
AS FLORES DO MAL, são do mal?
*Mhario Lincoln
Foto/capa: O Triunfo da Morte, Pieter Bruegel, o Velho (c. 1562). (Pieter Bruegel, o Ancião, é um dos mais importantes pintores da Renascença holandesa do século XVI e teve uma influência decisiva no período subsequente da Idade de Ouro.)
Não há a menor dúvida de que AS FLORES DO MAL, de Charles Baudelaire é uma obra prima. Aliás, só um gênio com um único livro de poemas na vida toda; e esse vira uma obra prima. É bem sabido que há no currículo, no entretanto, uma vastíssima produção de textos (de extrema importância), além de poemas em prosa, traduções, matérias jornalísticas, crítica de arte e literatura, até mesmo de música. Um pensador-poeta completo.
O que é importante nesse contexto é a conservação de quase tudo de Baudelaire. Li que há no centro W. T. Bandy de estudos sobre Baudelaire e literatura francesa da Universidade Vanderbilt, mais de 70 mil itens de algum modo referentes ao poeta. Afinal, são 200 anos de memória.
Desta forma, quem já leu AS FLORES DO MAL - este talvez tenha sido meu primeiro livro realmente lido e entendido, enquanto ávido leitor de poesias - não faz (e eu muito menos fazia) ideia da complexidade do conjunto exposto por Charles Baudelaire, especialmente nas discussões canônicas ou mesmo da verdadeira essência do lirismo (ou não) do autor de "Albatroz".
Uns afirmam ser algumas de suas estruturas poéticas, 'mero banalismo'. Li outro dia uma crítica contundente sobre o poema - "Na Curva do Caminho" (“au détour d’un sentier”). Muito mais que uma metáfora. Segundo li, não se tratava apenas de uma reflexão sobre a existência, mas de um caminho onde ao final, é encontrado algo em decomposição, fato esse, acentuado pelo autor.
Abaixo, a tradução de Guilherme de Almeida:
Recorda o objeto vil que vimos, numa quieta,
Linda manhã de doce estio:
Na curva de um caminho uma carniça abjeta
Sobre um leito pedrento e frio,
As pernas para o ar, como uma mulher lasciva,
Entre letais transpirações,
Abria de maneira lânguida e ostensiva
Seu ventre a estuar de exalações.
Reverberava o sol sobre aquela torpeza,
Para cozê-la a ponto, e para,
Centuplicado, devolver à Natureza
Tudo quanto ali ela juntara.
E o céu olhava do alto a soberba carcaça
Como uma flor a se oferecer;
Tão forte era o fedor que sobre a relva crassa
Pensaste até desfalecer.
Zumbiam moscas sobre esse pútrido ventre,
De onde em bandos negros e esquivos
Larvas se escoavam como um grosso líquido entre
Esses trapos de carne, vivos.
Isso tudo ia e vinha, como uma vaga,
Ou se espalhava a borbulhar;
Dir-se-ia que esse corpo, a uma bafagem vaga,
Vivia a se multiplicar.
E esse mundo fazia a música esquisita
Do vento, ou então da água-corrente,
Ou do grão que, mexendo, o joeirador agita
Na joeira, cadenciadamente.
As formas eram já mera ilusão da vista,
Um debuxo que custa a vir,
Sobre a tela esquecida, e que mais tarde o artista
Só de cor consegue concluir.
Entre as rochas, inquieta, uma pobre cadela
Fixava em nós o olhar zangado,
À espera de poder ir retomar àquela
Carcaça pobre o seu bocado.
- E no entanto, hás de ser igual a esse monturo,
Igual a esse infeccioso horror,
Astro do meu olhar, sol do meu ser obscuro,
Tu, meu anjo, tu, meu amor!
Sim! Tal serás um dia, ó tu, toda graciosa,
Quando, ungida e sacramentada,
Tu fores sob a relva e a floração viçosa
Mofar junto a qualquer ossada.
