
*Mhario Lincoln
Há uma profundidade filosófica imensa nessa arte produzida pelo amigo José Neres. Uma mosca sobrevoa um livro clássico. Aliás, um prato cheio porque sempre gostei da matéria -“descrição” -, quando fazia o primário.
Pois bem! Diante dessa imagem eu notei algo importante: a transitoriedade da mosca e a eternização do livro. E essa hermenêutica gerou duas abordagens interessantes:
A primeira, seria uma perspectiva existencialista onde a transitoriedade da mosca pode ser vista como uma metáfora da condição humana.
A mosca, em sua breve existência, simboliza a efemeridade da vida e a inevitabilidade da morte. Ela representa a fragilidade e a impermanência de tudo o que existe. A intuição de José Neres ao criar essa ilustração, imediatamente, me remeteu a uma provocação existencial, lembrando-nos de nossa própria finitude.
Já o livro, enquanto obra imortal, representa a busca pela permanência e imortalidade. Por isso que eu sempre digo que a imortalidade das Academias não está na pessoa; mas sim, na imortalidade da obra, criada por ela.
Porque ao escrever um livro, o autor busca transcender sua própria efemeridade, deixando uma obra que pode perdurar ao longo do tempo, fazendo com que o livro se torne uma manifestação concreta de um legado duradouro, superando a brevidade da vida individual.
Uma segunda perspectiva, seria a cultural, onde a transitoriedade da mosca e a eternização do livro podem ser analisadas em termos da relação entre natureza e cultura. A mosca, como parte do mundo natural, representa, como já disse, a efemeridade e a contingência da vida orgânica. Ela está sujeita às leis da biologia e, portanto, sua existência é fugaz.
Por outro lado, o livro, como um produto da cultura humana, transcende as limitações da natureza. Ele é criado a partir do conhecimento, das ideias e da criatividade humana, e é capaz de preservar e transmitir informações ao longo do tempo. Dessa forma, o livro se torna uma manifestação da capacidade humana de criar algo duradouro e imortalizar o conhecimento.
E mais forte ainda é ter que aceitar o simbolismo da mosca sobrevoando o livro, como um lembrete de que, apesar de nossas realizações culturais, estamos sempre sujeitos à natureza e às limitações da vida. Ou seja: a transitoriedade da mosca e a eternidade do livro nos convida a refletir sobre questões fundamentais da existência humana, como a finitude, a busca de sentido e a relação entre natureza e cultura.
Com pertinência a essa segunda imagem, também criada na sequência pelo professor, poeta e escritor José Neres, usando Inteligência Artificial, também é interessante. Ele, com certeza usou "prompts" inteligentes para gerar esse trabalho. Então o que pode significar?
Na minha interpretação surreal, essa imagem de uma mosca lendo um livro, a priori, espanta, porém, é uma representação da inversão de papéis ou da transgressão de fronteiras entre diferentes formas de vida.
Poderia ser um lembrete de que nossas percepções e interpretações do mundo são construídas a partir de nossas próprias perspectivas e limitações, além de levar a uma reflexão sobre a natureza da consciência e da inteligência, questionando o que entendemos sobre outras espécies.
Vale também voar sobre esse mundo da criação artificial, lembrando que uma conhecida universidade americana já havia feito estudos sobre o comportamento e a cognição de insetos, à procura de algo que mais se aproximasse de instintos mentais pertinentes a animais vertebrados. Não conseguiu.
Mas, no campo da ficção, existem alguns exemplos de filmes que exploraram a ideia de insetos com inteligência avançada. Um deles, muita gente assistiu: "A Mosca" (The Fly), de 1986, dirigido por David Cronenberg, no qual um cientista acidentalmente se funde com uma mosca, adquirindo características físicas e mentais das duas espécies.
Enfim, vale ressaltar, o trabalho do professor Neres que, agora, agrega mais uma ferramenta importante para sua adaptação e evolução aos novos tempos, usando a IA a favor da ampliação de seus conhecimentos e de quem os usa também. O professor Neres, assim, não se limita a Gregos e Troianos. Já tem assento garantido na cápsula orbital do futuro. Parabéns.
Mhario Lincoln
Presidente da Academia Poética Brasileira.
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