
Feminina no Brasil- Breve ensaio
Dilercy Adler
1 INTRODUÇÃO
Primeiramente me proponho elucidar os termos que definem o formato do subtítulo do trabalho: historiografia e ícone. O primeiro diz respeito ao registro escrito da História, ou ainda como sendo a arte de escrever e registrar os eventos do passado. O termo historiografia também é utilizado para definir os estudos críticos feitos sobre aquilo que foi escrito sobre a História.
Ícone, no sentido figurado, consiste em algo ou alguém que se distingue ou simboliza determinada época, cultura, área do conhecimento. No contexto popular, um ícone também pode ser uma pessoa muito importante e reconhecida na sua área de trabalho. Por exemplo, um ícone do mundo da música ou do esporte é uma pessoa cujo bom desempenho nessa área é reconhecido amplamente.
No tocante ao título, registro o nome de duas encantadoras mulheres. Encantadoras no sentido mesmo de cativante, que encanta, seduz, atrai, configurando um ato mágico; beirando o significado de feitiço, a exemplo, de encantadores de cavalos, de serpentes. Foi assim que me senti ao entrar em contato com essas duas grandes escritoras.
Convém localizar de onde sai esta breve, mas, pertinente homenagem à mulher, na figura desses dois ícones do espaço feminino no mundo das artes. Assim, esclareço que é das
[…] Ladeiras, Escadarias, Mirantes, Telhados, Platibandas, Pedras de Cantaria onde se enroscam serpentes, Manguda, Palácio das Lágrimas, nascentes de água encantada a se derramar copiosamente por toda a Praia Grande, Rua Grande, Madre de Deus, e desembocam em praias de firmes areias e lençóis de águas cinza-claras e mornas que adornam e aquecem toda a ilha. Assim é São Luís! Sempre fazendo ecoar, ininterruptamente, pelos repiques dos seus tambores e vários sotaques que soam e saem vorazes por todos os cantos da ilha numa espetacular manifestação de amor e louvor à poética arte latina com suas raízes indígenas, africanas, europeias e orientais, transformadas em genuína raça miscigenadamente pura de humanidade ímpar! (ADLER, 2000, p. 3).
Se, por um lado, o ponto de partida é a terra de Maria Firmina, a afrodisíaca Ilha do Amor, São Luís do Maranhão, de outro, fica evidenciada na assertiva anterior a miscigenada pureza da humanidade ímpar da raça humana. De fato, todo o Brasil se apresenta e se construiu a partir de vários povos e nações com histórias de inserção distintas em seu território, a partir das nações indígenas, as primeiras a habitarem estas terras.
Maria Firmina e Nélida Piñon têm ascendências distintas: a primeira tem as suas raízes na Mãe África e a segunda, na Galícia, concelho de Cotobade, na Espanha. Algumas similitudes e especificidades dessas duas ilustres intelectuais, de caminhos construídos distintamente convergiram para que eu as elegesse como dois ícones da Historiografia Literária Feminina no Brasil, neste breve ensaio.
2. SOBRE MARIA FIRMINA DOS REIS
Falar sobre Maria Firmina não é uma tarefa fácil, considerando as condições objetivas da época em que ela viveu. Tempo pródigo em escassez de fontes de registros.
No entanto, um dado incontestável é que Maria Firmina dos Reis nasceu no bairro de São Pantaleão, em São Luís do Maranhão/Brasil, e viveu a maior parte da sua vida em Guimarães/Maranhão.
O mesmo não acontece com a sua data de nascimento e com a origem étnica da sua mãe, as quais, nos meus primeiros trabalhos, com base nas fontes disponíveis à época, eu registrava a data de 11 de outubro de 1825, como a do seu nascimento e que a sua mãe, Leonor Fellipa dos Reis, era branca, de origem portuguesa. Mas, pesquisas recentes (ADLER, 2017) comprovam, com base em documentos da Câmara Eclesiástica/Episcopal, encontrados e disponíveis no Arquivo Público do Estado do Maranhão-APEM, que Maria Firmina dos Reis nasceu em 11 de março de 1822, foi batizada no dia 21 de dezembro de 1825, e a sua mãe era mulata forra, tendo sido escrava do Comendador Caetano José Teixeira. Quanto ao seu pai, em todos as fontes pesquisadas consta apenas o seu nome, João Pedro Esteves.
A imagem de Maria Firmina é outra fonte de querela, tendo reproduções das mais variadas formas, com adereços da época atual e que não condizem muito com os traços, que eu acredito sejam da sua personalidade. Ao lado disso, a preocupação maior é com a imagem da escritora Maria Benedita Câmara Bormann (Délia), cronista, romancista, contista e jornalista gaúcha, atribuída a Maria Firmina. Porém, no atual momento, esse equívoco vem sendo desfeito.
