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As questões da máquina de moer corpos e da máquina revolucionária do desejo: esquizoanálise?

"...entendo a angústia como uma máquina desejante; produtora da produção da produção e reprodutora do desejo angustiado ou angustiante…". JB.

15/06/2023 às 09h22 Atualizada em 15/06/2023 às 18h30
Por: Mhario Lincoln Fonte: João Batista do Lago/A Máquina de moer corpos
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Arte: MHL Máquinas Desejantes
Arte: MHL Máquinas Desejantes

 

ANGÚSTIA: DA MÁQUINA DE MOER CORPOS

PARA A MÁQUINA REVOLUCIONÁRIA DO DESEJO

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De João Batista do Lago*

 

O SUJEITO ÁPORO

- poema de joão batista do lago

Cava dentro em mim

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O inseto amargurado

Solitário em sua dor

Cava… cava… e cava

Cava silenciosamente

Desesperadamente só

Cava sem lamento (e)

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Tudo que encontra: pó

Só ele vê as crateras

Onde reside o pus

Pois mesmo escavado

Não se dá por vencido

Assim convencido

Gera-se deus-inseto

Ser: verme em vulcão

Humano: danado cão

Metamorfoseia-se:

Orquídico em Fênix

Surgente das cinzas

Vê-se sujeito presente

- Inseto agora ausente –

Voltado das cavernas

Pretende ser gente (e)

Plantar orquídea agente.

(Do livro ÁPORO , 2007)

* * * * *

É crível admitir-se que a “Angústia” é um sintoma exacerbado a partir do advento da Modernidade (entenda-se: pós-modernidade, modernidade tardia, ultramodernidade, hipermodernidade, pós pós-modernidade etc… etc… etc…). Mas não se pode deixar de entender e compreender que o fenômeno integra a natureza da psique humana desde que o mundo é mundo, ou seja, a angústia pode ser compreendida sob o ponto de vista de diversificadas conotações. Ao mesmo tempo é preciso compreender e apreender que esse afeto não é um atributo da imanência da natureza do ser humano. Noutras palavras, entendo a angústia como um aprendizado, isto é, não é inata do ser humano e da natureza do Ser. Ela é ao mesmo tempo aprendida, apreendida e ensinada. E o mais curioso de tudo: ela é capturada pelo Capitalismo e retornada para o socius como máquina de opressão, que vai, necessariamente afetar (agir) sobre a conjuntura patológica da paranoia privada ou pública.

Dito isto, neste artigo proponho uma abordagem a partir da Esquizoanálise, que é uma proposta propugnada pelo filósofo Gilles Delleuze e pelo psicanalista Félix Guattari (1972). Estes autores (O Anti-Edipo, 1972, pag. 557) sugerem uma clínica nômade, mutante e rizomática, portanto revolucionária, que possibilite a criação de novos modos de ser e de se colocar no mundo. (Já aqui, com essa categorização, percebo a esquizoanálise muitíssimo próxima do Existencialismo francês, integrado por epígonos como Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Albert Camus, entre outros, e que será tema de um próximo artigo). Ora, esse modo de ser e de se colocar no mundo, penso eu, é a coluna vertebral de todas as angústias.

Antes de avançar, faço ligeiramente um retorno ao parágrafo anterior, mormente no que se refere a uma “clinica nômade, mutante e rizomática”, e muito especialmente ao vocábulo clínica.

Penso eu que este termo – clínica – não deve ser aqui entendido ou significado pura e simplesmente como o local ou o espaço físico (hospital, consultório, etc.) de atendimento do cliente ou paciente afetado por uma patologia. Pensando a partir dos conceitos fundamentais e originais da esquizoanálise, intuo que essa clínica é o próprio sujeito da patologia, ou seja, é o próprio indivíduo sofredor de suas angústias. Ora, entendido dessa forma, percebe-se desde logo que o nômade, o mutante e o rizomático, são atributos revolucionários do sujeito afetado pelas “dores do mundo” (AS DORES DO MUNDO – Shopenhauer A., 2020, epub, LeBooks Editora).

