
Edomir Martins de Oliveira, Vice-Presidente Executivo Nacional da Academia Poética Brasileira.
Era um cidadão saudável, física e mentalmente, que vivia de uma confortável aposentadoria, do alto dos seus 80 anos, desejoso de comprar um carro zero quilômetro. Entrou na concessionária feliz, e dirigindo-se à atendente disponível, sentou-se na expectativa de fazer um bom negócio. Começaram a conversar sobre uma possível compra e, então, serviram-no um cafezinho para animá-lo e uma água gelada para acalmar seus ânimos.
Escutou o preço do carro zero que ele queria, o modelo que lhe estava sendo oferecido e animado pediu que avaliassem o seu carro, que tinha 3 anos de uso. E aí começaram os desânimos a contagiá-lo. O seu carro foi avaliado tão baixo, que logo o desanimou! Mesmo oferecendo-o na negociação, somado com economias próprias disponíveis, ainda faltaria um terço para completar o valor do novo carro oferecido.
“Daqui você não sai sem o seu carro novo”, dizia a propaganda da concessionária através dos veículos de comunicação. O autorizado vendedor exibia o seu endereço e telefone para contato. Então fora até lá.
Foi nesse momento, que a atendente lhe disse na tentativa de animá-lo à compra, que esse valor que faltava seria financiado pela própria concessionária. Essa perspectiva deu novo alento ao comprador! Um terço ficou representado pelo valor do seu carro, um terço ele tiraria de sua caderneta de poupança e o terço restante seria financiado.
Passaram, então, para a etapa seguinte que era fazer seu cadastro. Avaliado e consultado seu comportamento na praça, nenhum impedimento constava para impedir a compra. Levado à supervisora da empresa, voltou a vendedora com a triste notícia de que o pretendido financiamento não poderia ser realizado.
Ele estava na faixa etária da “melhor idade”, e embora sendo chamada assim, era proibitivo realizar negócios que envolvessem financiamento com pessoas da sua idade em diante.
A vendedora disse-lhe que sua gerente lhe oferecia como opção apresentar um avalista idôneo com idade inferior à dele e a transação seria realizada.: - “É que as financiadoras entendem ser perigoso para elas pôr em risco o capital financiado para idosos, o mesmo não acontecendo com pessoas jovens para fins de financiamento operacional, disse-lhe a vendedora”. De nada adiantaram os argumentos do pretendente à compra, de que as pessoas jovens, às vezes, morrem de forma inesperada, e mais rápida do que os idosos.
O comprador frustrado em suas pretensões lhe acrescentou: - “Quantos jovens partem mais cedo do que os idosos! Para morrer basta estar vivo. Não importa idade”. Dito isto, retirou-se agradecendo a atenção e lamentou as portas fechadas para idosos, mesmo oferecendo seguro para acobertar a dívida que seria contraída e bem imóvel como garantia.: “Aval não era a opção melhor para ele”.
Então, se lembrou que o Banco com o qual trabalhava e através dele recebia seus vencimentos, tinha linha de crédito especial para essa aquisição. Foi até sua agência em referência, solicitou a operação através do caixa eletrônico e foi negado em razão de sua idade.
Dirigiu-se inconformado ao gerente que confirmou a impossibilidade de ser realizado o financiamento em razão da sua faixa etária.
Então cabisbaixo, pensou na grande realidade para os idosos. Eles não vivem a melhor idade. Seus grandes direitos, para os quais não há limite de idade, são pagar em dia seus impostos, tais como IPTU, IPVA, IRPF – (Imposto de Renda Pessoa Física), e outros exigidos por lei, não importando a idade que possuam. Se não forem pagos em dia os impostos, o Estado, o Município e a União serão inclementes. Pobre idoso!!!!
Foi, então, que para acalentar seu coração lembrou-se, frustrado como estava, que a poesia acalenta o coração daqueles que sofrem no corpo e na alma, e o seu lenitivo, nesta hora, veio com a Lembrança de um poema de Padre Antônio Tomaz, que tem o título de “Contraste”.
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CONTRASTE
(Padre Antônio Tomás - Ceará - 1868-1941)
Quando partimos no verdor dos anos,
Da vida pela estrada florescente,
As esperanças vão conosco à frente,
E vão ficando atrás os desenganos.
Rindo e cantando, céleres e ufanos,
Vamos marchando descuidosamente...
Eis que chega a velhice, de repente,
Desfazendo ilusões, matando enganos.
Então, nós enxergamos, claramente,
Como a existência é rápida e falaz,
E vemos que sucede exatamente
O contrário dos tempos de rapaz:
- Os desenganos vão conosco à frente
E as esperanças vão ficando atrás.
(Padre Antônio Tomás - Ceará - 1868-1941)
Reunida a família em um restaurante para comemorar a compra do carro novo, tiveram todos uma surpresa ao ver o senhor chegar com o semblante triste e mais ainda quando souberam do financiamento negado pela idade. Foi então que uma filha lhe disse que ele não ficaria sem o carro novo, pois iria comprá-lo em seu nome. Ao que o pai lhe disse então, que ficasse tranquila pois as prestações seriam religiosamente creditadas em sua conta no vencimento, tendo a filha acrescentado que isso não a preocupava pois sabia que o pai 10 dias antes do vencimento, pagava sempre seus compromissos.
E concluiu o pai indignado: Ainda adocicam a vida do idoso, chamando de melhor idade, quem vive a partir de 60 anos, e agora há até quem chame de idade de ouro!!!!!
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