêmio Jabuti na categoria Contos e Crônicas, por "Amora"?). Isso, para citar apenas alguns exemplos.  A lista é composta por 40 novos nomes originários de 15 países da região, e inclui muitos nomes jovens, hoje, referências na literatura moderna, tanto quanto, Borges o é.

E por que acontece isso? Qual o papel fundamental da imprensa literária nesse contexto no Brasil? 

Continua após a publicidade

Claro que é um tema que tem sido debatido por muitos estudiosos ao longo dos anos. A mídia literária desempenha um papel crucial na formação da opinião pública e na disseminação de informações, mas também enfrenta desafios em relação à sua objetividade, ética e compromisso com o interesse público. Alguns estudiosos argumentam que a imprensa literária (aqui especificamente) muitas vezes extrapola esses limites, utilizando estratégias sensacionalistas e espetacularização para atrair a atenção do público e aumentar a venda de livros geralmente importados dos EEUU.

E é por isso que venho lutando para ampliar os meus horizontes e não só ficar acorrentado às pseudas listas de best-sellers divulgadas - interessadamente - por jornais e revistas brasileiras. Por isso, unto-me com a necessidade de evoluir, experimentando novas linguagens, lendo novas construções líricas e participando diretamente da evolução morfológica e da semântica que essas publicações novas vêm produzindo. 

Claro e óbvio que urgiu-me ler grandes clássicos europeus, grandes clássicos de latinos, mas não se deve ficar só nisso, porque o mundo tem evoluído bastante, a escrita e a maneira de vivenciar a ideia mutaram-se; e como consequência, a maneira como se faz verso, se faz poesia, se faz soneto, como se compõe música, nestes dias, é bem diferente; às vezes, para pior, mas, na maioria delas, para bem melhor no inteligível da massa consumidora. 

Diante do painel virtual de obras latinas.

E por quê muitos ditos intelectuais e críticos literários preferem fugir dessas evoluções? Acho que não é por autossuficiência. Mas - e sobretudo -  por total falta de informação ou, acredito, por informação avassaladoramente direcionada pelos editores totalitários da grande mídia, cujo objetivo é lucro; nunca qualidade.

Então, haja revitalização de autores do século XIX, século XX, fazendo das prateleiras das livrarias e das páginas de internet correspondentes, uma enxurrada de rememórias, reedições multicoloridas, traduções duvidosas* com apresentações digitais que lembram o velho sepulcro caiado. Aliás, tenho uma fase no #domeulivroMHL que diz que devemos ter o passado "(...) como exemplos. Mas não como únicas bússolas (...)".

Então acredito que eu preciso, caso queira evoluir mesmo, aprender mais, para não sucumbir diante dessa estranha fórmula de se fazer literatura neste país. Preciso singrar novos mares. Sair do círculo clássico vicioso de antanho. Esses,  já li, já aprendi e até fiz em algum momento da vida, de rota para meu caminhar. 

Continua após a publicidade

Destarte, tomei coragem e fui saindo devagar em busca de novos aprendizados, começando pelos ares da América Latina: claro que encontrei encontrei autores bons, além de Jorge Luis Borges (1899-1986) e Julio Cortázar (1914- 1984) e que fazem muito sucesso na Europa clássica. E porque milhares de brasileiros leitores não têm acesso? Será, também, a importação do estilo literário de consumo dos norte-americanos o que se chama de "american way of life". Será que esse consumo exagerado da literatura importada acabou por acorrentar o leitor brasileiro a uma armadilha excessivamente comercial, a qual os EUA acreditam que sejam "leituras eficazes"? 

