
*Mhario Lincoln
Mesmo se nunca tivesse vivido em São Luís do Maranhão ou em uma cidade de porte parecido - e mesmo assim - teria me identificado com o que Bioque Mesito escreveu nesta crônica, (abaixo) com um toque de midas, ou seja, sem pontuações, sem exageros ortográficos, muito menos virgulitudes ou pontofícios.
Um texto simplesmente arrasador. Aliás, já tinha visto essa técnica (e eu gosto muito) transformada em poesia, quando li “A Poesia Sou EU”, coletânea de Luís Augusto Cassas. Entre quase 2 mil páginas (em 2 volumes) de versos, há um que me veio imediatamente na memória, na hora em que acessei “A Corte”, de Mesito:
“... ó olivette/ 26 letras que choram/ um lance de dedos/ não abolirá o acaso/ afino-te a alma / ~~~~/ como um piano em cauda/ solta as aves da garganta / e canta/. (Pag. 181, Vol. 01)
Abismei-me com uma enxurrada inventariante (e implacável, louve-se), da vida pública e privada, quando, com coragem, Mesito enumera santos, hereges, políticos, “influenciadores” e desvalidos, sob a mesma luz crua da contradição humana.
E é essa cadência (sem pontuação e sem nada; apenas o talento cru e dinâmico) é que me reforça o direito de dizer ao Mundo: meu poeta Mesito, a sua linguagem, exausta e enjoada de filtros, regras bajularas, cobranças, hermenêuticas, insensatez em nome da ‘polutez’ escriturária, acaba de mostrar às luzes das mentes acadêmicas, um verdadeiro país em estado bruto.
Lembrou-me igualmente, caro poeta, a caverna platônica às avessas: em vez de sombras que escondem a verdade, a lista expõe demasiada luz sobre aquele universo, e o excesso de visibilidade impede o discernimento. A ironia corrosiva aproxima a voz do panfleto moral, mas o gesto ainda é literário, mesmo que alguns não digiram assim: desmontar rótulos, nivelar hierarquias e revelar o ridículo de cada tribo.
Parabéns, pois, pelo presente que recebi ao abrir meu WhatsApp. Saiba, amigo: hoje – ah! Hoje – vou dormir em PAZ…
*Mhario Lincoln, editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes
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A CORTE*
Bioque Mesito
todos se perderam na caverna úmida das meretrizes de jesus a maomé de buda aos grandes mestres religiosos o santo pontífice os cardeais do vaticano os pastores os guardadores do sábado os cobradores de dízimos os que batizam em nome do espírito santo as freiras na saída aos fins de semana os coroinhas que acompanham a procissão da virgem santíssima os profetas do apocalipse os ateus os satanistas de plantão os pais de santo os protestantes os cristãos os espíritas os judeus os muçulmanos os que tocam o terror com bombas sonhando que terão virgens no paraíso os políticos do colarinho branco os reis nus os bobos sem corte os golpistas do oito de janeiro os que atentam contra o estado democrático de direito os conservadores cretinos os traficantes solidários os milicianos do rio de janeiro os ladrões cu de galinha os que dependem dos químicos da feira do joão paulo e adjacências os colegiais que não deixam a punheta diária das revistas adultas os moralistas e os falsos moralistas os pais de família na desculpa do serão os nossos irmãos os nossos amigos os doadores de sangue os bêbados do mercado central os engraxates da joão lisboa os poetas do pantheon os participantes dos reality shows que só fazem besteiras os influenciadores digitais os cantores da música popular brasileira os bajuladores dos patrões nas salas fechadas os moradores de rua com suas gonorreias os jogadores da seleção brasileira de futebol os líderes das torcidas organizadas que se matam por futilidades os filósofos existencialistas os pós-doutores de cuba os suicidas antes do aporte final os forasteiros os que amam em demasia as séries dos matadores em série.
(*) Do livro "A montanha diária", Caravana, 2025
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