
ANGÚSTIA: DA MÁQUINA DE MOER CORPOS
PARA A MÁQUINA REVOLUCIONÁRIA DO DESEJO
De João Batista do Lago*
O SUJEITO ÁPORO
- poema de joão batista do lago
Cava dentro em mim
O inseto amargurado
Solitário em sua dor
Cava… cava… e cava
Cava silenciosamente
Desesperadamente só
Cava sem lamento (e)
Tudo que encontra: pó
Só ele vê as crateras
Onde reside o pus
Pois mesmo escavado
Não se dá por vencido
Assim convencido
Gera-se deus-inseto
Ser: verme em vulcão
Humano: danado cão
Metamorfoseia-se:
Orquídico em Fênix
Surgente das cinzas
Vê-se sujeito presente
- Inseto agora ausente –
Voltado das cavernas
Pretende ser gente (e)
Plantar orquídea agente.
(Do livro ÁPORO , 2007)
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É crível admitir-se que a “Angústia” é um sintoma exacerbado a partir do advento da Modernidade (entenda-se: pós-modernidade, modernidade tardia, ultramodernidade, hipermodernidade, pós pós-modernidade etc… etc… etc…). Mas não se pode deixar de entender e compreender que o fenômeno integra a natureza da psique humana desde que o mundo é mundo, ou seja, a angústia pode ser compreendida sob o ponto de vista de diversificadas conotações. Ao mesmo tempo é preciso compreender e apreender que esse afeto não é um atributo da imanência da natureza do ser humano. Noutras palavras, entendo a angústia como um aprendizado, isto é, não é inata do ser humano e da natureza do Ser. Ela é ao mesmo tempo aprendida, apreendida e ensinada. E o mais curioso de tudo: ela é capturada pelo Capitalismo e retornada para o socius como máquina de opressão, que vai, necessariamente afetar (agir) sobre a conjuntura patológica da paranoia privada ou pública.
Dito isto, neste artigo proponho uma abordagem a partir da Esquizoanálise, que é uma proposta propugnada pelo filósofo Gilles Delleuze e pelo psicanalista Félix Guattari (1972). Estes autores (O Anti-Edipo, 1972, pag. 557) sugerem uma clínica nômade, mutante e rizomática, portanto revolucionária, que possibilite a criação de novos modos de ser e de se colocar no mundo. (Já aqui, com essa categorização, percebo a esquizoanálise muitíssimo próxima do Existencialismo francês, integrado por epígonos como Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Albert Camus, entre outros, e que será tema de um próximo artigo). Ora, esse modo de ser e de se colocar no mundo, penso eu, é a coluna vertebral de todas as angústias.
Antes de avançar, faço ligeiramente um retorno ao parágrafo anterior, mormente no que se refere a uma “clinica nômade, mutante e rizomática”, e muito especialmente ao vocábulo clínica.
Penso eu que este termo – clínica – não deve ser aqui entendido ou significado pura e simplesmente como o local ou o espaço físico (hospital, consultório, etc.) de atendimento do cliente ou paciente afetado por uma patologia. Pensando a partir dos conceitos fundamentais e originais da esquizoanálise, intuo que essa clínica é o próprio sujeito da patologia, ou seja, é o próprio indivíduo sofredor de suas angústias. Ora, entendido dessa forma, percebe-se desde logo que o nômade, o mutante e o rizomático, são atributos revolucionários do sujeito afetado pelas “dores do mundo” (AS DORES DO MUNDO – Shopenhauer A., 2020, epub, LeBooks Editora).
Gregório Baremblitt (2019), estudioso e seguidor da esquizoanálise, em suas aulas, utiliza o termo 'klinica', e não clínica, para diferenciar-se da tradicional acepção de clínica, a qual se refere ao inclinar-se sobre o leito de um acamado. “Inspirado na definição de clinos e clinamen de filósofos atomistas, do movimento das partículas subatômicas, que ao se chocarem produzem desvios em suas rotas, Baremblitt concebe a 'klinica' como o espaço de encontro e produção de diferenças”. (HUR, Domenico Uhng. A Clínica do Corpo sem Órgãos: Esquizoanálise e Esquizodrama. PORTO ARTE: Revista de Artes Visuais, Porto Alegre, RS, jul-dez 2020. ISSN 2179-8001. DOI:https://doi.org/10.22456/2179-8001.110078).
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Em artigo anterior, intitulado de “A angústia é uma produção da produção do sujeito”, inferi ousadamente que a angústia é uma máquina impiedosa de moer corpos. E como e por quê disse aquilo? Disse-o na perspectiva esquizoanalítica, ou seja, considero essa afetação como sendo uma máquina de produção recalcada de desejos não satisfeitos. Noutras palavras: “[…] Há tão somente máquinas em toda parte, e sem qualquer metáfora: máquinas de máquinas, com seus acoplamentos, suas conexões […]” (DELEUZE & GUATTARI - O ANTI-ÉDIPO, Cap. I, As Máquinas Desejantes, p. 11).
