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Internacional HOMOSSEXUALIDADE

Andrew Solomon ("Longe da Árvore"): Homossexualidade, aceitação e preconceito

Um dos mais respeitados autores da atualidade.

07/11/2020 20h03
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Por: Mhario Lincoln Fonte: ML/Alexandre Lucchese / GaúchaZH
Andrew Solomon
Andrew Solomon

Andrew Solomon: Homossexualidade, aceitação e preconceito

Data da publicação original: 17.03.2020

Textos Escolhidos: por Alexandre Lucchese / GaúchaZH - (Resumo).

As ideias que movem o mundo em um único lugar. Cadastre-se e receba mensalmente o melhor do Fronteiras. A homossexualidade passou por uma mudança significativa na forma como é vista socialmente. Antigamente, era considerada uma doença; hoje, temos a união homoafetiva estabelecida em cada vez mais países. O escritor Andrew Solomon enfatiza o longo processo que está por trás da mudança: décadas de ativismo.

Conforme Solomon, a união homoafetiva é uma vitória que pode ser consideravelmente conferida a movimentos anteriores por direitos civis, como o movimento pelo direito das mulheres ao voto e os movimentos pelos direitos das minorias raciais. Ambos serviram de inspiração para o movimento gay, e propagam um sentimento pós-colonial, de que um grupo de pessoas não deve controlar outro.

Mesmo assim, o autor salienta que ainda há muito preconceito. Em diferentes lugares e em diferentes proporções, pessoas continuam sendo demitidas por serem gays, continuam sendo perseguidas e, em alguns países, são até executadas.

A homossexualidade passou por uma mudança significativa na forma como é vista socialmente. Antigamente, era considerada uma doença; hoje, temos a união homoafetiva estabelecida em cada vez mais países. O escritor Andrew Solomon enfatiza o longo processo que está por trás da mudança: décadas de ativismo.

Conforme Solomon, a união homoafetiva é uma vitória que pode ser consideravelmente conferida a movimentos anteriores por direitos civis, como o movimento pelo direito das mulheres ao voto e os movimentos pelos direitos das minorias raciais. Ambos serviram de inspiração para o movimento gay, e propagam um sentimento pós-colonial, de que um grupo de pessoas não deve controlar outro. Mesmo assim, o autor salienta que ainda há muito preconceito. Em diferentes lugares e em diferentes proporções, pessoas continuam sendo demitidas por serem gays, continuam sendo perseguidas e, em alguns países, são até executadas.

 

A ENTREVISTA:

"Acho que há áreas em que as leis são relevantes: por exemplo, uma lei que impeça que se demitam pessoas por serem gays ou uma lei que afirme ser crime de ódio bater em alguém por ser homossexual. O que não faria sentido é uma lei que obrigasse pessoas que não gostam de gays a passarem a gostar". Salomon.

 

No livro Longe da Árvore, publicado no Brasil, o senhor aborda o crescimento de filhos com identidades diversas das de seus pais e a forma como são aceitos ou não. Transgêneros, autistas, surdos e esquizofrênicos são alguns exemplos. Hoje, os pais estão mais bem preparados para lidar com filhos que não correspondem às suas expectativas?

Andrew Solomon: Acho que jamais alguém está preparado para ter filhos muito diferentes de si. É chocante para todas as famílias em que isso ocorre. Não acredito que as pessoas estejam mais bem preparadas, e sim que, na era da internet, há mais possibilidades de encontrar comunidades com pessoas que também precisam lidar com as mesmas situações. Além de adquirirem conhecimento nesses espaços, compreendem a ideia de que a vida com uma criança que é diferente, algo que parece incrivelmente difícil, é sim possível, já que há muitos outros pais conseguindo lidar com esta situação. Tudo isso colabora para que os pais aceitem com mais facilidade crianças diferentes da expectativa da maior parte das pessoas. No entanto, "mais fácil" não quer dizer "fácil". É apenas um pouco menos difícil.

Onde o senhor acha que as pessoas enfrentam mais preconceito, dentro ou fora de casa?

Andrew Solomon: Acredito que há três níveis de aceitação a serem desenvolvidos: autoaceitação, aceitação familiar e aceitação social - esta última inclui escola e trabalho. Cada um deles influencia os outros. É claro que já ouvi histórias de gente bem compreendida em casa, mas que sofre preconceito imenso no trabalho, e também o contrário. Mas não diria que um dos níveis é mais importante do que os outros. O que acredito é que alguém com autoaceitação tem uma influência, ainda que limitada, em ser aceito por sua família e pelo mundo. Quem é aceito pela família tende a ser mais bem aceito no trabalho, porque sua atitude é diferente, e assim por diante. Do mesmo modo, pessoas que cresceram sendo rejeitadas pela família tendem a sofrer mais rejeições no trabalho, porque isso passa a ser uma constante para elas, a ponto de não saberem muito bem como construir suas vidas sem esse sentimento.