Gregório Baremblitt (2019), estudioso e seguidor da esquizoanálise, em suas aulas, utiliza o termo 'klinica', e não clínica, para diferenciar-se da tradicional acepção de clínica, a qual se refere ao inclinar-se sobre o leito de um acamado. “Inspirado na definição de clinos e clinamen de filósofos atomistas, do movimento das partículas subatômicas, que ao se chocarem produzem desvios em suas rotas, Baremblitt concebe a 'klinica' como o espaço de encontro e produção de diferenças”.  (HUR, Domenico Uhng. A Clínica do Corpo sem Órgãos: Esquizoanálise e Esquizodrama. PORTO ARTE: Revista de Artes Visuais, Porto Alegre, RS, jul-dez 2020. ISSN 2179-8001. DOI:https://doi.org/10.22456/2179-8001.110078).

* * * * *

Em artigo anterior, intitulado de “A angústia é uma produção da produção do sujeito”, inferi ousadamente que a angústia é uma máquina impiedosa de moer corpos. E como e por quê disse aquilo? Disse-o na perspectiva esquizoanalítica, ou seja, considero essa afetação como sendo uma máquina de produção recalcada de desejos não satisfeitos. Noutras palavras: “[…] Há tão somente máquinas em toda parte, e sem qualquer metáfora: máquinas de máquinas, com seus acoplamentos, suas conexões […]” (DELEUZE & GUATTARI - O ANTI-ÉDIPO, Cap. I, As Máquinas Desejantes, p. 11).

Seguindo a linha rizomática do meu raciocínio entendo a angústia como uma máquina desejante; produtora da produção da produção e reprodutora do desejo angustiado ou angustiante…

Explico: ainda que se considere a angústia como um afeto, uma sensação ou emoção que é produzida de fora para dentro, do exterior para o interior, que atravessa os corpos; ela é o desejo mesmo do corpo afetado. Como assim? Exemplifiquemos: quando uma determinada pessoa é cobrada pelo ‘sucesso’ (afetação triste, para lembrar Spinoza) que ela deve ter para poder ser digna de respeito no seio de seu grupo de pertença ou pertencimento, inconscientemente e subjetivamente ela passa a produzir outros desejos que lhe são inculcados (aculturados) a partir do campo exterior.

No instante dessa aculturação psíquica ela exerce o papel de produtora da produção da produção e, o que é mais significativo, reproduz-se: “[…] Ele não vive a natureza como natureza, mas como processo de produção. Já não há nem homem nem natureza, mas unicamente um processo que os produz um no outro […]” (Idem, p. 12). (GA). Como diz o poema epigrafado:

“Cava dentro em mim

O inseto amargurado

Solitário em sua dor

Cava… cava… e cava

Cava silenciosamente

Desesperadamente só

Cava sem lamento (e)

Tudo que encontra: pó (...)”

Vê-se aí um “eu-lírico” ou um “sujeito” do discurso poético em pleno ato, ou seja, uma máquina que deixou de ser máquina de moer corpo para se tornar em uma máquina desejante, portanto, uma máquina revolucionária. Portanto uma máquina com novos fluxos-máquinas produzindo máquinas-fluxos. O que isso quer dizer? Significa dizer que o socius – privado ou público -, considerando aí a potência subjetivada, é ele mesmo o produtor da sua cura, isto é, ele deixa de ser passivo para se tornar ativo. Noutras palavras: corta o fluxo da angústia com o fluxo da anti-angústia.

Vejam o que diz Friedrich Nietzsche em A Gaia Ciência, sobre si mesmo: “[…] não pretendo despedir-me com ingratidão daquela época em que estive gravemente doente, e cujo proveito hoje ainda não se esgotou […] pois mesmo em minha saúde tão instável tenho plena consciência de todas as vantagens […] (pag. 26). Seguidamente diz Nietzsche no axioma Diálogo (Pag. 34):

Estou doente? Estou curado?

E quem foi meu médico?

Esqueci-me de tudo isso!

Só agora acredito que você está curado:

Pois só é são quem se esqueceu.