Perdoe-me aqueles que podem achar esta crônica algo contra a literatura americana. Não, não é! Respeito os EEUU e seus benefícios para o mundo. Contudo, se a gente racionar rapidinho com pertinência ao mundo do entretenimento, vê-se claramente o seguinte: 

a) Quantos filmes (não americanos) e quantos livros (não americanos) - 'devidamente' traduzidos, estão expostos nos cinemas ou nas livrarias? 

b) Alan Poe é mais conhecido no Brasil, do que o lirismo de Constantin Huygens, poeta Holandês dos mais cultuados pela juventude de seu país, especialmente após publicar seu soneto: "Huwelijk - (...) Liefde en de wereld zijn beide slechts ijdelheid./ Liefde is het einde van onze sterfelijke nacht;/ Liefde is de geest die wacht om gevoed te worden"?

c) Que tal eu perguntar se o brasileiro leitor se lembra de Wole Soyinka? Pois é! Ele tornou-se o primeiro negro a receber um Nobel de Literatura, em 1987? Nessa época, fazia apenas 27 anos que a Nigéria, seu país natal, se tornara independente; e 

d) Em algum dia, algum jornal brasileiro de literatura de grande alcance, (por livre e espontânea vontade - e não reproduzindo traduções de jornais americanos) disseminou a notícia de um africano recebendo um prêmio de reconhecimento mundial por seu intelecto? 

Agora o contraponto. Na mesma época, 1987, sem nenhum desmerecimento, claro, o mundo foi inundado por incessantes propagandas de dois livros: "A Fogueira das Vaidades", de Tom Wolf, lançado dia 01 de novembro e, "Angústia", de (Stephen King), lançado em 8 de junho de 1987. Você que está lendo esta minha crônica, pelo menos, já teve esses dois livros em suas mãos; sim ou não? Por outro lado, será que você também leu "O Leão e A Joia".  Esse é o título de uma das festejadas obras do nigeriano Wole Soyinka, lançado em 1986, um ano antes de merecidamente receber o Nobel e consumido literalmente por milhares de leitores europeus. Há ou não diferença? Se sim, bom não perder o próximo cometa...

 

Continua após a publicidade
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Renata da Silva de BarcelllosHá 3 anos Rio de JaneiroComo sempre excelente reflexão Vou procurar ler os que não conheço ainda
Joizacawpy Há 3 anos São Luís De fato é preciso encontrar novas pérolas, não que os clássicos e os livros constantes no cânone literário não sejam importantes são, primeiro como fonte de conhecimento e inspiração, depois por seus valores literários primorosas. No entanto parar no tempo não me parece tão pobre ao passo que a vida é dinâmica e tudo no mundo se faz e refaz com o passar do tempo. Infelizmente muito crédito se dá ao best sellers, não que não os mereça, mas às pérolas que não estão escondidas sejam vistas.
JAIME Há 3 anos BSB/DFUma crônica bastante reflexiva e mostra o cronista, preocupado em fazer os leitores refletirem. Mais uma valiosa, preciosa e maravilhosa publicação do presidente APB/FACETUBES. O texto acima, mostra o seu compromisso, com os nossos escritores locais, nacionais, que tanto lutam, pra fazer chegar chegar nas mãos dos leitores, preciosidades literárias e as vezes não tem o devido valor merecido. Muito OBRIGADO pela magnitude de crônica e só podemos terminar: APLAUDINDO DE PÉ TAL FEITO!!!
Elizabeth SantosHá 3 anos Natal RNParabenizo o senhor por ter tido a coragem de falar o que estava em minha garganta há muito tempo. Sou dona de uma banquinha de livros, na maioria, de autores brasileiros e latinos. Venho sofrendo muito, apenar de ter livro aqui de 1 real. Mas os livros que consigo comprar e que estão na mídia das revistas, posso colocar o preço de 20, 30 reais que vende na hora. Preciso sobreviver, mas não acho justo. Quando sai a lista dessa revista, na segunda, vende o que eu tenho aqui.
Professor Carbarral, JosehHá 3 anos São Paulo, ex-editor latino.Excepcional análise grande Mhario. Só não entende quem não quer ver!
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
14°
Tempo nublado

Mín. 13° Máx. 20°

14° Sensação
1.66km/h Vento
97% Umidade
100% (4.7mm) Chance de chuva
06h59 Nascer do sol
05h34 Pôr do sol
Sáb 17°
Dom 15°
Seg 12° 11°
Ter 18° 10°
Qua ° °
Atualizado às 22h01
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,10 +0,01%
Euro
R$ 5,91 +0,14%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 344,103,58 +0,40%
Ibovespa
171,497,23 pts 1.71%
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Lenium - Criar site de notícias