Dize então, ó beleza! aos vermes roedores
Que de beijos te comerão,
Que eu guardo a forma e a essência ideal dos meus amores
Em plena decomposição!
Um poema forte, como se fosse para arrancar, sem piedade, o cascão de uma ferida profunda, fazendo-a jorrar sangue de escárnio. Quem sabe não é uma alusão a amores que nunca deram certo, apesar do insofismável amor do poeta? Mesmo assim, grosso modo, vê-se em rápidas pinceladas, toda uma amplitude poética, com as linhas e versos, reflexões e irrupções certas, no momento certo. Sabe-se que Baudelaire viveu (no aspecto físico também), numa Paris, na época, velha e suja, onde carcaças imundas se viam espalhadas por cantos da cidade. Transformar isso em poesia da forma como ele transformou, aí, é uma outra coisa. É exatamente entre o convívio e a disposição do sentimento extrassensorial de escrever, a beleza e a universalidade de Baudelaire.
Em “O crepúsculo da manhã”, tem insights de preocupação com o social, numa sucessão quase desumana de acontecimentos, até mesmo o mal diário de cada um: basicamente o vômito de Paris. Júlio Castañon Guimarães é muito feliz quando assim se dispõe sobre esse aludido poema e alguma coisa mais sobre os males de Baudelaire: "(...) De volta a Paris, o amanhecer da cidade é apresentado como um velho trabalhador que sai de manhã bem cedo com suas ferramentas para trabalhar. Nas andanças a poesia vai recolhendo, como os trapeiros presentes em vários momentos da obra, as misérias humanas, o mal cotidiano de cada um. Sucedem-se cegos, velhos, doentes, prostitutas, jogadores, desamparados, miseráveis. Até o vinho, mesmo inebriante, o vinho que lança seu 'canto só de luz e de fraternidade', é antes o vinho dos assassinos, dos solitários. E também justamente dos trapeiros, os que veem as pessoas encurvadas sob o lixo, o vômito de Paris. A perambulação pela cidade inclui os velhos bairros, a periferia abandonada, em um cenário de casebres e sarjetas. Circula-se pelo mal, não apenas em uma dimensão moral, mas física(...)".
E continua:
"(...) Esse aspecto forte da poesia baudelairiana faz parte da compreensão possível de seu universo mais amplo. Esse perambular pela cidade e sua periferia acompanha seu trânsito entre a busca do novo e as reticências ante o novo. Por exemplo, se, de um lado, há reticências em relação à novidade da fotografia, o poeta, de outro lado, abraçou a música inovadora de Wagner. Em sua percepção de que as mudanças da cidade não mudam necessariamente a vida de todas as pessoas, está também o enfrentamento das contradições do tempo que foi sua matéria (para citar mais uma vez Drummond). Sua lírica é sobretudo, mais que expressão individual, um drama de que ele participa, conforme expôs em um ensaio inaugural Barbey d’Aurevilly, que bem compreendeu o livro de Baudelaire como o “drama anônimo de que ele é o ator universal (...)”.
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Não é tão fácil tirar conclusões apressadas. Quem lê Charles Baudelaire voa em hermenêuticas multivivas, incrivelmente incendiadas pela vontade de ir mais longe, como ele mesmo fez no icônico "À une passante", descrição explícita e intensa de um encontro fugaz com uma mulher desconhecida na rua, onde ele é tomado por uma mistura de desejo e melancolia ao vê-la passar. Esse poema é um exemplo notável da estética do "flâneur", que Baudelaire ajudou a popularizar na literatura francesa e que o poeta maranhense João Batista do Lago tão bem traduziu em trabalho lírico por mim comentado, vide o link abaixo:
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"À une passante", de Charles Baudelaire
A uma passante
Charles Baudelaire
A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.
Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e
[fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.
Que luz... e a noite após! – Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?
Longe daqui! tarde demais! "nunca" talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!
(Trad. de Ivan Junqueira)
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