Como estimular a autoaceitação de uma criança e não fazê-la se sentir sozinha em suas diferenças?

Andrew Solomon: Não penso em termos de uma criança se sentir sozinha, mas em um importante equilíbrio que muitas vezes é delicado. Uma criança com diferenças deve ser inserida no mundo real, educada em salas de aulas e exposta a pessoas e colegas que não compartilham suas mesmas diferenças, já que esse é o mundo em que viverá.  Mas essa criança também deveria ocupar algum tempo em salas de aula e outros contextos junto a pessoas com sua mesma condição, onde poderá entender melhor o que é esta experiência, ter ideia dos desafios que terá de enfrentar. Acredito que os dois ambientes são necessários.

A homossexualidade era considerada uma doença há algumas décadas. Hoje, a união homoafetiva é uma realidade. Como militante dos direitos dos homossexuais, como explica esses progressos?

Andrew Solomon: Isso pode parecer repentino, mas é o resultado de muitas décadas de ativismo e pode ser atribuído consideravelmente aos movimentos por direitos civis anteriores, como o movimento pelo direito das mulheres ao voto e os movimentos pelos direitos das minorias raciais. Acredito que o movimento gay se inspirou nesses dois, e todos têm em mente uma sensibilidade pós-colonial: um grupo de pessoas não deveria ser autorizado a controlar outro grupo de pessoas. Também acho importante dizer que o casamento gay é maravilhoso, tenho um casamento gay e estou muito contente por isto. Mas é preciso avançar em outras questões. Nos EUA e em outros países, em diferentes proporções, pessoas continuam sendo demitidas por serem gays, ou sendo maltratadas por serem gays, ou tendo o direito de habitação negado por serem gays... Há até mesmo países em que pessoas são executadas por serem gays. São todas formas de preconceito.

Os setores políticos que se posicionaram contra a união homoafetiva, tanto no Brasil quanto nos EUA, têm forte ligação com as religiões cristãs. Por outro lado, o cristianismo promove a ideia de amor e tolerância. Como o senhor vê o papel das religiões no combate aos preconceitos?

Andrew Solomon: Acredito que se relacionar com as religiões é realmente importante, pois os direitos pelos quais batalhamos não virão até que elas deixem de se opor. Minha experiência trabalhando nesse mundo é que os maiores atos de generosidade, compreensão e gentileza para os gays devem muito à influência das instituições religiosas. E os grandes atos de preconceito, crueldade e depressão vieram, da mesma forma, de instituições religiosas ou foram feitos em nome da religião. Pertenço a uma igreja de Nova York bastante aberta e respeitosa, e o que admiro do cristianismo vem de seu primeiro mandamento (amar o seu inimigo) e da crença no juízo de Deus - e não presunção de que podemos julgar uns aos outros. As passagens que são usadas o tempo todo para atacar os gays são relativamente insignificantes na Bíblia, que é repleta de muitas outras instruções. A base lógica dos religiosos antigays é muito débil, e o modo como eles a mantêm é profundamente não cristão. Acredito que foi em um contexto como esse que Gandhi disse "Amo seu Cristo, mas não seus cristãos, porque são tão diferentes dEle". Acredito que a homofobia nas religiões organizadas é um dos grandes venenos da vida moderna.

E como vê a atuação do papa Francisco em relação aos gays?

Andrew Solomon: O novo papa tem uma enorme humildade e consegue se engajar com as pessoas. Sobre os gays, em particular, ele disse em entrevista algo como "Se uma pessoa é gay e busca Deus, quem sou eu para julgá-la?", o que é bastante diferente das frases dos dois papas anteriores sobre o tema. Fico animado, pois isso demonstra que ele é mais aberto e tolerante à causa. Acredito que não exista apenas um modo de ser uma boa pessoa e um bom cristão.

No Brasil, já há alguns anos, tenta-se aprovar uma lei contra a homofobia. O que acha de uma lei como essa?

Andrew Solomon: Acho que há áreas em que as leis são relevantes: por exemplo, uma lei que impeça que se demitam pessoas por serem gays ou uma lei que afirme ser crime de ódio bater em alguém por ser homossexual. O que não faria sentido é uma lei que obrigasse pessoas que não gostam de gays a passarem a gostar. Isso não se transforma com uma lei, mas com educação. Mas, quando você tem um mecanismo legal que indica que gays precisam ser tratados com igual dignidade, esse é um modo muito forte de comunicar que gays são iguais a qualquer outro ser humano, e isto afeta o modo como a população encara esse grupo. É um círculo: melhores leis ajudam a criar melhores atitudes, e com melhores atitudes é mais fácil criar melhores leis.  

Íntegra: https://www.fronteiras.com/entrevistas/andrew-solomon-homossexualidade-aceitacao-e-preconceito

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