O Maranhão da época de Maria Firmina dos Reis apresentava peculiaridades, pois, como província, teve surgimento glorioso no cenário econômico da Colônia no século XVII, em plena vigência do Mercantilismo e encontrava-se inserido no mercado internacional, desde a expulsão dos franceses, em 1615 e em 1895, tendo chegado a ocupar o segundo lugar entre os estados industriais à frente da Capital Federal, Rio de Janeiro, Bahia e São Paulo. Por outro lado, cabe ressaltar que, segundo Charles Martin (1988), o primeiro romance brasileiro, Úrsula, de autoria de Maria Firmina dos Reis, teve pouca influência sobre outras obras e escritores, por ter sido publicado no Maranhão, longe dos centros culturais brasileiros mais importantes, dentre os quais, a Corte do Rio de Janeiro.
No caso de Maria Firmina, […] as barreiras a serem transpostas eram recrudescidas, pois, enquanto os homens brancos e ricos iam para a Europa estudar nas melhores faculdades, até meados do século XIX, poucas eram as mulheres educadas formalmente. A educação para mulheres, ainda de forma precária, foi iniciada no período imperial, com a chegada da família real ao Brasil (ADLER 2014, p. 9). Maria Firmina, nunca saiu do Maranhão. Lobo, (2007, p. 363), na sua Conclusão do Autorretrato de uma pioneira abolicionista, expressa: Como Sousândrade, Maria Firmina dos Reis viveu deslocada do eixo de poder da Corte. Contudo, ela difere radicalmente daquele que foi viajante dos grandes centros e do exterior, como Paris, Londres, Nova York e Rio de Janeiro, África e Américas. Ela não herdou terras, fazendas nem escravos.
Passou a vida em Guimarães, com poucas travessias pela baía de São Marcos até São Luís. É um notável exemplo de abnegação e força de vontade de quem, vivendo numa pequena vila no interior maranhense, se dedicou à criação literária por meio da árdua profissão de professora pública primária.
Apesar do recrudescimento das barreiras a serem transposta, Maria Firmina construiu um legado artístico-cultural de inestimável valor, tal como a sua obra mais conhecida e marcante, ÚRSULA (romance, 1859), que a colocou no Brasil, como a primeira romancista brasileira, além dos contos: Gupeva (romance de temática indianista, 1861) e A Escrava (conto antiescravista,1887) e seu livro de poemas, “Cantos à beira-mar" (poesia, 1871), dedicado à memória da sua mãe. Tem participação na Antologia Poética Parnaso Maranhense: coleção de poesias, editada por Flávio Reimar y Antonio Marques Rodrigues (1861). Publicações em jornais literários, tais como: Federalista; Pacotilha; Diário do Maranhão; A Revista Maranhense; O País; O Domingo; Porto Livre; O Jardim dos Maranhenses; Semanário Maranhense; Eco da Juventude; Almanaque de Lembranças Brasileiras; A Verdadeira Marmota; Publicador Maranhense; e A Imprensa. Dentre as composições musicais: Auto de bumba-meu-boi (letra e música); Valsa, obra Gonçalves Dias e melodia de Maria Firmina dos Reis (ou como afirmam alguns: letra e melodia de Maria Firmina); Hino à Mocidade (letra e música); Hino à Libertação dos Escravos (letra e música); Rosinha, valsa (letra e música); Pastor Estrela do oriente (letra e música); Canto de recordação “à Praia de Cumã (letra e música) e Poemas avulsos: O meu Desejo; Uma tarde no Cuman; Ah! Não posso; No Álbum de uma Amiga; Ela! Seu nome; Confissão; Donzela, tu suspiras-esse pranto; Meditação; Nas praias do Cuman; Solidão e A uma amiga.
Ainda, segundo Morais Filho (1975) apud Adler (2017, p. 77): […] manuscritos, cadernos de romances e poemas, que não se sabe se inéditos
foram perdidos […] com base no depoimento de Leude de Guimarães, filho de uma das suas filhas adotivas, que um baú contendo documentos de Maria Firmina foi roubado numa pensão onde vivia em São Luís, mas que salvou uma parte do diário de Maria Firmina. Vale ressaltar o papel da imprensa como importante veículo de comunicação à época das produções de Maria Firmina, visto que, segundo Morais Filho (1975), a entrada oficial de Maria Firmina dos Reis na Literatura maranhense foi bem recepcionada pela imprensa maranhense com palavras de entusiasmo e estímulo à estreante. No entanto, Maria Firmina foi vítima, posteriormente, de uma amnésia coletiva, ficando totalmente esquecidos o seu nome e a sua obra, mas, como a Fênix, ressurgiu também das cinzas (Morais Filho apud Adler, 2014, p.12).
Apesar desse lamentável episódio da nossa historiografia literária, após longo período de hibernação, Maria Firmina voltou ao cenário das letras, e as suas obras foram reveladas, (re)descobertas, trazidas à luz, pelas abençoadas mãos de Nascimento Morais Filho, maranhense, e Horácio de Almeida, paraibano (ADLER, 2014, p.6).
Nascimento Morais Filho, como um Sankofa, pássaro africano de duas cabeças, uma cabeça voltada para o passado e outra para o futuro, que, segundo a filosofia africana, significa a volta ao passado para ressignificar o presente, dedicou-se, incansavelmente, para dar novo significado à Maria Firmina dos Reis como mulher e como escritora e professora, dando a ela o lugar que lhe é devido na literatura maranhense e brasileira.
Continua. Clique no link a seguir para ler a parte II
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