 

E para finalizar relembro o que enfatizei em artigo anterior:

“[…] a angústia é um sentimento presente na vida de todos nós (…)

mas a modernidade tem gerado um ida mais significativoambiente

propício para o seu agravamento patológico (…) É necessário

repensar as estruturas sociais e culturais que geram a

desestruturação do sujeito e buscar um projeto de vida mais

significativo e saudável (…) […]”.

------------------

 

JB do Lago.

O AUTOR:

João Batista Gomes do Lago, ou simplesmente João Batista do Lago, ou ainda (para pesquisa Google) João Poeta do Brasil, é natural da cidade de Itapecuru Mirim (MA), onde nasceu aos 24 dias do mês de junho do ano da graça de 1950. É filho primogênito de Pedro Uchôa do Lago e de Júlia Martins Gomes do Lago. É jornalista, ator, escritor, poeta, teatrólogo, contista, ensaísta e pesquisador. João Batista do Lago é autor de três livros: 1) Eu Pescador de Ilusões; 2) Cânticos Viscerais; e, 3) Áporo. Dois novos livros: 50 Tons de Palavras (já lançado) e Das Sarjetas da Cidade, no prelo. Ao mesmo tempo, um livro de contos, uma peça de teatro e um terceiro reunindo vários artigos escritos em diversos jornais estão sendo ela­borados. João Batista do Lago trabalhou nos jornais O Estado do Maranhão, Jornal de Hoje e Secretaria de Comunicação Social (no Maranhão); O Noroeste e A Tribuna do Povo de Umuarama (no Paraná); jornal Folha de Rondônia (em Rondônia). Também atuou como assessor de imprensa para partidos políti­cos, sindicatos e políticos. Em Curitiba (PR) foi o editor de conteúdo do Portal Aqui Brasil. Faz parte, ainda, da Academia Poética Brasileira (APB), como membro efetivo, onde ocupa a cadeira de nº 57, tendo como patrono o poeta maranhense Luis Carlos da Cunha.

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NinaHá 3 anos IMPERATRIZ Áporo. Uma.poesia madura. Mas te achei triste e desiludido com a vida. Ficassem, não! O mundo não é tão chato. Às vezes é tu que não estás no lugar certo.
Claudio Warlick, (Filosofia Humana)Há 3 anos Pelotas/RGSSr. João, Steve Jobs, disse uma vez acreditar na filosofia como uma disciplina evolutiva, se adaptando às mudanças do mundo. Embora as teorias de Nietzsche e Schopenhauer tenham sido influentes em seu tempo, é natural que novas ideias e perspectivas surjam à medida que a sociedade avança.
Claudio Warlick, (Filosofia Humana)Há 3 anos Pelotas/RGSSugiro, portanto, a que o sr. leia alguns filósofos modernos, tipo Martha Nussbaum, Slavoj Žižek e Judith Butler. E é de Martha a frase: "A filosofia deve ser uma disciplina que se preocupa com a vida humana real, não apenas com abstrações teóricas". Isso sugere que a filosofia deve estar em constante evolução para se adaptar às mudanças na sociedade e nas necessidades humanas.
Marcia Pires Leal, sociólogo PUCRIOHá 3 anos Rio de JaneiroJoão Batista do Lago, intervenho nesta conversa para dizer que gostei muito deste espaço onde se discute ideias. Por isso ganho asas para afirmar a importância da avaliação das teorias dos mestres citados. Eles estão ou não superadas no século XXI. As teorias filosóficas e sociológicas são complexas e suas interpretações e relevância podem variar de acordo com o contexto de tempo e espaço. Vivemos outro momento? Portanto, é fundamental examinar essas teorias à luz dos desafios contemporâneos.
Carlos SimõesHá 3 anos São Luís MAMeu poeta consagrado. Realmente entendi sua percepção ao início deste texto, quando cita que essa perspectiva busca enfatizar a interdependência e a interconexão dos elementos sociais. Ao considerar a sociedade como um conjunto de máquinas, Deleuze e Guattari sugerem que é necessário examinar as relações e as interações entre essas máquinas para compreender como a sociedade funciona como um todo. Estou de pleno acordo, poeta.
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