Seguindo a linha rizomática do meu raciocínio entendo a angústia como uma máquina desejante; produtora da produção da produção e reprodutora do desejo angustiado ou angustiante…
Explico: ainda que se considere a angústia como um afeto, uma sensação ou emoção que é produzida de fora para dentro, do exterior para o interior, que atravessa os corpos; ela é o desejo mesmo do corpo afetado. Como assim? Exemplifiquemos: quando uma determinada pessoa é cobrada pelo ‘sucesso’ (afetação triste, para lembrar Spinoza) que ela deve ter para poder ser digna de respeito no seio de seu grupo de pertença ou pertencimento, inconscientemente e subjetivamente ela passa a produzir outros desejos que lhe são inculcados (aculturados) a partir do campo exterior.
No instante dessa aculturação psíquica ela exerce o papel de produtora da produção da produção e, o que é mais significativo, reproduz-se: “[…] Ele não vive a natureza como natureza, mas como processo de produção. Já não há nem homem nem natureza, mas unicamente um processo que os produz um no outro […]” (Idem, p. 12). (GA). Como diz o poema epigrafado:
“Cava dentro em mim
O inseto amargurado
Solitário em sua dor
Cava… cava… e cava
Cava silenciosamente
Desesperadamente só
Cava sem lamento (e)
Tudo que encontra: pó (...)”
Vê-se aí um “eu-lírico” ou um “sujeito” do discurso poético em pleno ato, ou seja, uma máquina que deixou de ser máquina de moer corpo para se tornar em uma máquina desejante, portanto, uma máquina revolucionária. Portanto uma máquina com novos fluxos-máquinas produzindo máquinas-fluxos. O que isso quer dizer? Significa dizer que o socius – privado ou público -, considerando aí a potência subjetivada, é ele mesmo o produtor da sua cura, isto é, ele deixa de ser passivo para se tornar ativo. Noutras palavras: corta o fluxo da angústia com o fluxo da anti-angústia.
Vejam o que diz Friedrich Nietzsche em A Gaia Ciência, sobre si mesmo: “[…] não pretendo despedir-me com ingratidão daquela época em que estive gravemente doente, e cujo proveito hoje ainda não se esgotou […] pois mesmo em minha saúde tão instável tenho plena consciência de todas as vantagens […] (pag. 26). Seguidamente diz Nietzsche no axioma Diálogo (Pag. 34):
Estou doente? Estou curado?
E quem foi meu médico?
Esqueci-me de tudo isso!
Só agora acredito que você está curado:
Pois só é são quem se esqueceu.
E para finalizar relembro o que enfatizei em artigo anterior:
“[…] a angústia é um sentimento presente na vida de todos nós (…)
mas a modernidade tem gerado um ida mais significativoambiente
propício para o seu agravamento patológico (…) É necessário
repensar as estruturas sociais e culturais que geram a
desestruturação do sujeito e buscar um projeto de vida mais
significativo e saudável (…) […]”.
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O AUTOR:
João Batista Gomes do Lago, ou simplesmente João Batista do Lago, ou ainda (para pesquisa Google) João Poeta do Brasil, é natural da cidade de Itapecuru Mirim (MA), onde nasceu aos 24 dias do mês de junho do ano da graça de 1950. É filho primogênito de Pedro Uchôa do Lago e de Júlia Martins Gomes do Lago. É jornalista, ator, escritor, poeta, teatrólogo, contista, ensaísta e pesquisador. João Batista do Lago é autor de três livros: 1) Eu Pescador de Ilusões; 2) Cânticos Viscerais; e, 3) Áporo. Dois novos livros: 50 Tons de Palavras (já lançado) e Das Sarjetas da Cidade, no prelo. Ao mesmo tempo, um livro de contos, uma peça de teatro e um terceiro reunindo vários artigos escritos em diversos jornais estão sendo elaborados. João Batista do Lago trabalhou nos jornais O Estado do Maranhão, Jornal de Hoje e Secretaria de Comunicação Social (no Maranhão); O Noroeste e A Tribuna do Povo de Umuarama (no Paraná); jornal Folha de Rondônia (em Rondônia). Também atuou como assessor de imprensa para partidos políticos, sindicatos e políticos. Em Curitiba (PR) foi o editor de conteúdo do Portal Aqui Brasil. Faz parte, ainda, da Academia Poética Brasileira (APB), como membro efetivo, onde ocupa a cadeira de nº 57, tendo como patrono o poeta maranhense Luis Carlos da Cunha.
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